Top Ad unit 728 × 90

Últimas publicações

recent

Sobre os demônios



Por Prof. Dr. Elcias Ferreira da Costa

Por que existem demônios?

Nosso primeiro questionamento será: Por que existem os demônios? No incomensurável teatro do universo criado, apresentam-se os demônios como um bem ou como um mal?

Interesse fundamental suscita a pergunta que, ademais, é desafiadora para quantos não estejam familiarizados com os pressupostos de natureza metafísica.

Afirmar que a presença dos demônios no meio da criação constitui um mal é colocar-se contra o princípio metafísico, sustentado por Santo Tomás de Aquino e por Aristóteles, de que o ente e o bem se convertem, que todo ente é bom e que todo bem é ente. Dizer que os demônios sejam um mal parece caluniar o Criador, de cuja vontade onipotente e perfeitíssima se originam os demônios como seres criados. Se tal assertiva não constituísse de per si uma inferência lógica da própria noção de Deus, como Ser perfeitíssimo e causa eficiente de todos os seres, teríamos o oráculo da Sagrada Escritura que nos informa que, concluída toda a obra da criação, “Deus viu que tudo era muito bom” (Gênesis 1, 31).

Razão indiscutível logo se impõe: tudo que existe, existe enquanto Deus o sustém no existir, e qualquer ente do qual o Criador afastasse a sua providência em sustendo-o no existir, seria reduzido ao nada.

A hipótese aqui formulada é, também, sob certo aspecto, caluniosa a Deus, pois, como ser perfeitíssimo que é, nada fez errado, não cabendo qualquer hipótese de que pudesse arrepender-se de qualquer cousa que tivesse criado, a ponto de destruir-lhe a existência. Daí a certeza de que o demônio, se existe, e enquanto existe, existe porque Deus o quer; e o sustenta no existir; é uma criatura de Deus e veio da sabedoria onipotente de Deus.

Literalmente argumenta Santo Tomás:

“Sendo Deus o Existir por excelência, é necessário que o existir criado seja seu efeito próprio, como queimar é efeito próprio do fogo. Esse efeito, Deus o causa nas coisas, não apenas quando estas começam a existir, mas também enquanto são mantidas no existir, à semelhança da luz que, enquanto o ar parece luminoso, é causada no ar pelo sol. Portanto, enquanto uma coisa possui o existir, é necessário que Deus esteja presente, segundo o modo pelo qual possui o existir. Ora, o existir é o que há de mais íntimo e de mais profundo em todas as coisas, pois é o princípio formal de tudo o que existe, como já se explicou. Necessário então se faz que Deus esteja em todas as coisas, e na sua mais profunda intimidade” [1].

Como, porém, conciliar essas duas afirmações: o demônio é descrito nas escrituras como maus, como agentes do mal – (bastaria aqui lembrar a advertência de S. Pedro: “rugindo como um leão, o demônio procura alguém para devorar” [2]) –, entretanto, em sendo mantidos no existir por Deus, sumo Bem, não podem ser considerados como maus, ao menos, não podem ser considerados como maus por essência.

Aqui Santo Tomás sugere que se faça uma distinção entre dois aspectos que se devem considerar no existir dos demônios: de um lado, a própria natureza angelical, como obra de Deus e, de outro, a deformidade – digamos assim: a privação daquela graça original – acrescida à natureza feita por Deus, como resultante do pecado:

“Pois bem – conclui o Angélico – não se deve afirmar que Deus esteja nos demônios, em sentido absoluto, e sim que esteja nos demônios, mas enquanto são realidades (poderia mesmo ter dito: “mas enquanto são naturezas” – Nota do autor). Pois, nas coisas que designam uma natureza, em que o pecado não produziu deformidade, deve-se afirmar que, de modo absoluto, Deus aí está”.

Deparamo-nos aqui com dois aspectos da nossa consideração, a saber, de um lado, a natureza dos demônios como tal, e, de outro, algo que a essa natureza se acrescentou, como acidente, produzido como um efeito do agir dos próprios demônios, enquanto estavam dotados de livre arbítrio.

Se algo de mal é praticado pelos demônios – e quantos males têm sido praticados pelos demônios desde que o mundo é mundo! –, são efeitos do livre arbítrio e não da natureza angélica, como tal.

O que Santo Tomás quis dizer é que, no demônio, como natureza criada por Deus e por Ele sustentada no existir, Deus aí está; não estando, porém, naquela deformidade, que consiste na privação de um bem, que foi perdido pelo livre arbítrio dos anjos maus.

Costumo explicar a solução tomasiana com a distinção seguinte: todo ser é um bem ontológico, e a própria ação dos demônios, sob o ponto de vista ontológico, é um bem, tanto assim que, se não fosse um bem, Deus não colaboraria para que a conduta pecaminosa viesse à existência; entretanto, sob o ponto de vista axiológico, isto é, considerando a sua relação com a finalidade a que deve servir toda conduta, a conduta pecaminosa, sem deixar de ser um bem ontológico, acarreta uma inordinação (isto é, um direcionamento em contrário da) com a finalidade de sua existência, inordinação que Santo Tomás designa com a expressão “deformidade”, constituindo-se em causa de mal e de nocividade para os homens. Efetivamente, pecar outra coisa não é senão desviar-se um ato da retidão que deve ter, seja na ordem natural, seja na ordem artificial ou na ordem moral [3]; pecar é desviar-se do direcionamento para o bem infinito e subsistente.

Mas, aqui, outro questionamento se impõe: ora, se todo agir depende de uma moção divina, o agir dos demônios, quando atuam em detrimento do bem dos homens, seriam também efeito da moção divina? E se assim o for, como ficaria a explicação de que o ente se identifica com o bem? – Santo Tomás de Aquino responde:

“Se fosse supresso o mal de algumas partes do universo, isto em muito degradaria a perfeição do mesmo, cuja beleza provém da equilibrada união dos bens e males, enquanto os males provêm das falhas dos bens, no entanto, alguns bens provêm destes males, segundo dispõe a providência do governante. De acordo com isso se verifica que um canto se torna mais suave quando intercalado por momentos de silêncio. Logo, não era conveniente que a providência divina excluísse totalmente o mal das coisas” [4].

A conduta dos anjos, que, sob ponto de vista ontológico, é sempre um bem, sob o ponto de vista de seu adequadamento com a ordem do Criador, efeito exclusivo do livre arbítrio da criatura angélica, poderá ser um bem ou um mal axiológico, consoante esteja ou não adequada com a ordem do Criador.

Por outro lado, porém, não se deve esquecer que o livre arbítrio, como tal, do qual pode resultar a conduta inadequada com a ordem da Providência, é algo de essencial na substância angélica, predicado que não poderia ser extinto pela sabedoria divina, sem que se destruísse a própria essência do anjo, arquitetada pela mesma sabedoria divina.

A que finalidade serve a ação dos demônios?

Se o bem tem natureza de fim, porquanto bem é tudo aquilo que pode causar apetibilidade, o questionamento que agora se impõe versa sobre que bem pode resultar da presença dos demônios no universo humano? A que bem, como finalidade, se destina a ação diabólica?

É curioso verificar como Santo Tomás de Aquino resolveu esse questionamento ao tratar de uma outra questão, aparentemente desvinculada da presente, a saber, qual o lugar em que deverão os demônios, por determinação da Providência, cumprir a pena devida pelo seu pecado? A esse respeito, responde textualmente o Angélico:

“Por sua natureza estão os anjos entre Deus e os homens. Está no plano da Providência divina que o bem dos seres inferiores seja providenciado pelos seres superiores. De duas maneiras cuida a Providência do bem-estar dos homens: primeiro, de um modo direto, na medida em que alguém é induzido para o bem e afastado do mal; e tal cuidado é com toda conveniência confiado aos anjos bons; segundo, de uma maneira indireta, cuida Deus do bem-estar dos homens, e isso ocorre quando alguém, em sendo atacado, revida e combate o adversário. Essa modalidade de cuidar pelo bem-estar dos homens era conveniente que fosse destinada aos anjos maus, para que, assim atuando, já que haviam pecado, não ficassem inteiramente dispensados de prestarem algum serviço ao bem da ordem natural” [5].

É muito interessante essa última justificação. Feitos por Deus, visando a sua glorificação, elevados pela graça santificante que os qualificou para merecerem a bem-aventurança e dotados de livre arbítrio para escolherem a bem-aventurança, mesmo tendo pecado, não ficaram os anjos [maus] à margem do governo universal da Providência divina; deverão, pelo contrário, atuar para a glória divina em dando aos homens oportunidade de vencerem as tentações, provocadas por eles mesmos.

Está, pois, resolvida a terceira questão sobre qual finalidade querida por Deus em conservando os demônios no existir: Essa finalidade é atingida, sempre que os demônios, em provando os filhos de Deus e em sendo vencidos nessa ação de tentar, fazem resplandecer a glória do Criador.

A seguir, Santo Tomás extrai a conclusão procurada na indagação sobre o lugar em que os demônios devem pagar a pena pelo seu pecado:

“Assim – diz ele – dois lugares são indicados para os demônios cumprirem as penas merecidas por seus pecados: um, para pagar a pena pela culpa do pecado da soberba e da revolta, e este lugar é o inferno; outro, para cumprir a pena devida pelo mal que praticam ao atuarem contra os filhos de Deus, e este lugar é a atmosfera tenebrosa” [6].

A respeito da indicação acima efetuada da morada dos demônios na atmosfera caliginosa, convém observar que era essa uma crença, vinda desde a alta Idade Média, herdada da tradição judaica, passando depois por Santo Anselmo, São Bernardo, Ruperto, bispo de Mans, Rabano Mauro, Alberto Magno, crença que Santo Tomás de Aquino aceitou. Os anjos rebeldes, uma vez expulsos do céu empíreo, onde estavam antes do pecado, ficariam perambulando pelo ar caliginoso, até o fim do mundo, quando, após o juízo final, iriam para o inferno. Todavia, alguns demônios, o diabo à frente, estariam, desde logo no inferno atormentando as almas que foram para lá [7].

Essa mesma crença admite Santo Tomás, possivelmente por respeito à autoridade dos doutores que o antecederam:

“O cuidado pela salvação dos homens – prossegue o Angélico – estende-se até o dia do juízo e até lá perdurarão, tanto o serviço dos anjos bons quanto a ação dos demônios. Por isso, até aquele dia, os anjos bons serão enviados para nos protegerem, e os demônios estarão na atmosfera caliginosa, para nos provarem. Alguns deles, entretanto, estarão agora no inferno, atormentando os que induziram ao mal, ao passo que alguns anjos bons estarão com as almas santas no céu. – Todavia, após o dia do juízo, todos os maus, quer anjos, quer homens, estarão no inferno; e os bons estarão no céu” [8].

Serão os demônios maus por natureza?

Sendo os demônios naturezas intelectuais, jamais teriam inclinação para o mal. Assim argumenta Santo Tomás: “Para se afirmar que uma criatura opere, simultaneamente, ao ser criada, tal operação teria que proceder do agente que lhe deu o existir”. A seguir, compara a hipótese com a situação de uma pessoa que, em decorrência de qualquer deficiência do genitor ou da genitora tiver nascido aleijada. Uma tal pessoa andaria sempre claudicante, porque a sua natureza já veio deficiente ao ser gerada pelo genitor. Ora o existir dos anjos foi-lhes dado por Deus, o qual não pode ser causa de pecado. Conseqüentemente, não se pode pensar que os demônios tenham sido maus por natureza [9]:

“Tudo que é, enquanto é, tem uma natureza, tende naturalmente a um bem, uma vez que para existir procede de um princípio bom, porque o efeito sempre se volta ao seu princípio. No entanto, pode ocorrer que um bem particular esteja unido a um mal, como ao fogo está unido o mal de consumir os outros; o bem universal, porém, este nunca está unido a algum mal. Se a natureza de uma coisa ordena-se a um bem particular, pode ela naturalmente tender a algum mal, mas não enquanto mal, e sim acidentalmente, por estar o mal unido a certo bem. É evidente que toda natureza intelectual se ordena ao bem universal, que por ela pode ser conhecido, e que é objeto da vontade. Por isso, sendo os demônios naturezas intelectuais, jamais terão inclinação natural para mal algum. Logo não podem ser maus por natureza” [10].

Deus não poderia criar uma natureza má. Os anjos foram criados em graça santificante, como semente da glória, pela qual mereciam a visão beatífica da divindade. Num segundo instante, imediatamente depois de criados com a graça santificante, enquanto muitos anjos se fixaram no Verbo divino e alcançaram a bem-aventurança, outros, ao invés, recusaram-se a aderir a Deus, anulando, desse modo, aquele mérito que lhes fora dado juntamente com a graça santificante [11].

Depois da primeira escolha, seja a que resultou na bem-aventurança, seja a que os afastou da amizade divina, a vontade dos anjos não muda mais.

“A vontade humana adere a seu objetivo de uma maneira mutável, podendo mesmo afastar-se de um objeto para aderir ao contrário. A vontade do anjo, porém, adere a seu objeto fixa e imovelmente. Por isso, considerando-se o anjo antes da adesão, poderá livremente aderir a um objeto e a seu oposto (mas nas coisas que, por natureza, não quer). Contudo, depois de ter aderido, permanecerá imóvel. Por isso, costumou-se dizer que o livre-arbítrio do bem é flexível diante das coisas opostas, antes ou depois da escolha; mas que o livre arbítrio do anjo é flexível diante das coisas opostas, antes da escolha, mas não depois não porém, depois. Essa a razão por que os anjos bons, que sempre aderiram à justiça estão nela confirmados; entretanto, no que aos anjos maus se referem, estes, após terem pecado, ficaram obstinados no pecado” [12].

O que podem os demônios

Dois aspectos devem ser considerados na solução desse questionamento: um deles, a capacidade ontológica dos demônios, segundo a sua natureza, e outro, o poder, acrescido aos demônios pela Providência divina, no governo do mundo.

Admitido que os demônios são anjos, a primeira indagação gira em torno de, os demônios, ao perderem o estado de amizade com Deus, tiveram, de algum modo, afetada a sua capacidade natural.

Na solução do quesito, dois pontos devem ser levados em conta: um, a respeito de quais predicados caracterizam a própria natureza dos anjos, e outro, sobre os dons e potencialidades que lhes foram acrescidas com a graça santificante, a qual foi concedida a todos os anjos no primeiro instante da sua criação.

Como conseqüência da queda, não perderam os anjos a inteligência das idéias inatas, que receberam do Verbo, logo ao serem criados. Apoiando-se na autoridade do pseudo-Dionísio, diz Santo Tomás:

“Os dons angélicos naturais, dados aos demônios, não foram modificados, mas continuam íntegros e em grande esplendor. Ora, o conhecimento da verdade está entre esses dons naturais. Portanto, os demônios têm algum conhecimento da verdade. Há de se considerar ainda, no que concerne aos dons da natureza angélica, que duplo é o conhecimento da verdade: um, que se tenha pela graça, outro, que se tem natureza. O conhecimento que se tem pela graça são dois: um especulativo, o qual se obtém quando são revelados os segredos divinos. E outro, efetivo, o qual leva ao amor de Deus, este último pertence ao dom da Sabedoria. Destes três modos de conhecimento, o que pertence à natureza angélica, a qual em si mesma consta de inteligência ou espírito... esse não foi tirado dos demônios, nem diminuído. Do conhecimento, que se obtém pela graça, o especulativo não foi totalmente tirado dos demônios, mas diminuído... O conhecimento – o afetivo, que foi também obtido pela graça – os demônios foram totalmente privados, como também da caridade” [13].

Como substâncias puramente espirituais, não têm os anjos composição de matéria e forma. São criaturas intelectuais; o seu inteligir é superior ao nosso, não estando condicionado à necessidade de abstrair da matéria a forma inteligível, sendo intuitiva sua intelecção. Por outro lado, tudo quanto os anjos são capazes de conhecer, considerada a sua espécie, já conhecem em ato, não precisam, à semelhança do que ocorre com os humanos, passar do conhecido ao desconhecido, pelo processo de raciocínio.

“As substâncias superiores, os anjos, diversamente do que ocorre com as substâncias espirituais inferiores (as almas), são totalmente separadas de corpos materiais e subsistentes no ser inteligível. Por isso recebem sua perfeição inteligível de um influxo inteligível pelo qual, juntamente com a natureza intelectual, receberam de Deus as espécies das coisas cognoscíveis” [14].

“Sendo, no entanto, substâncias puramente espirituais, todavia, porque, consoante Paulo na carta aos Hebreus (1, 14), são todos administradores de Deus, foi-lhes dado conhecer as coisas singulares que são revestidas de matéria. Não tivessem eles conhecimento das coisas singulares, nenhuma providência deles haveria neste mundo, pois os atos são dos singulares” [15].

Curiosa a distinção feita por Sto. Agostinho entre dois gêneros de conhecimento dos anjos: um matutino outro vespertino, distinção que é assumida por Santo Tomás de Aquino:

“Diz Agostinho que as coisas que preexistiram no Verbo de Deus, desde a eternidade, dele saíram de dois modos: primeiro, para o intelecto angélico, e segundo, para subsistirem em suas próprias naturezas. Para o intelecto angélico, porque Deus imprimiu na mente angélica a semelhança das coisas que produziu em seu ser natural. Desde toda a eternidade existiram no Verbo, não só as essências das coisas corporais, como também as de todas as criaturas espirituais. Assim, em cada criatura espiritual, foram impressas pelo Verbo de Deus todas as essências de todas as coisas, tanto das corporais, como das espirituais [...] a fim de que, mediante tais espécies impressas, conhecessem tanto as criaturas corporais, como as espirituais” [16].

“Agostinho foi quem introduziu nos anjos a distinção entre conhecimento vespertino e conhecimento matutino. Para ele, os seis dias durante os quais, segundo o livro do Gênesis, Deus fez todas as coisas, não são dias ordinários, determinados pelo movimento circular do sol – porquanto se lê que o sol foi criado no quarto dia – mas um só dia, a saber, o conhecimento dos anjos, representado por seis gêneros de coisas. Como no dia habitual, a manhã é seu princípio e a tarde o seu término, assim também o primeiro conhecimento que tiveram do ser das coisas, chama-se conhecimento matutino. E este é o conhecimento das coisas, conforme estão em Deus. Já o conhecimento que tiveram do ser criado, enquanto existe na própria natureza, chama-se conhecimento vespertino. Assim se entende que o existir das coisas decorre do Verbo, como de um princípio primordial, e termina no existir das coisas em sua própria natureza” [17].

Diante da afirmação de que os anjos são substâncias puramente espirituais, Santo Tomás suscita a dificuldade para se explicar qual a natureza dos corpos que, segundo relatos bíblicos, teriam assumido os anjos, quando, por exemplo, apareceram a Abraão, a Lot, aos habitantes de Sodoma, a Tobias, no Antigo Testamento, e noutras aparições referidas nos livros do Novo Testamento. Antes de tudo, adverte o Angélico que se não deve atribuir que fossem aquelas aparições puro efeito da imaginação, sobretudo quando se considera que muitas das aparições de anjos, relatadas na Sagrada Escritura, foram vistas por mais de uma pessoa [18].

A primeira preocupação do Angélico, na tentativa de explicação, refere-se ao aspecto ontológico, ou mesmo teólogo, a saber: admitido que os anjos, por serem substâncias espirituais, não são constituídos de matéria e forma, donde lhes vieram aqueles corpos, através dos quais eles apareceram, nos acontecimentos narrados na Escritura Sagrada? Se não eram corpos angélicos, como se identificam os anjos?

Aí vem sua explicação:

“Deve-se dizer que o corpo assumido une-se ao anjo, não como sendo uma matéria una-se à sua forma, nem mesmo como uma substância unida apenas como a seu motor, mas como unida a um motor, representado pelo corpo móvel assumido. A Sagrada Escritura descreve as propriedades das coisas inteligíveis por meio de semelhanças com as coisas sensíveis. Assim também os anjos, pelo poder divino, assumem a forma de corpos sensíveis, a fim de representarem as propriedades inteligíveis dos anjos” [19].

Em seguida, tenta explicar como poderia o anjo ter assumido uma forma de corpo, que nem fosse forma substancial constituindo a sua própria natureza, nem pura alucinação:

“Deve-se dizer que embora o ar, em sua rarefação, não contenha figura nem cor, contudo, quando condensado pode configurar-se e colorir-se, como se vê nas nuvens. E portanto, a partir do ar que os anjos assumem os corpos, condensando-o pelo poder divino, na quantidade necessária para formar um corpo” [20].

Sua preocupação está em evitar que se pense que um anjo “tivesse virado gente”, ao aparecer nos relatos da Escritura.

Todavia, insiste ele em dizer que, nos corpos assumidos, não exerceram os anjos quaisquer funções vitais, como sejam, sentir, alimentar-se. Invoca em abono dessa afirmação o exemplo referido na apócope bíblica (Tobias 12, 18), em que, o Anjo Rafael, recusa-se a sentar-se à mesa de Tobias para comer, dizendo: “Quando eu estava contigo, parecia que estava comendo e bebendo, todavia eu me nutro de um alimento e de uma bebida invisíveis” [21].

Outra curiosidade na questão angelológica de Santo Tomás verificamos na sua tentativa de explicar uma das crendices do folclore medieval, que falam de conjunção sexual dos demônios, que apareciam, ora em forma de mulher para seduzir homens, ora em forma de homens para seduzir mulheres. Uma dessas crendices era a de que os demônios assumiam formas humanas, a fim de seduzir as pessoas e induzi-las a conjunções sexuais. Para corroborar essa crendice, alguns comentadores da Sagrada Escritura, em interpretando aquele texto do Gênesis (6, 4), segundo o qual, depois que os filhos de Deus se uniram às filhas dos homens, elas geraram, e seus filhos foram homens poderosos e famosos no mundo, entenderam a expressão “filhos de Deus” como significando os anjos, os quais se teriam unido sexualmente às filhas dos homens, tendo desse relacionamento nascido gigantes, homens poderosos e famosos no mundo.

Diante da interpretação transmitida por muitos autores da alta Idade Média, Santo Tomás, sem tomar posição, reproduz, ipsis litteris, a opinião de Santo Agostinho, nos seguintes termos:

“Muitos asseguraram ter experiência, ou ter ouvido dizer por aqueles que a tiveram, que os silvanos e os faunos (vulgarmente chamados íncubos) muitas vezes se apresentaram a mulheres, e que as solicitaram e tiveram relação sexual com elas. Negá-lo parece imprudência. Mas, os santos anjos de Deus não poderiam cair dessa forma antes do dilúvio. Donde se conclui que por filhos de Deus se entendem os filhos de Set, que eram bons. E a Escritura nomeia filhas dos homens aquelas que eram da estirpe de Caim. Nem se deve admirar que dessa união tenham nascido gigantes. Aliás nem todos eram gigantes, e antes do dilúvio os gigantes eram em maior número do que depois” [22].

Até aí, muito bem. Porém, a seguir, o santo Doutor faz uma acrobacia intelectual complicada, a fim de encontrar uma explicação coerente com a sua tese de que os demônios, como puros espíritos, não são compostos de matéria e forma, conseqüentemente, não têm como os humanos um corpo, capaz de exercer funções vitais e também reprodutoras. Se Santo Agostinho, uma das autoridades mais respeitáveis para Santo Tomás, considerou que seria imprudência negar a possibilidade de contato sexual de demônios com pessoas, tornava-se imperioso agora encontrar uma fórmula que explicasse a possibilidade de terem sido geradas pessoas humanas, aparentemente produto da geração demoníaca.

Explica o Angélico que a geração que terá havido em conseqüência de tais conjunções sexuais foi produto, não de um sêmen produzido pelos demônios, ou pelos corpos assumidos por eles, mas de um sêmen humano, que o demônio feminino (súcubo) recebera, numa cópula com um homem verdadeiro, sêmen que teria sido utilizado por outro demônio, este masculino (íncubo), que, ao seduzir uma mulher verdadeira, nela depositou o sêmen, que fora obtido pela cópula do demônio súcubo.

Algo assim como a fertilização in vitro, dos dias atuais. Tal comentário de Santo Tomás de Aquino, em sua aparência de risível, merece uma explicação, e essa foi dada pelo Pe. Jean-Hervé Nicolas, o mesmo autor das notas, constantes da tradução da Suma Teológica pelas Edições Loyola:

“Semelhantes pormenores nos chocam. Mais uma vez, é preciso ter presente que, para um autor da Idade Média, tratava-se de fatos reconhecidos e que é preciso explicar. Santo Tomás se empenha nisso, de uma maneira que nos parece ingênua, mas sem nada subtrair-lhe do que é para ele essencial: a pura espiritualidade do anjo e sua transcendência em relação ao cosmo. Aliás, essas observações possuem um caráter circunstancial de resposta a objeções, correntes na época e que não desempenha nenhum papel em sua angelologia”.

Há uma razão a mais para explicar a atitude de Santo Tomás a respeito dessa crendice – incontestavelmente ridícula para um leitor do século XXI. Santo Tomás de Aquino nutria profundo respeito em face da autoridade dos Padres da Igreja, para cujos ensinamentos procurava sempre encontrar uma fundamentação racional ou teológica. Observa-se que essa lenda não constituía, nem para ele nem para os Santos Padres, quase totalidade, uma doutrina revelada, tendo sido recepcionada da tradição judaica, através do livro apócrifo, chamado Livro de Henoch, escrito por volta do II século antes de Cristo. Outro livro apócrifo, também fonte da tradição judaica, em que se reeditou a lenda do romance dos anjos com as mulheres formosas, foi o chamado Livro dos Jubileus, escrito por volta do século I de nossa era.

A lenda sobre o envolvimento sexual de anjos ou de demônios com mulheres não foi admitida por Eusébio de Cesaréia, Santo Atanásio, São Basílio, São Gregório Nazianzeno, Santo Epifânio, Teodoreto, São João Crisóstomo, São Cirilo de Alexandria, São Filiastro, São Cirilo de Jerusalém, Orígenes, Cassiano. Entretanto aceitaram-na São Justino, Santo Irineu, Atenágoras, Clemente de Alexandria, Tertuliano, São Cipriano, Lactâncio, Santo Ambrósio, Sulpício Severo e o Poeta Comodiano. Quanto a Santo Agostinho, este parece que ficou indeciso, pois se não abraçou firmemente, também não rejeita peremptoriamente [23]; citado pelo Angélico disse que “negar a crença naquelas estórias parecia imprudência”.

O que não podem os demônios

O que aos anjos bons é impossível, a fortiori o é também aos anjos decaídos. Primeiro, não podem fazer milagres.

Preliminarmente, distingue Santo Tomás entre o milagre, propriamente dito, e os feitos extraordinários, que oferecem aparência de milagre. O milagre, em sentido próprio e verdadeiro, ocorre, diz ele, quando algo se faz além da ordem da natureza; bem entendido, não apenas além da ordem da natureza de algo particular – pois, entendido dessa forma, quando alguém lançasse para o alto uma pedra, estaria fazendo milagre, por ser isto contra a ordem da natureza da pedra –, mas, quando algo é feito ultrapassando a ordem da natureza criada inteira. Ora, tão somente Deus pode efetuar uma suspensão ou alteração na ordem da natureza inteira. Tudo que um anjo, ou qualquer outra criatura realiza com seu poder pessoal acontece dentro da ordem da natureza.

Sem dúvida, que o próprio Deus pode efetuar milagres, por meio dos anjos, ou mesmo, dos homens santos.

Observa ainda o Angélico que muitos fatos, aparentemente prodigiosos, ultrapassam os limites de nosso atual conhecimento da natureza e, sob esse aspecto, para nós, afiguram-se como milagres. É possível que os demônios realizem algo, por sua potência natural e que, para nosso conhecimento limitado, esteja fora da ordem da natureza. Assim é que os magos fazem coisas prodigiosas, mediante uma colaboração dos demônios, com os quais mantêm uma espécie de contrato particular [24].

As lendas dos nossos matutos, que falam de pessoas que são encantadas, transformando-se, por exemplo, em troncos, ou mesmo, em fadas, são idéias absurdas, ao se considerar que a matéria corporal não obedece em si mesmo à ordem de anjos, sejam bons e, a fortiori, sejam maus. Não podem mudar a matéria de uma forma para outra.

Para a nossa geração, que conseguiu superar vários estágios de experiências em matéria de biologia, poderá parecer engenhosa a seguinte explicação que Santo Tomás oferece com relação aos feitos extraordinários, operados pelos magos do Egito, no tempo dos faraós.

Para explicar, dentro dessa perspectiva, os prodígios realizados pelos magos de Faraó, ao transformarem certas coisas em serpentes ou rãs, alega, apoiando-se em Santo Agostinho, que empregaram alguns dos germes que se encontram nos elementos do mundo, a fim de obter tais feitos:

“Deve-se dizer que todas as transformações das coisas corporais, passíveis de ser ordenadas pelas forças naturais, às quais pertencem esses germes, podem também ser operadas pelos demônios, se recorrerem a tais germes. Assim, por exemplo, certas coisas são transformadas em serpentes ou rãs, dado que estes podem ser gerados pela putrefação” [25].

Não podem os demônios insinuar pensamentos nos humanos, causando-os no interior, uma vez que o uso da potência cognitiva depende da vontade. Quando se diz que o diabo excita os pensamentos, desperta pensamento, deve-se entender unicamente que o demônio pode, mediante persuasão ou excitamento de paixões, despertar pensamento de coisas, que já foram pensadas anteriormente [26].

De igual maneira, deve-se dizer que não têm os anjos nem os demônios poder para atuar sobre a imaginação das pessoas, imprimindo-lhes formas imaginárias que já não tenham sido antes recebidas pelos sentidos das pessoas. Exatamente por isso, não podem os demônios fazer com que um cego de nascença imagine cores [27].

Também não está no poder dos demônios conhecer o interior das pessoas, os seus pensamentos ou os segredos do coração. Só Deus tem esse poder de penetrar no sacrário da personalidade humana, e a esse respeito já foi dito pelo profeta Jeremias (Jer. 17, 9-10), falando em nome de Deus: “Perverso e impenetrável é o coração do homem; quem o conhecerá? – Somente Eu, o Senhor, que penetro os corações” [28].

O que fica acessível ao poder dos demônios é apenas explorar a condição interior do homem, visando a tentá-lo no vício, para o qual já tem propensão habitual. Pode, de certo modo, agir sobre as forças inferiores do homem e, até certo ponto, inclinar a vontade, não, porém, dominar a vontade das pessoas [29].

Apoiando-se na autoridade de Santo Agostinho, diz o Doutor Comum que, às vezes, descobrem os demônios as disposições dos homens, com toda facilidade, e não só as que se manifestam por palavras, mas também as concebidas internamente, isso, “porém, quando no corpo se manifesta qualquer sinal delas” [30].

Também não podem os anjos bons e, a fortiori, também não podem os demônios conhecer o futuro. Essa capacidade – afirma enfaticamente o Doutor Angélico – é característica da divindade, tal como está dito em Isaías: “Anunciai o que acontecerá no futuro e saberemos que sois deuses”.

Qualquer intelecto criado – os anjos inclusive, sejam os bons, sejam os demônios – por não participar da eternidade divina, não pode abarcar o futuro, tal como é em seu ser [31].

Poder-se-ia, dentro dos pressupostos metafísicos assumidos por Santo Tomás, dizer: o objeto do intelecto é o Ente; o que não existe e, aquilo do qual apenas existe a possibilidade de existir, está fora da ordem do Ser, podendo-se apenas afirmar de tal imaginado ser, que esteja na ordem do que poderá vir a ser. Conseqüentemente, não pode ser objeto do intelecto criado.

Com razoabilidade se dirá que os homens podem conhecer o futuro em suas causas, ou por revelação de Deus. E, sob esse aspecto, os anjos conhecem o futuro com mais subtileza do que os homens [32].

Onde estão situados os anjos?

As substâncias espirituais foram criadas com uma certa destinação de presidirem as criaturas corpóreas. E, para que essa presidência alcançasse todas as criaturas corpóreas – não só os homens, mas todo o universo material –, foram os anjos criados no local corpóreo mais elevado, designe-se de céu empíreo ou de outro nome qualquer [33].

De certo modo, também curiosa a sua opinião, divergente da de muitos santos doutores – ele mesmo o afirma – segundo a qual, não foram os anjos criados antes do universo corpóreo, mas em um lugar corpóreo, para mostrar sua relação com a natureza corpórea e mostrar que têm contato com os corpos, contato não material, porém, resultante do uso do poder que lhes foi dado sobre as coisas [34].

Noutro lugar [35], diz que “assim como os anjos inferiores, com suas formas menos universais, são regidos pelos anjos superiores, assim também todas as coisas corporais são regidas pelos anjos”. E acrescenta enfaticamente: “Esse é o ensinamento, não só dos santos doutores, mas de todos os filósofos que admitem a existência de substâncias espirituais”.

O pecado dos demônios

A espécie de pecado que deu origem aos demônios foi, segundo Santo Tomás de Aquino, o pecado da soberba. Ele explica:

“De duas maneiras o pecado pode estar em alguém: ou por culpabilidade, ou por afeição. Por culpabilidade, todos os pecados podem estar nos demônios, porque, em induzido os homens a todos os pecados, incorrem na culpa de todos.  Entretanto, por afeição, só poderá haver nos anjos maus os pecados os quais a natureza espiritual pode se afeiçoar. Acontece, porém, que a natureza espiritual não se afeiçoa aos bens próprios do corpo, mas só aos que podem ser encontrados nos espíritos; na verdade, ninguém e nada se afeiçoa, a não ser àquilo que de algum modo pode convir à sua natureza. Ora, em se tratando de bens espirituais, só pode haver pecado se alguém a eles se afeiçoa, sem levar em conta a regra do superior a respeito de tal afeição. Nisso está o pecado da soberba: em não se submeter ao superior, naquilo que lhe é devido. Por isso, o primeiro pecado do anjo só pode ser de soberba. Depois do pecado de soberba, seguiu-se no anjo pecador o mal da inveja, pelo qual se entristece diante do bem do homem, e também diante da grandeza de Deus, enquanto Deus usa desse bem contra a vontade má do diabo para sua própria vida” [36].

Ensina Santo Tomás que o diabo desejou ser como Deus, tal como está dito no seguinte texto de Isaías: “Subirei para o alto e serei semelhante ao Altíssimo”. Não por igualdade desejou ser como Deus, mas por semelhança. Desejar ser semelhante a Deus por igualdade, isso não só era impossível, como incompatível com a própria natureza, sabendo-se que, em todas as coisas, há um desejo natural de se conservar no próprio ser, o qual não seria conservado, se a natureza da coisa fosse mudada em outra. O asno, por exemplo, não deseja ser cavalo, pois, se lhe fosse mudada a natureza para um grau superior, não seria mais ele mesmo [37].

Acompanhando o ensinamento de Gregório, admite Santo Tomás que o anjo que primeiro se revoltou contra Deus foi o que era maior entre todos. E o nome que lhe cabe é, não o de Serafim, que significa ardoroso e inflamado no ardor da caridade a Deus, mas Querubim, palavra que significa plenitude de ciência, por isso pode coexistir com o pecado [38].

Qual a família mais numerosa: a dos anjos bons ou a dos anjos maus?

Santo Tomás inclina-se pela maioria dos anjos bons.

Antes de tudo, entende Santo Tomás de Aquino que as substâncias imateriais constituem uma multidão imensa, superando toda a multidão que constitui a natureza material. E justifica com o seguinte arrazoado:

“Tendo Deus como finalidade principal na criação a perfeição do universo, quanto mais perfeitos são alguns seres, em tanto maior abundância Deus os criou. Pois bem: da mesma forma que nos corpos se considera o excesso pela grandeza, nos seres incorpóreos se considera o excesso pela quantidade” [39].

Não se deve esquecer outro ponto, unânime na doutrina católica, e que vem desde São Jerônimo: a cada alma, desde o nascimento, foi delegado um anjo, para defendê-lo e guardá-lo [40]. E adianta o Angélico: “Os demônios são impedidos pelos anjos bons de fazerem o mal, tanto quanto gostariam. E mais: também o Anticristo não poderá fazer todo mal que quiser” [41].

Contudo, a Providência divina vai até aos mínimos detalhes da criação. Não apenas as pessoas recebem um anjo, como guarda e protetor, mas também as coletividades:

“A guarda da multidão humana compete à ordem dos Principados, ou mesmo dos Arcanjos, chamados Príncipes dos Anjos. Daí que Miguel, a quem consideramos arcanjo, ser chamado um dos príncipes, no livro de Daniel. Em seguida, vêm as Virtudes, que têm a guarda de todas as naturezas corpóreas, e depois ainda, as Potestades, que têm a defesa contra os demônios. Finalmente, segundo Gregório, os Principados têm a guarda dos bons espíritos” [42].

Como diz na questão 113, art. 6: “Nenhum homem, nem coisa alguma subtrai-se totalmente à divina Providência, pois, na medida em que participa no existir, está sujeito à Providência universal sobre todos os entes”.

Interessante a convicção de Santo Tomás a respeito da indefectibilidade da Providência divina, em cuidando da pessoa humana, ao considerar a perseguição que os demônios podem fazer aos homens. Comentando a advertência de São Paulo aos Efésios, de que “não é contra a carne e o sangue que lutamos, mas contra os Principados e Potestades, contra os dominadores deste mundo tenebroso, os espíritos do mal que estão no céu”, diz:

“O combate em si mesmo procede da maldade dos demônios, que por inveja se esforçam para impedir o progresso dos homens e por soberba usurpam a semelhança do poder divino... Todavia, a ordem desses combates vem de Deus, que sabe usar dos males com ordem, direcionando-os para o bem. Quando os demônios instigam os homens a pecar, essa iniciativa é deles mesmos, estando, porém, condicionados à permissão de Deus e aos seus sábios juízos” [43].

A presença da Providência não se afasta da arena do combate, sempre atenta para impedir a desigualdade de condições em prejuízo dos homens. Acrescenta o Angélico:

“Para que a condição de luta não seja desigual, o homem recebe uma compensação, principalmente o auxílio da graça divina, e além disso, a guarda dos anjos. Neste sentido, disse o profeta Eliseu (em 4 Reis 6, 16) a seu ajudante: Não tenhas medo! – Os que estão do nosso lado são mais numerosos do que os que estão do lado deles” [44].

Curioso verificar que, considerando os anjos e os demônios, em pleno século XIII, período histórico conhecido como imerso em crendices, no qual a magia, as superstições e o fenômeno das possessões diabólicas eram tão freqüentes, não tenha Santo Tomás dado, no Tratado da Suma Teológica, que vimos comentando, atenção especial a esse fenômeno.

Para nós importa muito mais a aplicação dos princípios teológicos em nossas atitudes e as conclusões fundamentais, a saber: que a existência do diabo faz parte do nosso destino, tanto quanto a sua presença fez parte da ação redentora de Cristo; que a esfera de atuação e de poder do demônio está delimitada pela Providência divina. Sem dúvida, também consta dos livros sagrados que a nós, cristãos, foi reservada a oportunidade de enfrentá-lo.

Entretanto, deve ainda prevalecer em nossas convicções que diabo é um servo despeitado de Deus, vencido por Jesus Cristo [45] – como disse São João: o príncipe deste mundo será jogado fora, pois que já foi julgado – e que tem a missão divina de colaborar para a santificação dos homens, pelas tentações, porém sempre dentro da medida permitida por Deus.

Se até para puxar um fio do nosso cabelo, precisa o demônio de autorização do Senhor, que é o Governador do mundo, o demônio não resiste à força do batismo que marca os filhos de Deus, os quais receberam do seu Criador um seu anjo protetor; além dos anjos encarregados de proteger toda a raça humana, os quais são em número muito maior do que o dos demônios, não se precisa alimentar o medo das magias, das macumbas e de outras artes diabólicas.

De certo, bastante salutar será a invocação da companhia dos santos anjos, tal como, entre outros pontífices, nos sugeriu Leão XIII, com a famosa prece a S. Miguel arcanjo, que até o Concílio Vaticano II, era recitada ao fim da missa:

“São Miguel Arcanjo, defendei-nos neste combate; sede a nossa guarda contra a maldade e as ciladas do demônio. Que Deus impere sobre ele, e vós, como Príncipe da milícia celeste, com esse poder divino precipitai no inferno a satanás e aos outros espíritos malignos, que vagueiam pelo mundo para perdição das almas”.

Santa Teresinha do Menino Jesus sintetizou o ensinamento que aqui expusemos, mediante a narrativa de um sonho, o qual – diga-se – revela aquilo que estava em seu subconsciente e na sua consciência.

O relato abaixo transcrito é bem coerente com o que ensinou Santo Tomás de Aquino a respeito da relatividade do poder dos demônios.

“Recordo-me de um sonho que tive nessa idade (uns quatro anos aproximadamente) e que me ficou gravado na memória: Andava eu a passear sozinha no jardim, quando de repente divisei perto do caramanchão dois horrendos diabinhos a dançar em cima de uma barrica de cal com vertiginosa agilidade, não obstante os pesados grilhões que tinham nos pés. Deitaram-me primeiro uns olhos que faiscavam lume; depois, como que tomados de espanto, vi-os precipitarem-se rapidamente no fundo da barrica, saírem logo não sei por que abertura, correrem e esconderem-se finalmente na rouparia contígua ao jardim e ao mesmo nível deles. Vendo-os tão covardes, quis saber o que iam fazer naquele esconderijo, e, sobrepondo-me ao susto, abeirei-me da janela... Os pobres demônios andavam a correr e a saltar por cima das mesas, sem atinarem como haviam de fugir às minhas vistas. De vez em quando, assomavam-se à janela, a espreitar pelos vidros, com olhar inquieto; mas vendo que eu não despejava dali, recomeçavam a sua carreira numa fúria desesperada. Evidentemente neste sonho não há nada de extraordinário; julgo que se quis Deus servir-se deles para me mostrar que uma alma em estado de graça nada tem a temer dos demônios, que afinal são uns covardes, que se envergonham de fugir diante de uma criança” [46].


* * *

[1] Suma Teológica, I Parte, Q. 8, art. 1. Nota bene: Entendemos como muitos autores (Rassam, Ferrater Mora, entre outros) que a expressão “Esse” em Santo Tomás corresponde ao nosso verbo “Existir”, e não a “ser”, expressão que pode ser entendida ora como ação de ser, ora como sujeito de ser, ora com talidade do ser. “... quando esse incipiunt – e – quandiu in esse conservantur” não quer significar conservar em ser, mas conservar em existir, em tendo existência. Quando res habet esse: não significa “quando a coisa tem o ser”, – que ser? – mas “quando a coisa tem existir”.

[2] I Epístola de Pedro 5, 8.

[3] Suma Teológica, q. 63, art. 1.

[4] Suma Contra Gentios, n. 2473.

[5] Suma Teológica, I Parte, q. 64, art. 4.

[6] Suma Contra Gentios, n. 2473.

[7] Cf. MANGENOT, E. Démon d’après les scholostiques et les théologues postérieurs. In: VACANT, A.; MANGENOT, E. (orgs). Dictionnaire de Théologie Catholique. Paris: Dabilon, 1946. Tome IV, Partie I, p. 396.

[8] Suma Teológica, I Parte, q. 64, art. 4.

[9] Ibid., q. 63, art. 4 e art. 5.

[10] Ibid., q. 65, art. 3.

[11] Ibid., q. 62, art. 3.

[12] Suma Teológica, Parte I, q. 64, art. 2.

[13] Suma Teológica, Parte I, q. 64, art. 1.

[14] Ibid., q. 55, art. 1.

[15] Ibid., q. 57, art. 2.

[16] Ibid., q. 56, art. 2.

[17] Suma Teológica, Parte I, q. 58, art. 6.

[18] Ibid., q. 51, art. 2.

[19] Ibid., q. 64, art. 1, ad 1um.

[20] Ibid., q. 54, art. 1, ad 3um.

[21] Suma Teológica, Parte I, q. 51, art. 3, ad 5um.

[22] Agostinho, citado por Santo Tomás na Suma Teológica, Parte I, q. 51, art. 3, ad 6um.

[23] As informações históricas contidas no presente parágrafo foram extraídas de Mangenot, 1946, p. 346 ss. Entre outras variantes: Deus teria encarregado os anjos de velarem pelos homens e por todas as criaturas. Atraídos pela formosura das mulheres, os anjos desceram sobre o cimo do monte Hermon, tiveram filhos daquelas mulheres e foram despejados do céu.

[24] Suma Teológica, Parte I, q. 110, art. 4.

[25] Suma Teológica, Parte I, q. 113, art. 4, ad 2um.

[26] Ibid., q. 111, art. 2.

[27] Ibid., q. 111, art. 3.

[28] Ibid., q. 57, art. ?.

[29] Ibid., q. 114, art. 3.

[30] Suma Teológica, Parte I, q. 57, art. 4.

[31] Ibid., q. 57, art. 3.

[32] Ibid., q. 57, art. 3, ad 1um.

[33] Ibid., q. 61, art. 4.

[34] Ibid., q. 62, art. 3.

[35] Ibid., q. 110, art. 1.

[36] Suma Teológica, Parte I, q. 63, art. 2.

[37] Suma Teológica, Parte I, q. 63, art. 3.

[38] ibidem.

[39] Suma Teológica, Parte I, q. 53, art. 3.

[40] Ibid., q. 113, art. 2.

[41] Ibid., q. 113, art. 5.

[42] Ibid., q. 113, art. 3.

[43] Suma Teológica, Parte I, q. 114, art. 1, ad 1um.

[44] Ibid., q. 114, art. 1, ad 2um.

[45] O príncipe deste mundo já foi julgado: 12, 31; 16, 11.

[46] Santa Teresa do Menino Jesus, História de uma alma, escrita por ela própria. Trad. De Pe. Luís Maria Alves Correia. Porto. Livraria Apostolado da Imprensa, 1952. p. 17.
Sobre os demônios Reviewed by Editor on segunda-feira, abril 01, 2013 Rating: 5
Todos os direitos reservados — Renitência © 2013—2018
Hospedado no Blogger. Desenvolvido por Sweetheme.

Entre em contato conosco

Nome

E-mail *

Mensagem *

Tecnologia do Blogger.