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A opção federalista do bispo de Roma

Tradução: Carlos Wolkartt – Renitencia.com

Mais autonomia às conferências episcopais nacionais. E mais espaço para as diferentes culturas. Os dois pontos em que a “Evangelii Gaudium” mais se distingue do magistério dos Papas anteriores.

ROMA, 3 de dezembro de 2013 – Na longa exortação apostólica “Evangelii Gaudium”, tornada pública há uma semana, o papa Francisco deu a entender que quer distinguir-se ao menos em dois pontos dos Papas que o precederam.

O primeiro destes pontos é também o que teve mais repercussão nos meios de comunicação. Refere-se tanto ao exercício do primado do Papa como aos poderes das conferências episcopais.

O segundo ponto remete à relação entre o cristianismo e as culturas.

1. Sobre o papado e as Igrejas nacionais

Em relação ao papel do Papa, Jorge Mario Bergoglio reconhece em João Paulo II o mérito de ter aberto o caminho a uma nova forma de exercício do primado. Porém, lamenta que “pouco temos avançado neste sentido” e promete proceder com mais decisão até uma forma de papado “mais fiel ao significado que Jesus Cristo pretendeu dar-lhe e às necessidades atuais da evangelização”.

Contudo, mais que sobre o papel do Papa – tema sobre o qual Francisco permanece impreciso, e dessa forma atuou até agora, concentrando em si o máximo das decisões – é sobre os poderes das conferências episcopais que a “Evangelii Gaudium” anuncia uma grande transição.

Escreve o Papa, no parágrafo 32 do documento:

“O Concílio Vaticano II afirmou que, à semelhança das antigas Igrejas patriarcais, as conferências episcopais podem ‘aportar uma contribuição múltipla e fecunda, para que o sentimento colegial leve a aplicações concretas’. Mas este desejo não se realizou plenamente, porque ainda não foi suficientemente explicitado um estatuto das conferências episcopais que as considere como sujeitos de atribuições concretas, incluindo alguma autêntica autoridade doutrinal. Uma centralização excessiva, em vez de ajudar, complica a vida da Igreja e a sua dinâmica missionária”.

Em nota, Francisco se refere a um motu proprio de João Paulo II, de 1998, que trata precisamente da “natureza teológica e jurídica das conferências episcopais”.


Mas, quando se lê esse documento, descobre-se que ele reconhece às conferências episcopais nacionais uma função exclusivamente prática, cooperativa, de simples órgão auxiliar intermediário entre o colégio de todos os bispos do mundo junto ao Papa por um lado – a única “colegialidade” declarada e teologicamente fundamentada – e o bispo particular com autoridade sobre sua diocese por outro lado.

Acima de tudo, o motu proprio “Apostolos Suos” limita fortemente essa “autêntica autoridade doutrinal” que o papa Francisco disse querer conceder às conferências episcopais. Prescreve que se precisamente querem emitir declarações doutrinais, o devem fazer com aprovação unânime e em comunhão com o Papa e o conjunto da Igreja, ou ao menos com uma “maioria qualificada” com o prévio controle e autorização da Santa Sé.

Um perigo contra o qual o motu proprio “Apostolos Suos” adverte é que as conferências episcopais emitam declarações doutrinais contraditórias entre si e com o magistério universal da Igreja.

Outro risco que quer evitar é que se criem separações e antagonismos entre Igrejas particulares nacionais e Roma, como aconteceu no passado na França com o “galicanismo” e como sucedeu entre os ortodoxos com algumas Igrejas nacionais autocéfalas.

Esse motu proprio leva a assinatura de João Paulo II, mas tem sua base naquele que era seu fidedigno prefeito da doutrina, o cardeal Joseph Ratzinger.

E Ratzinger – como se sabia – já há tempo criticava acentuadamente os superpoderes que algumas conferências episcopais haviam atribuído a si mesmas, sobretudo em alguns países, entre os quais se contava sua Alemanha.

Em sua entrevista-bomba de 1985, publicada sob o título “Informe sobre a fé” (The Ratzinger Report, em inglês), Ratzinger se opôs resolutamente à ideia de que a Igreja Católica deve tornar-se “uma espécie de federação de Igrejas nacionais”.

Em vez de uma “nova ênfase decisiva sobre o papel dos bispos”, como foi desejado pelo Concílio Vaticano II, as conferências episcopais nacionais – acusava – têm “sufocado” os bispos com suas pesadas estruturais burocráticas.

E também:

“Parece muito bonito decidir sempre conjuntamente”, porém “a verdade não pode ser criada como resultado de votações”, seja porque “o espírito de grupo, talvez a vontade de viver em paz, ou inclusive o conformismo, arrastam a maioria a aceitar as posições de minorias audaciosas decididas a ir em uma direção muito precisa”, ou porque “a busca do ponto de encontro entre as várias tendências e o esforço de mediação dão lugar, muitas vezes, a documentos anódinos e depreciados”.

João Paulo II e depois Bento XVI julgavam modesta a qualidade média dos bispos do mundo e da maior parte das conferências episcopais. Agiram então em conformidade. Tornaram-se eles mesmos líderes e modelo, e em alguns casos – como na Itália – intervieram decisivamente para mudar a liderança e a direção da marcha.

Com Francisco as conferências episcopais poderiam, pelo contrário, considerar um reconhecimento de uma maior autonomia. Com as previsíveis repercussões das quais a Alemanha é um exemplo recente, onde bispos e cardeais de primeiro nível estão enfrentando-se publicamente sobre as questões mais diversas, desde os critérios de administração das dioceses até a comunhão aos divorciados que voltaram a casar, neste último caso antecipando e forçando soluções sobre as quais o duplo sínodo dos bispos de 2014 e 2015 foi convocado a debater e decidir.

2. Sobre o cristianismo e as culturas

Quanto ao encontro entre o cristianismo e as culturas, o papa Francisco insistiu muito, nos parágrafos 115-118 da “Evangelii Gaudium”, na ideia de que “o cristianismo não dispõe de um único modelo cultural”, mas que desde suas origens “se encarna nos povos da Terra, cada um dos quais tem a sua cultura própria”.

Em outras palavras:

“A graça supõe a cultura, e o dom de Deus encarna-se na cultura de quem o recebe”.

Com este corolário:

“É verdade que algumas culturas estiveram intimamente ligadas à pregação do Evangelho e ao desenvolvimento do pensamento cristão, mas a mensagem revelada não se identifica com nenhuma delas e possui um conteúdo transcultural”.

Ao sustentar isto, o papa Bergoglio parece ir ao encontro de quem sustenta que o anúncio do Evangelho tem sua pureza original em relação a qualquer contaminação cultural. Uma pureza que se lhe deveria restituir, liberando-o principalmente de seus revestimentos “ocidentais” de ontem e de hoje, para permitir-lhe sempre “inculturar-se” em novas sínteses com outras culturas.

Porém, planteado nestes termos, este vínculo entre o cristianismo e as culturas ignora esse nexo inseparável entre a fé e a razão, entre a revelação bíblica e a cultura grega, entre Jerusalém e Atenas, nexo ao qual João Paulo II dedicou a encíclica “Fides et Ratio” e sobre o qual Bento XVI focalizou seu memorável discurso de 12 de setembro de 2006 em Ratisbona:


Para o papa Ratzinger, o vínculo entre a fé bíblica e o filosofar grego é “uma necessidade intrínseca” que se manifesta não só no fulgurante prólogo do Evangelho segundo São João – “No princípio era o Logos” – mas já no Antigo Testamento, no misterioso “Eu sou” de Deus na sarça ardente, “um desafio à noção de mito, em analogia próxima com a tentativa de Sócrates de vencer e transcender o mito”.

Este encontro “entre o espírito grego e o espírito cristão” – sustentava Bento XVI – “se deu de tal modo que teve um significado decisivo para o nascimento e a difusão do cristianismo”.

E é uma síntese – argumentava também o papa Bento – que deve ser defendida de todos os ataques que no transcorrer dos séculos, até nossos dias, tentaram rompê-la, em nome da “des-helinização do cristianismo”.

Em nossos dias – fazia notar Ratzinger em Ratisbona – este ataque se produz “à luz da nossa experiência com o pluralismo cultural”.

“Diz-se frequentemente hoje que a síntese com o Helenismo conseguida na Igreja inicial era uma inculturação preliminar que não deveria ser obrigatória para as outras culturas. Diz-se destas últimas que têm o direito de regressar à mensagem simples do Novo testamento, anterior àquela inculturação, de modo a poderem inculturar de novo de cada modo particular correspondente ao ambiente em que se encontram. Esta tese não é apenas falsa; é grosseira e imprecisa. [...] É verdade que há elementos de verdade na evolução da Igreja inicial que não têm que ser integrados em todas as culturas. Contudo, as decisões fundamentais tomadas acerca da relação entre fé e o uso da razão humana são parte integrante da mesma fé; são desenvolvimentos consonantes com a natureza da própria fé”.

Sobre este tema capital, a “Evangelii Gaudium” não contradiz necessariamente o magistério de João Paulo II e de Bento XVI, mas seguramente se distancia dele.

Também aqui com uma evidente simpatia por uma pluralidade de formas de Igreja, modeladas sobre as respectivas culturas locais.
A opção federalista do bispo de Roma Reviewed by Renitência on quarta-feira, dezembro 04, 2013 Rating: 5
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