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«Evangelii Gaudium», dolor fidelium



Por Padre Franz Schmidberger, 16 de dezembro de 2013
Tradução: Carlos Wolkartt – Renitencia.com

Para concluir o ano da Fé, o Santo Padre, o Papa Francisco, publicou a Exortação Apostólica Evangelii Gaudium sobre o anúncio do Evangelho no mundo atual. Devido a sua extensão – 288 pontos – este documento requer da parte do leitor e do teólogo um grande esforço para estudá-lo corretamente. Era possível dizer mais com menos palavras. As linhas a seguir proporcionam um primeiro resumo da obra, certamente incompleto.

I.

A ocasião deste documento é o Sínodo dos bispos que foi realizado entre os dias 07 e 28 de outubro passado, sobre o tema da nova evangelização: «Com prazer, aceitei o convite dos Padres sinodais para redigir esta Exortação» (nº 16). Ao mesmo tempo, este documento foi apresentado pelo novo pontífice como uma espécie de diretório. A dupla finalidade e a prolixidade do Papa têm por consequência que este documento não apresenta estruturas claras. Falta-lhe precisão, rigor e claridade. Assim, por exemplo, se dedica uma longa passagem à situação econômica do mundo contemporâneo e um pouco mais adiante se destaca a importância da pregação, chegando a proporcionar os detalhes de sua preparação. A questão da descentralização da Igreja é abordada várias vezes; as questões ecumênicas e inter-religiosas, por sua vez, são tratadas abundantemente. O documento, além disso, não está desprovido de contradições: assim, o Papa vai precisar que não se trata de uma encíclica social, mas em seguida são expostas as condições econômicas seguindo um modelo similar ao que foi usado nas encíclicas dos Papas anteriores.

O Papa Francisco fala da Igreja como se ela, até o dia de hoje, não houvesse transmitido o Evangelho ou o houvesse feito de uma maneira imperfeita. Ele lamenta uma atitude despreocupada, letárgica e fechada. Esta repreensão constante nos afeta desagradavelmente. Tem-se a impressão de que, até o momento, pouco tem sido feito para a transmissão da fé e do Evangelho. Seus comentários são sempre acompanhados por uma referência à sua própria pessoa. O pronome pessoal “eu” não aparece menos de 184 vezes no documento, sem contar os “meu” e “mim”. A palavra de Deus no Apocalipse se apresenta quase automaticamente à nossa mente: Ecce nova facio omnia: Eis que eu renovo todas as coisas (Apocalipse XXI, 5).

Sem dúvida o documento contém várias considerações positivas, que não podem ser silenciadas. Mencionemos algumas:

No nº 7 se diz: «a sociedade técnica teve a possibilidade de multiplicar as ocasiões de prazer; no entanto ela encontra dificuldades grandes no engendrar também a alegria». Quanta justeza nesta constatação!

No nº 22 se lê: «A Palavra possui em si uma potencialidade que não podemos prever. O Evangelho fala da semente que, uma vez lançada à terra, cresce por si mesma, inclusive quando o agricultor dorme (cf. Mc 4, 26-29)». A ação da graça supera, efetivamente, todos os cálculos humanos.

No nº 25 se recorda que «já não nos serve uma simples administração». Deus queira que os bispos e os sacerdotes valorizem esta palavra e abandonem as comissões, os comitês, os foros e a vasta burocracia para agir como verdadeiros teólogos e pastores!

O nº 37 nos oferece um belíssimo parágrafo, com uma longa citação da Suma Teológica de Santo Tomás de Aquino. Não podemos deixar de citar esse ponto na íntegra: «São Tomás de Aquino ensinava que, também na mensagem moral da Igreja, há uma hierarquia nas virtudes e ações que delas procedem (S. Th. I-II, q. 66, a. 4-6). Aqui o que conta é, antes de mais nada, “a fé que atua pelo amor” (Gal 5, 6). As obras de amor ao próximo são a manifestação externa mais perfeita da graça interior do Espírito: “O elemento principal da Nova Lei é a graça do Espírito Santo, que se manifesta através da fé que opera pelo amor” (S. Th. I-II, q. 108, a. 1). Por isso afirma que, relativamente ao agir no exterior, a misericórdia é a maior de todas as virtudes: “Em si mesma, a misericórdia é a maior das virtudes; na realidade, compete-lhe debruçar-se sobre os outros e – o que mais conta – remediar as misérias alheias. Ora, isto é tarefa especialmente de quem é superior; é por isso que se diz que é próprio de Deus usar de misericórdia e é, sobretudo nisto, que se manifesta a sua omnipotência” (S. Th. II-II, q. 30, a. 4.; cf. ibid. q. 40, a.4, ad 1.)».

No nº 42 o Papa insiste sobre o fato de que a pregação deve, antes de tudo, tocar os corações: «Por isso, é preciso recordar que cada ensinamento da doutrina deve situar-se na atitude evangelizadora que desperte a adesão do coração com a proximidade, o amor e o testemunho».

Do nº 52 ao nº 76, o documento trata dos aspectos econômicos e destaca alguns pontos interessantes. O capitalismo desenfreado é condenado como «o resultado de uma reação humana contra a sociedade materialista, consumista e individualista» (nº 63). «O individualismo pós-moderno e globalizado favorece um estilo de vida que debilita o desenvolvimento e a estabilidade dos vínculos entre as pessoas e distorce os vínculos familiares» (nº 67). E o Papa conclui no nº 69 que é imperativo «evangelizar as culturas para inculturar o Evangelho», ou seja, que o Evangelho deve enraizar-se na sociedade e na vida dos povos. Mas por que o Papa não fala aqui, como fizeram seus predecessores antes do Concílio Vaticano II, do Estado católico e da sociedade cristã, que se apresentavam como frutos da fé católica, e também, por uma consequência lógica, como uma proteção dessa fé? Podíamos ter esperado, além destes lamentos legítimos sobre a economia atual, uma referência à Quadragesimo Anno do Papa Pio XI para destacar os princípios que levam a condições econômicas justas?

O nº 66 aborda o tema da família, mas omite a recordação de que o matrimônio é a união indissolúvel entre um homem e uma mulher, num momento em que a moda atual das uniões livres e a reivindicação da comunhão para os divorciados em segunda união o exigem. Além disso, era esperada uma maior atenção à família cristã no documento papal, uma vez que por meio dela se realiza a transmissão do Evangelho de geração em geração.

Nos números 78 e 79, o Papa descreve com lucidez a vida espiritual dos anos pós-conciliares: «Hoje nota-se em muitos agentes pastorais, mesmo pessoas consagradas, uma preocupação exacerbada pelos espaços pessoais de autonomia e relaxamento, que leva a viver os próprios deveres como mero apêndice da vida, como se não fizessem parte da própria identidade. (...) Assim, é possível notar em muitos agentes evangelizadores – não obstante rezem – uma acentuação do individualismo, uma crise de identidade e um declínio do fervor. São três males que se alimentam entre si. A cultura mediática e alguns ambientes intelectuais transmitem, às vezes, uma acentuada desconfiança quanto à mensagem da Igreja, e um certo desencanto. Em consequência disso, embora rezando, muitos agentes pastorais desenvolvem uma espécie de complexo de inferioridade que os leva a relativizar ou esconder a sua identidade cristã e as suas convicções». Como os servos da Igreja deveriam tomar as armas do Espírito e crer na eficácia e na fecundidade de todos os meios que Cristo pôs nas mãos de sua Igreja: a oração, a pregação integral da fé, a administração dos sacramentos, a celebração do Santo Sacrifício da Missa, a adoração do Santíssimo Sacramento do altar! Em vez disso, sucumbem à «sensação de derrota que (os) transforma em pessimistas lamurientos e desencantados com cara de vinagre. Ninguém pode empreender uma luta, se de antemão não está plenamente confiado no triunfo. Quem começa sem confiança, perdeu de antemão metade da batalha e enterra os seus talentos. Embora com a dolorosa consciência das próprias fraquezas, há que seguir em frente, sem se dar por vencido, e recordar o que disse o Senhor a São Paulo: “Basta-te a minha graça, porque a força manifesta-se na fraqueza” (2 Cor 12, 9). O triunfo cristão é sempre uma cruz, mas cruz que é, simultaneamente, estandarte de vitória, que se empunha com ternura batalhadora contra as investidas do mal» (nº 85).

O nº 104 tem uma relevância particular, uma vez que reafirma que o sacerdócio, como sinal de Cristo-Esposo, é reservado aos homens: «O sacerdócio reservado aos homens, como sinal de Cristo Esposo que Se entrega na Eucaristia, é uma questão que não se põe em discussão».

No nº 112, a gratuidade da graça e da obra da Redenção é evidenciada: «A salvação, que Deus nos oferece, é obra da sua misericórdia. Não há ação humana, por melhor que seja, que nos faça merecer tão grande dom. Por pura graça, Deus atrai-nos para nos unir a Si». No ponto seguinte se recorda de maneira atinada que a salvação não é um assunto individual: «Ninguém se salva sozinho, isto é, nem como indivíduo isolado, nem por suas próprias forças». O homem, por conseguinte, se salva na Igreja e pela Igreja, ou não se salva.

No nº 134 é enfatizada a importância das universidades e das escolas católicas para a pregação da fé e do Evangelho. No entanto, é lamentável que poucas linhas sejam dedicadas a essas obras.

O nº 214 se opõe ao assassinato do nascituro, que ainda vive no ventre de sua mãe. Lamentavelmente, o Papa não faz nenhuma referência à injustiça cometida contra Deus e, portanto, à ordem natural ou aos mandamentos, mas somente ao valor da pessoa humana.

No nº 235, são enumerados os princípios sólidos para a luta contra o individualismo: «O todo é mais do que a parte, sendo também mais do que a simples soma delas». Todo o parágrafo está sob o título: «O todo é superior à parte». Desenvolver o tema do bem comum certamente poderia fazer muito bem neste momento. Infelizmente, fez falta.

O entusiasmo missionário e a atividade apostólica são admiravelmente descritos no nº 267: «Unidos a Jesus, procuramos o que Ele procura, amamos o que Ele ama. Em última instância, o que procuramos é a glória do Pai, vivemos e agimos “para que seja prestado louvor à glória da sua graça” (Ef 1, 6). Se queremos entregar-nos a sério e com perseverança, esta motivação deve superar toda e qualquer outra. O movente definitivo, o mais profundo, o maior, a razão e o sentido último de tudo o resto é este: a glória do Pai que Jesus procurou durante toda a sua existência».

II.

Bonum ex integra causa, malum ex quocumque defectu [O bem provém de uma causa íntegra; o mal, de qualquer defeito], nos diz o princípio clássico da moral. O bem provém de certa integridade, enquanto que, por outro lado, se alguma parte essencial de uma coisa é má, o conjunto é mau. As belas partes do documento papal, que nos alegraram, não podem impedir-nos de comprovar a firme vontade de realizar o Concílio Vaticano II, não só segundo a letra, mas também segundo o espírito. A trilogia Liberdade Religiosa – Colegialidade – Ecumenismo, que, segundo as palavras de Mons. Lefebvre, correspondem ao lema da Revolução francesa: Liberdade – Igualdade – Fraternidade, é desenvolvida de maneira sistemática.

1. Em primeiro lugar, nos números 94 e 95, os fiéis ligados à Tradição são repreendidos e até acusados de neopelagianismo: «É uma suposta segurança doutrinal ou disciplinar que dá lugar a um elitismo narcisista e autoritário, onde, em vez de evangelizar, se analisam e classificam os demais e, em vez de facilitar o acesso à graça, consomem-se as energias a controlar... Nem Jesus Cristo nem os outros interessam verdadeiramente... Em alguns, há um cuidado exibicionista da liturgia, da doutrina e do prestígio da Igreja, mas não se preocupam que o Evangelho adquira uma real inserção no povo fiel de Deus e nas necessidades concretas da história».

Como o Papa pode acreditar nisso? Acaso o dinamismo dos fiéis católicos arraigados na fé não mostra precisamente o contrário? Sem falar de nossa Fraternidade, não temos os Franciscanos da Imaculada, uma jovem congregação missionária florescente, que se encontra agora gravemente mutilada – se não destruída – pela intervenção brutal do Vaticano? O documento acrescenta depois: «Assim, a vida da Igreja transforma-se numa peça de museu ou numa possessão de poucos».

Como já mencionamos acima, as escolas católicas, importantes instrumentos de recristianização, são tratadas em uma simples menção, em uma única frase. Essas instituições são precisamente um meio de transmitir o Evangelho. Em nossa Fraternidade, temos a alegria de ver a cada ano novas escolas abrirem as suas portas.

2. Neste documento, falta verdadeiramente o sentido da realidade, o que dá a ilusão de que a verdade vencerá por si mesma o erro. Essa perspectiva se apoia sobre a parábola do trigo e do joio no nº 225: «o inimigo pode ocupar o espaço do Reino e causar dano com o joio, mas é vencido pela bondade do trigo que se manifesta com o tempo». Esta é uma interpretação errada da parábola e uma falsificação do Evangelho. A falta de realismo é visível também no nº 44, em que os sacerdotes são exortados a não fazer do confessionário «uma câmara de torturas». Embora tais excessos efetivamente existiram aqui e ali ao longo da história da Igreja, onde tais excessos são vistos hoje em dia? Não teria sido melhor acrescentar um capítulo sobre a confissão – mencionando seus aspectos de libertação do pecado, emancipação da culpabilidade e reconciliação com Deus – como ponto culminante da nova evangelização e da renovação interior das almas? Esta ingenuidade – que não é outra coisa que uma constatação do pecado original, ou ao menos de suas consequências nas almas e na sociedade – se manifesta também no nº 84, onde é citado o discurso de abertura do Concílio Vaticano II, o discurso cheio de ilusões do Papa João XXIII: «Nos parece justo discordar desses profetas de calamidades, que anunciam acontecimentos sempre infaustos, como se estivesse iminente o fim do mundo... Nos tempos atuais, não veem senão prevaricações e ruínas». Infelizmente, os anos pós-conciliares deram razão aos “profetas de calamidades”.

3. Extremamente estranha é a observação feita no nº 129, segundo a qual não devemos acreditar que «o anúncio evangélico tenha de ser transmitido sempre com determinadas fórmulas pré-estabelecidas ou com palavras concretas que exprimam um conteúdo absolutamente invariável». Isso nos recorda inevitavelmente a doutrina da evolução dos dogmas, tal como é defendida pelos modernistas e tal como foi expressamente condenada pelo Papa São Pio X no juramento antimodernista. Esta atitude evolucionista se mostra também sobre a Igreja e suas estruturas. A primeira parte do capítulo 1 do documento leva como título «A transformação missionária da Igreja». E o Concílio Vaticano II apresenta-se como o garante da abertura da Igreja a uma reforma permanente, uma vez que «há estruturas eclesiais que podem chegar a condicionar um dinamismo evangelizador» (nº 26).

4. O nº 255 fala da liberdade religiosa como um direito humano fundamental. O Papa menciona aqui Bento XVI, seu predecessor na Cátedra de Pedro, com estas palavras: «[A liberdade religiosa] inclui a liberdade de escolher a religião que se crê ser verdadeira e de manifestar publicamente a própria crença». Tal declaração se opõe claramente à 15ª proposição do Syllabus do Papa Pio IX, onde esta afirmação é condenada: «É livre a qualquer um abraçar e professar aquela religião que ele, guiado pela luz da razão, julgar verdadeira». A continuação desse nº 255 contradiz a doutrina dos Papas desde a Revolução francesa até Pio XII inclusive. O Papa fala de um «são pluralismo». Acaso tal pluralismo é compatível com o conhecimento de que o Verbo, a segunda Pessoa do único e verdadeiro Deus trinitário, veio ao mundo para redimi-lo, e que Ele é a fonte de todas as graças e que só n'Ele se encontra a salvação?

O documento condena também o proselitismo. Hoje em dia, este termo se tornou ambíguo. Se entendido como um recrutamento para a verdadeira religião com meios impróprios, certamente deve ser rejeitado. Mas para a maioria de nossos contemporâneos, o proselitismo compreende não só qualquer atividade missionária, mas também qualquer gênero de recrutamento ou argumentação a favor da verdadeira religião.

5. O conceito de colegialidade desenvolvido pelo Papa será ainda mais desastroso para o futuro da Igreja. Na realidade, devemos ler o nº 32 na íntegra: «Dado que sou chamado a viver aquilo que peço aos outros, devo pensar também numa conversão [“nova orientação”, na versão alemã da exortação. NdT] do papado». O Sumo Pontífice menciona aqui a encíclica Ut Unum Sint, onde João Paulo II pediu ajuda para encontrar «uma forma de exercício do primado que, sem renunciar de modo algum ao que é essencial da sua missão, se abra a uma situação nova». E o Papa Francisco conclui: «Pouco temos avançado neste sentido». Estará decidido, portanto, a progredir também sobre este ponto? Mas qual é a sua visão? Ele diz claramente: «Porém, este desejo não se realizou plenamente, porque ainda não foi suficientemente explicitado um estatuto das conferências episcopais que as considere como sujeitos de atribuições concretas, incluindo alguma autêntica autoridade doutrinal». Segundo nossa modesta opinião, uma conferência episcopal não pode ser objeto de uma autoridade doutrinal autêntica, visto que não é de instituição divina, mas somente uma instituição plenamente humana, de índole organizacional. O papado em si é de instituição divina, assim como cada bispo por si mesmo e todos os bispos dispersos pelo mundo em união com Pedro, mas não a conferência episcopal. Se continuarmos neste caminho fatal, a Igreja vai se desintegrar rapidamente em igrejas nacionais. Lemos no nº 16: «Penso, aliás, que não se deve esperar do magistério papal uma palavra definitiva ou completa sobre todas as questões que dizem respeito à Igreja e ao mundo». Claro que não podemos esperar que a Igreja tome posição sobre todas as questões, mas os Papas do passado sempre proporcionaram os princípios de ação para a conduta tanto dos indivíduos como da sociedade, e isso é o que atualmente deveríamos esperar do ensinamento papal. Cristo instituiu Pedro para que ele apascente o rebanho.

6. Chegamos finalmente ao ecumenismo, ao diálogo ecumênico e inter-religioso. O nº 246 fala da hierarquia das verdades. Este termo ambíguo foi utilizado pelo Concílio Vaticano II em seu decreto sobre o ecumenismo Unitatis Redintegratio, no nº 11. Posteriormente, houve uma tentativa de dispensar a verdade católica e ocultar o que se apresentava como pedra de tropeço para os nossos “irmãos separados”. Em 1982, a Congregação da Fé interveio e declarou que o termo “hierarquia das verdades” não quer dizer que uma verdade é menos importante que outra, mas que existem verdades das quais outras verdades parciais são deduzidas. Nós somos gratos por esse esclarecimento. A fé católica, virtude teologal, exige a aceitação da verdade integral, em razão de Deus que se revela. Este esclarecimento proporciona também um exemplo da forma com a qual poderíamos retificar as ambiguidades dos textos do Concílio Vaticano II, com exceção dos pontos francamente errôneos.

A conclusão desse nº 246 nos convida, a nós católicos, a aprender com os ortodoxos o significado da colegialidade episcopal e da experiência da sinodalidade.

Lemos no nº 247 que a aliança do povo judeu com Deus jamais foi suprimida. Esta aliança não foi instituída por Deus a fim de preparar sua Encarnação salvífica na pessoa de Jesus Cristo? Não era uma sombra e um modelo que daria lugar à realidade: umbram fugat veritas? Acaso a antiga aliança não foi substituída pela nova e eterna Aliança feita no Santo Sacrifício de Cristo no Calvário? O véu do templo não se rasgou de cima a baixo no momento do sacrifício do Gólgota? Se, de acordo com a declaração de São Paulo, no capítulo XI da epístola aos Romanos, a maioria ou mesmo todos os Judeus se converterão no fim dos tempos, é apenas através do reconhecimento de Cristo, único Salvador de todos e de cada um dos indivíduos, e pela integração na Igreja que se compõe de pagãos e judeus convertidos. Não existe nenhum caminho de salvação separado para os judeus, fora de Cristo. Além disso, a Igreja há muito tempo já assimilou os valores do judaísmo do Antigo Testamento. Pensemos especialmente na oração dos salmos e nos livros do Antigo Testamento. Não podemos falar de uma «rica complementaridade» (nº 249) com o judaísmo contemporâneo.

Os números de 250 a 253 falam do Islã, afirmando que o diálogo inter-religioso «é uma condição necessária para a paz no mundo». No nº 252, em linha com o nº 16 da Lumen Gentium do Concílio Vaticano II, se afirma que os muçulmanos «professam seguir a fé de Abraão, e conosco adoram o Deus único». Mas os muçulmanos não rejeitam expressamente o mistério da Santíssima Trindade, e por essa razão não nos acusam de politeístas? O Papa disse ainda que eles têm uma profunda veneração por Jesus Cristo e Maria, usando as palavras da Nostra Aetate (nº 3). Mas eles realmente veneram a Cristo como o Filho de Deus, igual a Ele em sua essência? Parece ser quase um detalhe sem importância [no documento romano. NdT].

No ponto seguinte (nº 253), o Papa chega a conclusões concretas: «Nós, cristãos, deveríamos acolher com afeto e respeito os imigrantes do Islão que chegam aos nossos países, tal como esperamos e pedimos para ser acolhidos e respeitados nos países de tradição islâmica». Este número termina com uma afirmação falsa e escandalosa: «Frente a episódios de fundamentalismo violento que nos preocupam, o afeto pelos verdadeiros crentes do Islão deve levar-nos a evitar odiosas generalizações, porque o verdadeiro Islão e uma interpretação adequada do Alcorão opõem-se a toda a violência». O Santo Padre alguma vez já leu o Alcorão?

No nº 254, é abordado o tema dos não-cristãos em geral, e o fato de que seus sinais e ritos «podem ser canais que o próprio Espírito suscita para libertar os não-cristãos do imanentismo ateu ou de experiências religiosas meramente individuais». Isto acaso não significa que o Espírito Santo opera em todas as religiões não-cristãs, e que todas são caminhos de salvação? A fé do Islã em um único Deus é certamente – se falamos de maneira abstrata – superior ao politeísmo dos pagãos. No entanto, pedagógica e psicologicamente, é muito mais fácil converter um pagão do que converter um muçulmano, uma vez que este último é integrado em um sistema sócio-religioso: sair deste sistema põe sua vida em risco. Mas as religiões não-cristãs não são, de forma alguma, caminhos neutros de adoração a Deus, pois muitas vezes se encontram misturadas com elementos demoníacos que impedem o homem de alcançar a graça de Cristo, para serem batizados e, assim, salvar sua alma.

Nada causou mais danos à proteção e transmissão da fé nos últimos 50 anos que este ecumenismo sem limites, que não é outra coisa que a “ditadura do relativismo” religioso (Cardeal Ratzinger). Esse mal fez desaparecer a definição da Igreja como Corpo Místico de Cristo, única esposa do Cordeiro imolado e único caminho de salvação. É justamente este ecumenismo que transformou a Igreja em uma comunidade “dialogante”, ecumênica entre outras comunidades religiosas.

Sob este ecumenismo, chamar a Igreja à alegria do Evangelho e querer transformá-la em uma Igreja missionária é um tanto tragicômico. Como ela pode pensar e agir de maneira missionária, quando ela não acredita em sua própria identidade e em sua missão?

Conclusão

Embora a Exortação Apostólica Evangelii Gaudium possa conter aspectos justos, como sementes dispersas, em seu conjunto não é mais que um desenvolvimento consecutivo do Concílio Vaticano II, em suas conclusões mais inaceitáveis. Não encontramos neste documento «caminhos para o percurso da Igreja nos próximos anos» (nº 1), mas um outro passo funesto para o declínio da Igreja, a decomposição de sua doutrina, a dissolução de suas estruturas, e até mesmo a extinção de seu espírito missionário, que é, no entanto, referido várias vezes (na exortação). Assim, Evangelii gaudium torna-se Dolor fidelium, uma angústia e uma dor para os fiéis.

Os católicos ligados à Tradição da Igreja devem seguir o lema do pontificado de São Pio X: Instaurare omnia in Christo, instaurar tudo em Cristo. Não vemos outro caminho senão esse, a única via «para o percurso da Igreja nos próximos anos» (nº 1). Refugiemo-nos, portanto, pelo rosário quotidiano, junto Àquela que venceu todas as heresias no mundo.

Padre Franz Schmidberger
Diretor do Seminário Coração de Jesus de Zaitzkofen (Alemanha)

* As várias citações da Encíclica Evangelii Gaudium contidas neste artigo foram extraídas da tradução publicada pelo site do Vaticano.
«Evangelii Gaudium», dolor fidelium Reviewed by Renitência on segunda-feira, dezembro 30, 2013 Rating: 5
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