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Da devoção ao Santo Padre



Por Padre Frederick William Faber
Tradução: Carlos Wolkartt – Renitencia.com

O ano novo começa com uma festa de Jesus, e essa festa lembra a primeira efusão do seu Sangue. É isso como uma espécie de tipo da vida cristã inteira. Cristo vive em nós, e nós, por nossa vez, vivemos da vida d'Ele.

A vida do homem redimido está, por assim dizer, de tal forma entrelaçada à graça e à ação do Redentor, que não podemos concebê-la como separada d'Ele. Ele está como que misturado a tudo o que fazemos, a tudo o que somos, a tudo o que sofremos. Não temos uma só alegria, uma só mágoa que não seja tanto d'Ele como nossa: são d'Ele porque são nossas.

Ele é o fim, a força e a energia de toda vida santa. Faz de toda coisa a sua coisa própria, mesmo da que menos parece pertencer aos seus interesses. A sua jurisdição estende-se ao mesmo tempo a todo o conjunto e às menores minúcias: é uma parte do Seu Amor o fazer dos nossos menores interesses os seus interesses maiores.

O velho ano finda com o seu Nascimento, como que para dissipar a tristeza que inspira o tempo decorrido por essa lembrança tão doce da eternidade. O novo ano começa com uma de suas dores, como que para reconduzir à razão as alegrias inconsideradas, e para temperar a impetuosidade da ação.

É definir com verdade a nossa vida o dizer que Jesus está em toda parte e em todas as coisas. À medida que envelhecemos, Ele mais nos atrai, e absorve a nossa vida com mais força e de maneira mais exclusiva. Do mesmo modo que Ele foi desde toda a eternidade o pensamento principal de Deus, assim também o seu pensamento deve dominar em nós todos os outros.

Nós só vivemos para adorá-lo. Fomos predestinados, porque Ele mesmo o foi primeiro. Ele é o primogênito de toda criatura; nós fomos feitos à sua imagem e para Ele. Temos, cada um, alguma obra especial a fazer para Ele, algum ofício especial a desempenhar na sua corte, alguma vocação especial que deve proporcionar-lhe uma glória particular.

Tal é o sentido da nossa vida. Nada somos sem Ele, mas somos-lhe ao mesmo tempo caros e preciosos. Ele faz de nós grandes coisas, e é sabedoria e felicidade nossa fazermo-lo tudo em todas as coisas para nós.

Não somente é verdade que Jesus é nossa vida, mas é também verdade que a Sua Vida é a nossa vida, e isto é real sob uma multidão de aspectos, desde a augusta realidade do Santíssimo Sacramento, até as influências que cada um dos mistérios de Nosso Senhor exerce sobre as nossas orações e sobre o nosso caráter.

Em toda a criação de Deus, depois do mundo dos anjos não há nada mais maravilhoso do que uma vida humana. Tem havido milhões dessas vidas que tiveram cada uma a sua maravilha própria e particular; haverá milhões e bilhões dessas diversas criações. Mas há uma vida que é a verdadeira vida de todas essas vidas; uma vida mais maravilhosa do que o pode ser uma vida angélica: é a vida de Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, Deus e homem conjuntamente.

Ele viveu trinta e três anos na terra; a sua vida foi uma cadeia ininterrupta de mistérios. Os seus méritos infinitos e as suas infinitas satisfações são os tesouros que enriquecem a pobreza do mundo. Foi a sua vida humana que supriu os nossos meios de expiação, ao mesmo tempo que, pelos seus exemplos, fornecem o modelo de toda santidade humana. Nossas vidas devem ser modeladas pela d'Ele.

O amor de Jesus, a semelhança com Jesus, eis as coisas que formam a santidade completa. Toda a história real do mundo, tudo o que verdadeira e propriamente nos concerne, acha-se reunido nos quatro Evangelhos e nas reminiscências dos trinta e três anos.

Mas é essa apenas uma parte da verdade: a vida de Nosso Senhor não é só um exemplo exterior, é um poder, uma graça, uma eficácia cuja energia imortal se transmite até às idades mais remotas, quer nas operações dos sacramentos, quer nas graças da contemplação. Por outros termos: os trinta e três anos não passaram. Nunca passarão. Continuar-se-ão na Igreja até o fim dos tempos.

Mas não nos devemos deter agora, como seríamos tentados a fazer, nas deliciosas verdades, nas consolações inefáveis que esse fato nos aduz; basta-nos compreender bem que toda a santidade consiste em transportar à nossa vida e aos nossos anos os anos de Jesus, em achar na vida d'Ele o nosso modelo e a virtude secreta que nos torna capazes de conformar-nos a esse modelo.

É isso o que a Igreja nos ensina no ano eclesiástico. Não somente ela tem festas especiais para recordar cada um dos mistérios de Nosso Senhor, mas esforça-se por nos fazer viver em cada um dos nossos anos os trinta e três anos de Jesus.

Passamos através dos doze belos anos da sua infância nas semanas que separam o Natal da Quaresma. A Quaresma nos mantém com Ele no deserto, e nos purifica para nos preparar para a visão particular da sua Paixão, que a Semana Santa coloca diante de nós de maneira tão maravilhosa e tão acabrunhada para os nossos corações.

O tempo pascal é a sua vida ressuscitada, e a festa da sua Ascensão seria incompleta sem a solenidade do Santíssimo Sacramento, dia triunfal da festa do Corpo sagrado de Jesus Cristo. Desde essa festa até o Advento, durante vários meses alimentamo-nos dos discursos, das parábolas e das diversas circunstâncias dos três anos do seu ministério.

E, entrementes, ao lado dessa vida anual de Jesus transcorre uma vida anual de Maria, que ainda é uma vida de Jesus. A sua Imaculada Conceição acha-se quase confundida com a expectação da sua divina Maternidade. Celebramos-lhe a Purificação pouco tempo antes de celebrarmos a tentação de Nosso Senhor no deserto. A comemoração das suas Dores toca a comemoração da Paixão de Jesus Cristo. A Assunção é para as festas de Maria o que a Ascensão é para as festas de Jesus.

Nessa ordem das festas descobrimos o sentimento constante da Igreja, a saber: que a vida de Jesus é a nossa vida, o exemplo da nossa vida e a fonte sobrenatural da sua energia. Tudo isso resume-se nesta simples, mas imperecível verdade: que os cristãos são uns Cristos, christianus alter Christus.

Assim, é uma forma comum do nosso amor ao nosso divino Mestre desejarmos, com o nosso conhecimento atual e a nossa fé atual, ter vivido com Ele e tê-lo servido durante os trinta e três anos da sua existência na terra. Pensamos, com ventura, no amor que lhe teríamos testemunhado; imaginamos mil circunstâncias em que o nosso amor teria religiosamente se exalado em testemunhos de veneração e de afeto.

Os nossos pensamentos gostam de representar-nos as reparações contínuas que teríamos feito em sua honra; imaginamos como lhe teríamos adivinhado os desejos melhor do que os que lhe estavam então em torno, como a nossa solicitude teria se aproximado da devoção entusiasta dos apóstolos, e como, semelhantes ao anjo consolador de Getsêmani, teríamos incessantemente aliviado pelo nosso amor os sofrimentos da sua vida. Estes desejos formam como que uma parte dos nossos instintos cristãos.

Mas, aqui estamos em presença da grande maravilha de uma vida cristã. Não é esse um puro desejo, um sonho romântico, uma fantástica ficção de amor. Os trinta e três anos não passaram; Jesus ainda está conosco. Agora e neste lugar, como outrora na Judéia, temos um ministério real e pessoal a cumprir junto de Jesus, e são as ações pelas quais devemos santificar-nos, ações que inflamam o nosso amor e ao mesmo tempo o satisfazem. Foi para isto que Jesus voltou a nós no Santíssimo Sacramento.

Ele permanece entre nós na misteriosa magnificência do tabernáculo; faz brilhar aos nossos olhos as franjas das suas alvas vestes; coloca-se a si mesmo em nossas mãos; confia à nossa guarda a sua fraqueza; repousa na nossa língua e desce aos nossos corações em toda a inefável realidade do grande Sacramento. Agora Ele é mais acessível para nós do que o foi durante os trinta e três anos de sua vida terrena. Concede a cada um de nós mais tempo e mais atenção; podemos fruir da sua presença mais à nossa vontade e mais especialmente.

Por isso o Santíssimo Sacramento é o verdadeiro centro da nossa vida: não compreenderíamos como poderíamos viver sem Ele, ou afastados dessa divina vizinhança. Ó Senhor! Ó nosso amor! Como Ele conheceu bem a maneira como devia sensibilizar-nos para ser por nós amado, e como satisfez incrivelmente bem esse sentimento!

O fim do Santíssimo Sacramento é tornar-nos Jesus presente, e multiplicar milagrosamente a sua presença. Como o ensina a teologia, os sacramentos são ações de Jesus Cristo; o Santíssimo Sacramento é o próprio Jesus Cristo vivo.

Assim, os trinta e três anos continuam na terra, e continuam em milhares de lugares ao mesmo tempo, de sorte que milhões de almas são arrastadas à sua esfera atual, e vivem de uma vida sobrenatural, ao calor e à luz com que as circunda a vida humana de Nosso Senhor sempre continuada e sempre presente.

Podia Deus mostrar-nos de maneira mais evidente que o amor da pessoa de Jesus é a essência da religião, e que a presença de Jesus é a necessidade da sua vida e do seu poder?

Às vezes, grandes graças parecem-nos maravilhosas, quando as comparamos com outras menores; porém, mais vezes ainda, são as menores que nos parecem particularmente maravilhosas quando as comparamos com outras maiores. Noutros termos: a misericórdia de Deus é mais admirável nas pequenas coisas, mormente quando essas pequenas coisas parecem ser a repetição e como que o supérfluo de coisas maiores.

Jesus satisfez o seu imenso amor, e deu ao nosso amor o meio de ser imenso, voltando a nós na sua natureza humana pelo Sacramento da Eucaristia. Impossível imaginar continuação mais surpreendente dos seus trinta e três anos. Efetivamente, nenhuma criatura inteligente poderia ter imaginado coisa tão maravilhosa.

Mas o seu amor estende-se a todo o campo da criação, e Ele sentiu que essa maneira de permanecer invisível no meio de nós não era suficiente. Todas as funções relativas ao Santíssimo Sacramento são necessariamente adorações, e o homem só pode tributar-lhe um culto intermitente. Os nossos pobres corações bem desejam estar sempre em adoração diante do Santíssimo Sacramento, mas este esforço seria excessivo.

Aliás, o culto do Santíssimo Sacramento representa antes esses grandes atos públicos de homenagem pelos quais todos os fiéis se reúnem solenemente, e que, por conseguinte, são menos numerosos e só ocorrem a certos intervalos, conforme o pedem os negócios da vida humana; ou então representa a vida interior e oculta da nossa comunhão com Deus. Confiamos baixinho as nossas penas à porta do tabernáculo; aí trazemos as nossas alegrias para serem abençoadas, purificadas e asseguradas; aí queixamo-nos das nossas tentações; aí, com tímida ousadia, ousamos entregar-nos às familiaridades do amor, certos de que só o ouvido indulgente do nosso dileto Salvador ouvirá as nossas palavras; aí entramos sem pejo em discussão com Ele, como outrora Jó, e, mesmo quando trememos diante da sua majestade, não nos receamos de fatigá-lo pela importunação das nossas preces que a fé anima só pela metade.

Mas o nosso amor necessita de alguma coisa mais; a nossa alma tem outros desejos que devem ser satisfeitos. A nossa vida é por demais uma vida de matéria, de sentidos e de coisas exteriores. No Santíssimo Sacramento, Jesus está invisível. Sob este aspecto, nós somos menos infelizes que aqueles que outrora conversaram com Jesus na Judéia. Eles viam o objeto do seu amor; conheciam-no pelos olhos; liam nos amáveis traços da sua face divina os amáveis mistérios do seu Coração sagrado. A luz de seus olhos era para eles uma linguagem; o som da sua voz era-lhes uma revelação; a sua beleza exterior lhes vinha em auxílio do amor interior.

O Santíssimo Sacramento é, de muitas maneiras, superior a tudo isso, e, para nos servirmos das próprias expressões de Nosso Senhor, a sua presença invisível era mais conveniente; porém, Jesus visível era, de alguma maneira, mais doce, mais caro e mais amável. Não podemos deixar de senti-lo, e, não obstante, ficaríamos surpresos com a maneira pela qual Jesus reparou essa perda para nós, se repetidas experiências do seu amor não nos houvessem acostumado a não mais nos surpreendermos com coisa alguma que Ele faz.

Pode uma alma conhecer um meio de amar a Jesus, e achar que Jesus não providenciou para ser amado por esse meio? Ele sabia que, quando uma vez o seu amor toma posse dos nossos corações e estabelece neles o seu delicioso domínio, nós desejamos ardentemente servi-lo pela nossa vida exterior, acumular sem fim sobre Ele provas do nosso afeto, e entregar-nos a essas invenções de amor que com tanta fecundidade o coração produz quando está apaixonado.

A infinita sabedoria de Jesus é sempre serva da sua infinita compaixão. Ele olha toda a criação para achar uma representação justa da sua pessoa sagrada. Examina a terra com seu infalível amor para achar nela um monumento conveniente ao qual possa suspender, como à coluna de um troféu, as suas próprias insígnias e, por assim dizer, fazer-se substituir por elas.

Era mister que elas lhe fossem semelhantes, que todos os homens pudessem facilmente reconhecer-lhe a semelhança; era mister que elas lhe fossem assim semelhantes, a fim de poderem mais seguramente provocar um amor entusiasta e constante. Era mister que fossem como um resumo visível dos seus trinta e três anos na terra. Belém, Nazaré, a Galiléia, o Calvário são invisíveis no Santíssimo Sacramento; era mister que, nessa nova presença visível de Jesus, Belém e Nazaré e a Galiléia e o Calvário fossem claros e visíveis, reais e evidentes.

Ó escolha divina, e característica d'Aquele que escolheu todas as coisas desde a eternidade! O Criador escolheu então os pobres. Quando Ele teve de vir à terra, escolheu a pobreza para seu quinhão, para a própria condição de sua vida privada. Agora, que Ele velou a sua face nas nuvens do céu, escolhe os pobres para representá-lo e para fazer-nos todas aquelas ocasiões de culto e de santificação que se achavam nos seus trinta e três anos.

É por isto que a Igreja sempre se apegou aos pobres, como, no frio, na escuridão e na humildade da gruta, Maria se apegava ao caro Menino de Belém. É por isso que os desvelos generosos pelos pobres são as medidas infalíveis do nosso amor interior a Jesus, e é por isso, também, que a piedade está ao abrigo de toda ilusão quando pode sempre assegurar-se da sua realidade pela abundância das suas esmolas.

Que revelação de Jesus nessa escolha do pobre! Nós sentimos que o conhecemos muito melhor depois que fizemos n'Ele esta nova descoberta. Ele revela o seu caráter pela própria especialidade da sua escolha; deixando-nos esse seu “alter ego” visível, Ele nos declara de maneira ainda mais evidente que os seus trinta e três anos não cessaram de existir, e que o ministério cumprido para com a sua pessoa é a forma particular da nossa santificação.

Doce nos seria determo-nos neste assunto, mas devemos passar adiante.

Em verdade, Nosso Senhor multiplicou os meios de satisfazer o nosso apetite de amor. Há muitas pessoas entre nós que não podem servi-lo nas obras corporais de misericórdia; o maior número, mesmo, das obras espirituais de misericórdia para com os pobres depende da esmola. Cumpre, pois, que os pobres tenham um outro representante de Jesus, a quem possam cercar das solicitudes do seu amor cheio de fé.

Aliás, há no coração humano sentimentos e amores que importa elevar à dignidade sobrenatural do amor de Jesus, e que não podem ser satisfeitos pela devoção aos pobres. Por isto, Jesus escolheu ainda outro “alter ego” visível, a fim de poder encher todo o campo ocupado pelo coração humano: escolheu as crianças. Tomou esses pequeninos que enchem as nossas moradas, que brincam nas nossas ruas, que guarnecem os bancos das nossas escolas. Antes de tudo, inspirou-nos por eles um temor respeitoso, falando-nos da vingança dos anjos incumbidos da guarda das almas das crianças, e do poder que eles têm de nos punir, porque gozam continuamente da augusta visão de Deus; depois, ensinou-nos que todos os atos de religiosa bondade exercidos para com a menor dessas fracas crianças eram atos de bondade exercidos para com Ele mesmo.

É dessa escolha que vem a solicitude da Igreja pelos interesses das crianças. Para lhes salvar as almas, ela combate com os governos do mundo, expõe-se aos seus ataques, põe em perigo a sua própria tranquilidade, perde o patrocínio dos grandes da terra, recusa sancionar por sua condescendência leis iníquas, contenta-se com olhar como fanáticos ignorantes ou como homens de má fé aqueles que não querem crer na sinceridade e na pureza desse zelo sobrenatural.

Sem dúvida alguma, foi o amor do nosso amável Salvador a nós que o impeliu a escolher as crianças como as representantes visíveis de sua pessoa. Entretanto, ouso às vezes pensar que essa escolha foi feita tanto para satisfazer o seu próprio amor como para satisfazer o nosso.

De alguma sorte, Belém convém mais a Nosso Senhor que o Calvário. Havia mais Belém no Calvário do que Calvário em Belém. O Santíssimo Sacramento é o memorial da sua Paixão; quem não reconheceria, entretanto, que vem maior plenitude de luz de Belém do que de sombras do Calvário?

Havia no Coração sagrado de Jesus algo que enunciava uma eterna infância, e o seu caráter humano distinguia-se por um amor especial às crianças. Havia mais liberdade na escolha das crianças para representá-lo, do que na escolha dos pobres; havia aí uma necessidade menos intensa de um outro seu “alter ego” visível; essa segunda escolha foi mais gratuita, e, por isto, penso ter sido mais particularmente para si que Ele a fez.

De resto, é o mesmo grande princípio que se manifesta aqui, isto é, a continuação dos trinta e três anos, e a garantia dos ministérios de que sua pessoa é objeto. A escolha que Ele fez dos pobres e das crianças para serem outra sua pessoa, é uma emanação da mesma sabedoria e da mesma benignidade cujos abismos produziram o estupendo mistério da Eucaristia.

Ó gloriosa capacidade do coração humano para o amor! Tudo isso ainda não era o bastante.

Quando servimos o nosso amável Salvador na pessoa dos pobres e das crianças, somos, de alguma sorte, seus superiores. Ajudamo-lo com o nosso supérfluo. Ele se apresenta a nós num estado que inspira compaixão, e ficamos cheios de piedade, e corremos em seu auxílio, e aliviamo-lo na sua miséria. Doce tarefa, aliás; maravilhoso alívio para o nosso amor que cresce e aumenta a ponto de se tornar um fardo para si mesmo!

Todavia, há outras espécies de amores que atingimos quando crescemos em graça; graus mais elevados que anunciam graças mais altas, mais enérgicas, por serem mais próprias para a plenitude da nossa humanidade em Cristo. Precisamos obedecer, precisamos receber ordens, ouvir lições, praticar a submissão. Temos vontades que nos são próprias, e que precisamos sacrificar por amor d'Aquele a quem amamos. Somos apegados às nossas próprias opiniões, e temos em alta estima os nossos próprios juízos – mas desejamos renunciar-lhes por amor de Jesus.

Precisamos abandonar a procura interesseira dos nossos próprios pensamentos, a fim de que nossos corações possam alargar-se e tornar-se capazes de amar com mais energia e de maneira mais exclusiva.

Precisamos imolar-nos a nós mesmos pelo serviço de Jesus, mais do que no-lo permite fazer o cuidado dos pobres e das crianças. Além disto, temos necessidade de Jesus de todas as maneiras. Temos necessidade d'Ele como de nosso Mestre: era esse o nome que seus discípulos gostavam de lhe dar na terra; parece que eles haviam imaginado dar a esse nome um significado mais afetuoso do que poderia ter qualquer outro nome a respeito de Jesus. Escutavam-lhe os discursos na montanha e na planície; ficavam como que suspensos às palavras que, quais pérolas preciosas, lhe caíam dos amáveis lábios; num delicioso silêncio, nutriam suas almas com o ensino d'Ele, que era para eles o próprio pão da vida eterna. As parábolas de Jesus gravavam-se-lhes profundamente nos corações, e aí desabrochavam em sublimes revelações dos mistérios de Deus; estas são as coisas de que não podemos prescindir.

Cumpre que Jesus seja também nosso mestre, não num livro morto, não por ouvir dizer; cumpre que Ele seja nosso mestre real e vivo, cumpre que possamos depositar aos seus pés a nossa indocilidade, que possamos ser transportados de amor ao som da sua voz, renunciando aos nossos próprios juízos e pensamentos.

Jesus deixou Maria, tanto quanto deixou Pedro à Igreja nascente. Não foi talvez para satisfazer aquele desejo de fervor primitivo, desejo que tão recentemente se saciara da sua amável presença na carne? A excelência da santidade apostólica não podia suportar que Jesus e Maria se retirassem ao mesmo tempo. E agora é pela mesma razão que Jesus nos deixou o Papa.

O Sumo Pontífice é a terceira presença visível de Jesus entre nós, presença de ordem mais elevada, de sentido mais profundo, de importância mais imediata, de natureza mais exata do que a sua presença nos pobres e nas crianças.

O Papa é o Vigário de Jesus Cristo na terra; ele goza, entre os monarcas da terra, de todos os direitos e de toda a preeminência soberana da santa Humanidade de Jesus. Nenhuma coroa pode estar acima da sua: por direito divino, não pode ele ser súdito de ninguém. Toda tentativa para sujeitá-lo é uma violência e uma perseguição. Ele é rei em virtude do seu próprio ministério, pois de todos os reis é ele o mais próximo do Rei dos reis. Ele é a sombra visível que parte do Chefe invisível da Igreja no Santíssimo Sacramento. O seu ministério é uma instituição que emana das mesmas profundezas do Coração sagrado de onde já vimos sair o Santíssimo Sacramento e a elevação dos pobres e das crianças. É uma manifestação do mesmo amor, um desenvolvimento do mesmo princípio.

Com que cuidado, com que respeito, com que fidelidade não devemos, pois, corresponder a essa graça tão magnífica, a esse amor tão maravilhoso que o nosso amável Salvador nos mostra na escolha e na instituição do seu Vigário na terra! Pedro vive sempre, porque os trinta e três anos continuam sempre: estas duas verdades ligam-se a uma outra. O Papa é para nós, em toda a nossa conduta, o que o Santíssimo Sacramento é para nós em todas as nossas adorações. O mistério do seu Vicariato assemelha-se ao mistério do Santíssimo Sacramento: os dois mistérios entrelaçam-se, por assim dizer, um no outro.

A conclusão a tirar de tudo isto é da mais alta importância, e é que a devoção ao Papa forma uma parte essencial da piedade cristã. Não é este um assunto estranho à vida espiritual, como se o Papado só tivesse relação com o governo da Igreja, e não passasse de uma instituição meramente relativa à vida exterior da Igreja, de um ministério divinamente apropriado ao governo eclesiástico. Ele é ao mesmo tempo uma doutrina e uma devoção, é uma parte integrante do plano de Nosso Senhor.

Jesus acha-se no Papa de maneira ainda mais alta do que nos pobres e nas crianças. O que é feito ao Papa é feito ao próprio Jesus. Tudo o que há de régio, tudo o que há de sacerdotal em Nosso Senhor, acha-se reunido na pessoa do seu Vigário, para receber as nossas homenagens e a nossa veneração. Poder-se-ia tão bem tentar ser bom cristão sem a devoção à Santíssima Virgem como sem a devoção ao Papa, e pela mesma razão em ambos os casos. A Mãe de Jesus Cristo e o seu Vigário fazem parte igualmente do seu Evangelho.

Rogo-vos terdes a peito esta verdade, sobretudo nos tempos atuais. Sem dúvida alguma, grandes consequências resultariam, para o bem da religião, da clara visão desta verdade, a saber: que a devoção ao Papa é uma parte essencial da piedade cristã. Isso dissiparia muitos erros, reformaria muitos preconceitos e preveniria muitas desgraças.

Sempre pensei que o único meio de resolver todas as dificuldades é olhar as coisas colocando-se simples e exclusivamente do ponto de vista de Nosso Senhor Jesus Cristo. Vejamos as coisas tais quais elas são n'Ele e por Ele. Há nos nossos dias muitas complicações, muitos embaraços na Igreja e no mundo; mas, se nos conservássemos firmes sobre este princípio, se nos apegássemos a Jesus com uma confiança de criança, teríamos um fio condutor para nos dirigir infalivelmente através de todos os labirintos, e, quer pela nossa covardia, quer pela nossa prudência toda carnal, quer pela falta de discernimento espiritual, jamais teríamos a desdita de achar-nos do lado onde não está Jesus.

Se o Papa é a presença visível de Jesus, unindo em si a jurisdição espiritual e temporal que pertence à Humanidade santa do Salvador, e se a devoção ao Papa é um elemento indispensável de toda santidade cristã, de tal sorte que sem ela não pode haver piedade sólida, muito nos importa ver quais são as nossas disposições para com o Vigário de Jesus Cristo, e examinar se os nossos sentimentos habituais são tais como os pede Nosso Senhor. Desejo falar deste assunto apenas sob o ponto de vista da piedade, porque considero importantíssimo este ponto de vista. A minha posição e o meu ministério, tanto quanto os meus gostos e os meus sentimentos, impõem-me esta maneira de encarar a questão.

Quando a Igreja está em paz, concebe-se que os católicos não compreenderam tanto como deveriam de que necessidade é a devoção ao Papa, e o quanto é ela essencial à piedade cristã. Podem eles pensar que o que lhes compete é ir à igreja, frequentar os sacramentos e cumprir exatamente os seus exercícios espirituais particulares; pode parecer-lhes que eles nada têm a ver com aquilo que consideram como da alçada exclusiva do governo eclesiástico. É este, sem dúvida, um erro lamentável em todos os tempos, e em todos os tempos deve a alma sofrer com ele, pois ele a priva de graças mais elevadas e a impede de progredir na perfeição.

É um caráter invariável dos santos, em todas as épocas, o terem uma viva e sensível devoção para com a Santa Sé. Mas, quando vivemos em tempos de perturbações e de aflições para o Sumo Pontífice, logo devemos compreender com que rapidez declina a piedade prática, por uma consequência necessária de vistas falsas a respeito do Papado ou de um procedimento covarde para com o Papa.

Fica-se então admirado de descobrir quão intimamente são unidos uma nobre fidelidade ao Papa e a nossa generosidade para com Deus, tanto como as liberalidades de Deus a nosso respeito. Devemos compartilhar, devemos considerar como um dever da nossa piedade particular o compartilharmos ardorosamente das simpatias da Igreja pelo seu Chefe visível, do contrário Deus já não nos demonstrará simpatia.

A cada época, como a cada vocação, a graça só é dada sob certas condições. Durante as épocas em que Deus permite que a sua Igreja seja atacada na pessoa do seu Chefe visível, a obra da Santa Sé deve ser encarada como uma condição implícita de todo progresso na graça.

Em que motivos deve, pois, fundar-se a nossa devoção ao Papa? Primeiramente e antes de tudo, no fato de ser ele o Vigário de Jesus Cristo. O seu ministério tem por fim o próprio cumprimento dos desígnios que trouxeram à terra a presença visível de Nosso Senhor. A sua jurisdição estende-se sobre nós como a do próprio Salvador.

A grandeza terrível do múnus pontifical é outro motivo da nossa devoção ao Papa. Quem pode encarar sem tremer uma tão terrível responsabilidade? Milhões de consciências dependem dele; milhares de causas aguardam a sua decisão. Os interesses que ele deve regular são de uma importância superior a todos os outros, visto serem os interesses eternos das almas. Um só dia do governo da Igreja encerra mais consequências graves do que um ano do governo dos impérios mais poderosos da terra. E como o Sumo Pontífice tem necessidade de apoiar-se em Deus durante esses longos dias! Com que ansiedade deve aguardar as contínuas inspirações do Espírito Santo para distinguir a verdade no meio do ruído de tantas contradições, ou na escuridão de tais distâncias! A pomba que murmurava baixinho ao ouvido de São Gregório não é o símbolo do Papado?

Entre esses gigantescos trabalhos, de todos os trabalhos da terra quiçá os mais ingratos e os menos apreciados, quão tocante é a fraqueza do Sumo Pontífice, como o próprio estado de fraqueza do seu bem amado Mestre! O seu poder está na paciência, a sua majestade está na longanimidade. Ele é vítima de todas as insolências, de todas as perversidades que vêm do alto. Podem os homens cobri-lo de injúrias, da mesma sorte que escarraram no rosto de seu Mestre; podem humilhá-lo e ultrajá-lo com seus soldados, como o fez Herodes a respeito do Salvador; podem sacrificar os direitos dele às exigências momentâneas da sua própria covardia, do mesmo modo que Pilatos sacrificou outrora Nosso Senhor.

Pode haver nos governos covardias cuja profundeza nenhuma outra covardia humana poderia atingir, e é especialmente a sofrer dessas baixezas que está destinado o Vigário de Jesus Cristo. Homens que têm na cabeça coroas de ouro invejam essa cabeça coroada de espinhos; murmuram contra essa soberania dolorosa, pela qual ele está pronto a dar sua vida, porque ela lhe foi confiada por seu Mestre e não é propriedade sua. A cada geração que se sucede, na pessoa de seu Vigário, Jesus torna a encontrar-se diante de novos Herodes. O Vaticano é menos um palácio do que um Calvário. Quem poderia considerar esta comovente grandeza da fraqueza, e compreendê-la como cristão, sem ficar comovido até as lágrimas?

Quando estamos doentes, um mau pensamento insinua-se às vezes no nosso coração, e nós pensamos que Nosso Senhor não santificou essa cruz da doença, carregando-a Ele próprio. Mas, porventura, Ele não suportou e não abençoou todas as penas corporais nos inúmeros sofrimentos e nas misteriosas crueldades da sua Paixão? Entretanto, Ele não sofreu os incômodos da velhice; o peso dos anos nunca lhe enrugou o seu belo rosto; a luz dos seus olhos nunca se escureceu; a firme virilidade da sua voz nunca se enfraqueceu. Não convinha que a honrosa decadência da idade se aproximasse dele. Mas Ele se digna de ser velho nos Pontífices que o representam: a maioria dos seus Vigários é curvada pelos anos.

Vejo aí um novo exemplo do seu amor, uma outra maneira de prover à diversidade do nosso amor a Ele. Na Judéia, ninguém pôde honrá-lo com esse amor particular que faz a glória do homem de bem que chegou à velhice. A homenagem prestada aos velhos é uma das mais belas generosidades da juventude; mas a juventude da Judéia não pôde fruir da dita de testemunhar esta espécie de respeito a Jesus, servindo-o. Agora, ao contrário, na pessoa de seu Vigário, cuja solicitude é tornada mil vezes mais tocante e cuja fraqueza é tornada mais enternecedora por causa da idade, podemos aproximar-nos de Jesus com novos ministérios de amor. Uma nova maneira de amá-lo é oferecida ao ardor e à ternura da nossa afeição. Neste fato, nesse conflito de um ancião desarmado com as grandezas, com os privilégios, com a falsa sabedoria das jovens e orgulhosas gerações que se elevam, há certamente uma nova fonte da nossa devoção ao Papa.

Nada pode ser mais venerado aos olhos da fé do que a maneira como o Papa representa Deus. É como se o céu estivesse sempre aberto por cima da sua cabeça, e a luz descesse de lá sobre ele, e, qual Estêvão, ele visse Jesus sentado à destra do Pai, enquanto o mundo range os dentes contra ele com um ódio, com uma sanha sobre-humana, que muitas vezes deve causar admiração a ele próprio.

Mas, aos olhos do incrédulo, o Papado, como todas as coisas divinas, não passa de um espetáculo lastimável e vergonhoso, que só pode provocar cólera e desprezo. Esse próprio desprezo deve tornar-se objeto da nossa devoção, porque devemo-nos aplicar a fazer uma constante reparação dele. Devemos honrar o Vigário de Jesus Cristo com uma fé cheia de amor e um respeito cheio de confiança e de simplicidade. Não devemos permitir-nos nenhum pensamento irreverente, nenhuma suspeita covarde, nenhuma incerteza pusilânime sobre o que diz respeito à sua soberania, quer espiritual, quer temporal, pois a sua própria realeza temporal é uma parte da nossa religião.

Não nos devemos permitir a desrespeitosa deslealdade de distinguir, nele e no seu ministério, entre o que podemos considerar como humano e o que podemos reconhecer como divino. Devemos defendê-lo com toda a constância, com toda a energia, com toda a dedicação, com toda a extensão de ação que o amor sabe empregar para defender as coisas que para ele são sagradas. Devemos ajudá-lo com orações desinteressadas; devemos servi-lo com submissão inteira, cordial, alegre, e, sobretudo nestes abomináveis dias de acusações e de blasfêmias, com a mais evidente, com a mais cavalheiresca, com a mais intrépida fidelidade. Trata-se dos interesses de Jesus Cristo, e não devemos nem perder tempo nem enganar-nos de bandeiras.

Nas provações da Igreja houve épocas em que a barca de Pedro pareceu soçobrar nas sombrias profundezas do mar. Há páginas da história que nos tolhem a respiração quando as lemos, e que sustam os batimentos do nosso coração, embora bem saibamos que a página seguinte nos contará algum novo triunfo após essas humilhações. Estamos numa dessas tristes épocas: é um tempo penoso de suportar, mas nem a indignação cumpre as obras da justiça de Deus, nem o azedume nos dá acesso junto a Ele.

Ao contrário, há uma força poderosa na aflição do fiel: é uma força que o mundo temeria se sequer pudesse discerni-la ou compreendê-la. O silêncio da Igreja atrai os olhares mesmo dos anjos que a contemplam na expectativa dos acontecimentos futuros. Devemos também esperar, na paciente tranquilidade da oração. Podem blasfêmias da incredulidade despertar a nossa fé; podem as hesitações dos filhos da Igreja atormentar os nossos corações – mas que a nossa dor não misture azedume à sua santidade. Fitemos os nossos olhares em Jesus, e cumpramos o duplo dever que o seu amor nos impõe hoje.

Digo o duplo dever, porque há dias em que Deus espera a profissão aberta da nossa fé e a intrépida declaração da nossa fidelidade; há dias, também, em que o sentimento da nossa fraqueza exterior nos impele a apoiar-nos mais do que nunca na oração interior, e é este o nosso segundo dever. De pouco valor seria a profissão aberta da nossa fé sem a oração interior, mas penso que a oração interior seria quase igualmente inútil sem essa profissão aberta da nossa parte. Muitas virtudes crescem em segredo; a fidelidade, esta só pode prosperar aos raios do sol e sobre as colinas.

Graças à inefável permissão da misericórdia de Jesus, vamos elevar sobre o seu trono sacramental o Chefe invisível da Igreja, a fim de podermos socorrer o nosso Chefe visível, o seu Vigário bem-amado e sagrado, o nosso dileto e venerável Pai. Não preciso dizer-vos o que tendes de pedir, nem como deveis pedir; mas tenho um pensamento que muitas vezes me tem preocupado e que quero comunicar-vos, para terminar:

Tenho a confiança invencível de que serão bem acolhidos no Céu aqueles que houverem particularmente amado na terra o Papa que definiu o dogma da Imaculada Conceição. [Referência a Pio IX].


* * *

Sermão pregado pelo Padre Frederick W. Faber no primeiro dia do ano de 1860, na igreja do Oratório de Londres, por ocasião de uma exposição solene do Santíssimo Sacramento pelo Santo Padre, o Papa.
Da devoção ao Santo Padre Reviewed by Editor on segunda-feira, abril 01, 2013 Rating: 5
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