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Os bastidores da nomeação de Chicago

Como sucessor do cardeal George, grande inspirador da atual linha da Conferência Episcopal dos Estados Unidos, o papa Francisco nomeou um bispo de orientação oposta. Eis aqui como e por quê.


Tradução: Carlos Wolkartt – Renitencia.com

Cidade do Vaticano, 30 de setembro de 2014 – Enquanto ainda estava aturdido pela notícia da iminente destituição do cardeal Raymond L. Burke, o catolicismo mais conservador e tradicionalista dos Estados Unidos — e historicamente mais «papista» — sofreu mais um golpe com a nomeação do novo arcebispo de Chicago.

A decisão de Francisco de eleger Blase Joseph Cupich como o novo pastor da terceira diocese dos Estados Unidos mergulhou numa profunda depressão este componente particularmente dinâmico do catolicismo de barras e estrelas, quase à beira de um ataque de nervos. Basta recorrer às reações dos websites e dos blogueiros desta zona do mundo para registrar a ofuscação e a contrariedade pela nomeação.

Por outro lado, a parte mais progressista do catolicismo americano, historicamente hipercrítica dos últimos pontificados, celebrou com entusiasmo a chegada de Cupich, definido pela imprensa laica como um «moderado», qualificação recorrente nos Estados Unidos para designar um «liberal» não radicalizado, mas ainda assim «liberal».

O predecessor de Cupich, cardeal Francis E. George, havia escrito não faz muito tempo em sua «coluna» para o seminário diocesano:

«Eu morrerei em meu leito, meu sucessor na prisão, e seu sucessor martirizado em praça pública. Mas depois dele um outro bispo recolherá os restos de uma sociedade em ruínas e lentamente ajudará a reconstruir a civilização, como a Igreja fez tantas vezes ao longo da história».

George foi sempre muito crítico da derivação laicista no campo legislativo, determinada sob a presidência de Barack Obama, bem conhecido por ele desde quando era senador por Illinois. Mas é difícil pensar que sua profecia se realizará, ao menos para seu sucessor imediato.

Para compreendê-lo, basta percorrer, também sumariamente, o percurso eclesiástico do novo arcebispo de Chicago.  

Cupich, de 65 anos de idade, não é nativo de Chicago, como George, mas de Omaha, no periférico e rural Estado de Nebraska.

Sua primeira sede episcopal foi Rapid City, na qual foi sucedido pelo conservador Charles J. Chaput. E foi nesta pequena diocese de Dakota do Sul que em 2002 se fez notar por haver proibido a uma comunidade católica tradicionalista de celebrar o tríduo pascal segundo o rito romano antigo, depois liberalizado, em 2007, por Bento XVI com o motu proprio Summorum Pontificum.

Os católicos conservadores recordam também que durante o desacordo entre os bispos dos Estados Unidos e a Casa Branca sobre a reforma sanitária, Cupich foi um dos pouquíssimos prelados — menos de uma dezena — que não disseram nem sequer uma palavra contra, ainda quando a crítica ao ObamaCare não é a posição de alguns bispos «extremistas», ou «guerreiros culturais», como se costuma dizer em sentido depreciativo, mas a posição oficial do Episcopado.

Convertido em bispo de Spokane em 2010, no ano seguinte Cupich proibiu seus sacerdotes e diáconos de tomarem parte nas jornadas de oração em frente a clínicas de aborto. Uma proibição em clara contradição em relação ao «mainstream» da Igreja dos Estados Unidos. Com efeito, em frente a estas clínicas se rezam Rosários em quase todas as dioceses dos Estados Unidos. Dezenas de bispos participam nestas jornadas, incluídos, por exemplo, o também «moderado» cardeal de Washington, Donald Wuerl, e o atual presidente da Conferência Episcopal, Joseph Kurtz, arcebispo de Louisville.

A voz de Cupich — observam tanto os católicos conservadores, com dor, como os progressistas, com satisfação — se eleva sempre sonora quando se fala de imigração ou pena de morte, mas é sempre afetada pela afonia quando se discute sobre o aborto, a eutanásia e a liberdade religiosa, ou quando se critica a administração de Obama sobre a reforma sanitária.

Significativo, neste sentido, é o fato de que Cupich haja decido duplicar o âmbito do escritório «Respect Life» na diocese de Spokane, para dar à luta contra a pena de morte o mesmo peso da luta contra o aborto.

Conseqüentemente, com Cupich parece que voltam a ter auge em Chicago os tempos do cardeal Joseph Bernardin, predecessor de George, campeão do catolicismo «liberal» dos Estados Unidos e criador da gigantesca máquina burocrática da Conferência Episcopal, da qual foi presidente de 1974 a 1977 e «dominus» até sua morte em 1996.

E a era Bernardin parece voltar graças a uma mudança do papa Francisco que golpeou de surpresa e deixou perplexo um episcopado como o dos Estados Unidos, hoje amplamente caracterizado pelas nomeações feitas por João Paulo II e Bento XVI.

Que foi uma surpresa, pode-se notar pelo fato de que poucos dias antes da nomeação o semanário «Our Sunday Visitor», o mais oficial dos jornais católicos de barras e estrelas — e que tem como presidente da homônima editora o jornalista Greg Erlandson, membro da comissão sobre a reorganização dos meios de comunicação do Vaticano, reunida em Roma pela primeira vez na semana passada —, ao dar a lista dos oito nomes de possíveis sucessores do cardeal George, não mencionou o escolhido pelo papa Jorge Mario Bergoglio, isto é, Cupich.

Que a nomeação também deixou perplexo o episcopado norte-americano pode resultar evidente pelos resultados das eleições dos atuais presidente e vice-presidente da Conferência Episcopal, celebradas há menos de um ano, em novembro de 2013.

Nesta jornada eleitoral, de fato, entre os dez candidatos estava também Cupich. E a sua era considerada pelos seus colegas como a mais marcadamente «progressista», eclesiasticamente falando, das candidaturas apresentadas.

Pois bem. Na primeira votação, que viu a repentina eleição a presidente do então vice-presidente, arcebispo Kurtz, com 125 votos sobre 236, Cupich ficou em sétimo lugar, com apenas 10 votos.  

Obtiveram mais sufrágios que o cardeal de Houston, Daniel N. DiNardo (25), o arcebispo de Filadélfia, Chaput (20), os arcebispos de Los Angeles, José H. Gómez, e de Baltimore, William E. Lori (15 votos cada) e o arcebispo de Nova Orleans, Gregory M. Aymond (14).

Nas duas votações para a vice-presidência, Cupich esteve muito longe de ser eleito, ao alcançar o quinto lugar (de nove) tanto no primeiro turno, com 24 votos sobre 236, como no segundo, com 17 sobre 235.

Para Chicago, então, o papa Francisco não levou em conta as orientações do episcopado local, contrariamente, por exemplo, ao que faz na Espanha, onde promoveu, como arcebispo de Madri, Carlo Osoro Sierra, que, como arcebispo de Valência, foi eleito no último mês de março como vice-presidente da Conferência Episcopal no primeiro turno, com 46 votos sobre 79.

Não parece que o papa haja considerado as indicações do cardeal George. Tudo ao contrário do que ocorreu em Sydney, onde Francisco nomeou, em 18 de setembro, o dominicano Anthony Colin Fisher, o pupilo do ex-arcebispo, isto é, desse cardeal George Pell, de matiz conservador, a quem o papa chamou em Roma como «czar» do aparato econômico financeiro do Vaticano.

Há só um ponto no qual Francisco utilizou para Chicago o mesmo método utilizado para Madri e Sydney. Nos três casos, procedeu à nomeação sem fazê-la discutir primeiro pelos cardeais e bispos membros da Congregação para os Bispos, ainda quando todos foram renomeados por ele no ano passado com novos ingressos significativos e outras tantas depurações significativas (a mais clamorosa é a do cardeal norte-americano Burke).

Para Chicago, fica claro que o papa Francisco procedeu com uma consulta pessoal, paralela à do dicastério. Apoiando o papa na nomeação de Cupich haveriam estado, em particular, os cardeais Óscar Andrés Rodríguez Maradiaga e, sobretudo, Theodore McCarrick, emérito de Washington, exponente da velha guarda «liberal» do episcopado norte-americano.

Para dizer a verdade, não é uma novidade deste pontificado que nomeações episcopais, também importantes, não sejam discutidas colegialmente pela pertinente Congregação vaticana. Com Bento XVI não se discutiu a provisão canônica de Veneza (mas sim as de Milão, Malinas-Bruxelas, Santiago del Chile e Manila). Com este pontificado, no entanto, este abandono dos procedimentos parece ser usado com uma freqüência muito maior.

Efetivamente, não passaram pela peneira da Congregação não só as nomeações de Chicago, Sydney e Madri, mas também, na Alemanha, a seleção da tríade a ser considerada, segundo a tradição, no capítulo de Colônia, assim como todas as nomeações — uma vintena — feitas à Argentina.

Na Itália — para dar dois exemplos —, não passaram pelo exame da Congregação dos Bispos as sucessões em Locros e em Isérnia, onde foram promovidos os vigários-gerais de dois eclesiásticos íntimos do papa, por um lado o do bispo de Cassano all'Ionio e secretário-geral da Conferência Episcopal, Nunzio Galantino, e por outro lado o do arcebispo de Chieti-Vasto e secretário especial do próximo sínodo, Bruno Forte.

Voltando aos Estados Unidos, neste ponto será interessante ver o que acontecerá no próximo consistório para a criação de novos cardeais.

Atualmente, são três as dioceses norte-americanas tradicionalmente cardinalícias, até hoje governadas por arcebispos sem a púrpura: Chicago, Los Angeles e Filadélfia.

É fácil considerar que o papa Francisco concederá o barrete ao de Chicago, que dos três foi o único nomeado por ele.

Será, porém, curioso verificar se ao mesmo tempo terá a púrpura também a diocese de Los Angeles, cujo ordinário é do clero da Opus Dei, ou a de Filadélfia (não as duas juntas, porque parece impossível que o papa Bergoglio crie três novos cardeais norte-americanos com uma só cajadada).

Ou se, pelo contrário, como sinal suplementar a ser enviado através do Atlântico, a púrpura de Chicago estará seca, sem qualquer guarnição.
Os bastidores da nomeação de Chicago Reviewed by Editor on terça-feira, setembro 30, 2014 Rating: 5
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