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O Romano Pontífice é o Vigário de Jesus Cristo



Por Padre Mariano del Toro y Pacheco
Tradução: Carlos Wolkartt – Renitencia.com

O texto a seguir é a transcrição de um discurso lido na Universidade Central de Madrid, em 1863, por ocasião da investidura do autor como Doutor em Sagrada Teologia. Na época, reinava na Cátedra de São Pedro o Papa Pio IX.

Procurou-se manter a linguagem original do texto, e a retórica foi sacrificada para dar lugar à precisão teológico-doutrinária declamada pelo orador.

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Exmo. e Ilmo. Sr.

Que sacerdote católico não tem algo a dizer em defesa da prerrogativa primacial do Romano Pontífice, fundamento e base de toda a doutrina cristã?

Vede por que razão não hesitei em escolher o seguinte tema: «O Romano Pontífice é o Vigário de Jesus Cristo, em quem reside o Primado de honra e jurisdição por direito divino».

Ao analisar tão só essa proposição, este dogma do catolicismo, origem de toda a doutrina cristã (segundo Belarmino), a primeira ideia que se ocorre à nossa mente é a genealogia deste Pontífice Romano, desde quando data essa autoridade que hoje exerce e de quem a herdou ou recebeu. Discorramos o véu da história, busquemos os antecessores do venerando Pio IX, e atravessando rapidamente século por século, geração por geração, depois de inclinar nossa cabeça à majestade augusta de duzentos e sessenta que sem interrupção ocuparam essa mesma Cátedra de Roma, detenhamo-nos no pescador de Betsaida, primeiro que nela se sentou, princípio e origem desta potestade.

Duas são as questões sobre a matéria de hoje que vou falar, apresentas pelo protestantismo, unido à incredulidade de nosso século, que formuladas em duas perguntas distintas, ouvimos ressoar em toda parte.

Conferiu Jesus Cristo a São Pedro o Primado de honra e jurisdição sobre toda a Igreja? Esta autoridade primacial foi transmitida a seus sucessores, os Romanos Pontífices?

A satisfatória resposta a estas duas perguntas desenvolverão e explanarão perfeitamente o tema que escolhi e com o qual ocuparei vossa ilustre atenção nestes críticos momentos.

Perdão, Exmo. Sr., se tenho que experimentar as armas do convencimento; porém, quando a impiedade se satisfaz em derramar dúvidas em torno de nossos dogmas, é dever do teólogo pô-los a salvo.

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Exmo. e Ilmo. Sr.

Abramos as Sagradas Letras, onde estão consignadas as verdades eternas que o Verbo divino se dignou revelar-nos, e vejamos o testamento do Deus feito homem, a escritura de fundação dessa Igreja, dessa sociedade cristã; examinamos sua constituição, e o que vemos nela? Vemos que ao iniciar Jesus Cristo sua pregação, ainda antes de falar de sua divina missão, antes de indicar sequer as ideias que pululavam em sua mente eterna do estabelecimento de um reino cujo nobre objetivo tendia a unir as nações e elevá-las segundo a expectativa geral a um estado mais perfeito sob o império de uma lei divina e imutável, na eleição de seus doze discípulos, destes que haviam de ser os confidentes de seus desígnios e os mandatários de sua vontade, se encontra a primeira forma, ou seja, o esboço da constituição da Igreja. Rodeado de uma porção de discípulos, Jesus Cristo se coloca a certa distância e chama para si doze homens, mas ao ver Pedro pela primeira vez, não lhe deixa seu nome – como o fez com os demais – mas o converte para Cefas, ou Pedra. Eis aqui como lhe indica que havia de ser a pedra fundamental de sua Igreja. Eis aqui Simão como objeto de uma consagração particular e distintiva. «E impôs a Simão o nome de Pedro» (S. Marcos III, 16). Outro evangelista reproduz o mesmo fato de uma maneira mais explícita: «E Jesus, fixando nele o olhar, disse: Tu és Simão, filho de Jonas, tu serás chamado Cefas, que quer dizer Pedra» (S. João I, 42).

Antes de continuar, vejamos como se vislumbra neste fato o pensamento do Salvador. Era costume estabelecido entre os doutores judeus dar um novo nome a seus discípulos quando estes creditavam uma grande superioridade ou uma virtude muito rara; parecia que este costume remontava ao próprio Deus, que com frequência havia assinalado deste modo na vida de seus servos um acontecimento importante que servia de introdução a uma nova ordem de coisas: assim vemos que mudou os nomes de Abraão e Sara, quando fez com o primeiro a aliança, cujo sinal era a circuncisão, e prometeu à outra que conceberia em sua velhice, e que de suas entranhas descenderiam reis e nações; assim vemos também que Jacob recebeu de Deus o nome de Israel, que quer dizer forte, quando depois de sua luta com o Anjo disse-lhe que poderia a partir de então vencer aos homens. Uma distinção semelhante é a que recebeu Simão quando se apresentou diante de Jesus Cristo, que lhe impôs também um nome novo. Por analogia, pois, com estes exemplos, examinemos a que alude este nome no que diz respeito aos desígnios de que era objeto; o nome Cefas, nos disse o Evangelho (S. João I, 42), significa Pedra, que é o mesmo que se o Salvador houvesse dito a esse Apóstolo: «Entre todos os Apóstolos, tu serás a pedra».

Porém, deixemos que o pensamento do Salvador se comunique e se desenvolva em toda a sua magnificência; sigamos a história da constituição da Igreja, assistamos a um desses dramas cheios de simplicidade e de profundidade que se encontram nos divinos oráculos, e examinemos o cimento que a própria mão de Jesus Cristo vai colocar em sua Igreja.

«E Jesus foi para as bandas de Cesaréia de Filipe, e interrogou os seus discípulos, dizendo: Quem dizem os homens que é o Filho do homem? E eles responderam: Uns dizem que é João Batista, outros que é Elias, e outros que é Jeremias, ou algum dos profetas. Jesus disse-lhes: E vós, quem dizeis que eu sou?» (S. Mateus XVI, 13-15). Apressou-se Pedro a confessar a divindade de Jesus Cristo, e para recompensar sua fé lhe declara que seria o fundamento de sua Igreja: «Digo-te que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela. E eu te darei as chaves do reino dos céus; e tudo o que ligares sobre a terra, será ligado também nos céus; e tudo o que desatares sobre a terra, será desatado também nos céus» (S. Mateus XVI, 18-19).

Eis aqui, Exmo. Sr., a solene promessa do Filho de Deus, prova concluinte da instituição do Primado de Pedro. Duas metáforas usa Jesus Cristo para anunciar-lhe sua superioridade, a de pedra e a de chaves: ambas denotam a plenitude do poder com que seria revestido por direito divino. Promete Jesus que Simão filho de Jonas seria pedra, fundamento da Igreja que iria edificar; se, pois, o edifício material é construído sobre a pedra angular, eis aqui Pedro sustentando, com a autoridade de Cristo, o edifício espiritual da Igreja; nele residirá todo o poder, e somente por ele terão força as leis da Igreja que sobre ele será fundada.

E que outra coisa indicam as chaves da Igreja que Cristo dá a Pedro senão a plenitude de poder e jurisdição sobre esta mesma Igreja? Ninguém ignora que entre os orientais, entre os povos antigos, o sinal de direito e posse sobre uma casa ou uma cidade não consistia senão na entrega das chaves: a história de nosso país é testemunha deste costume, e a tomada de Sevilla e de Granada e outras cidades do poder maometano assim o testifica; e passagens do antigo testamento confirmam ser as chaves símbolo de poder, de autoridade plena sobre a coisa. Por isso todos os expositores ao comentar essas palavras citam outras de Isaías (XXII, 22) nas quais Deus fala deste modo do personagem figurativo de seu Filho: «E porei a chave da casa de Davi sobre os seus ombros; e ele abrirá, e não haverá quem feche; e fechará, e não haverá quem abra». As chaves na Escritura são, pois, a imagem, o símbolo da soberania; assim é que ao dar Cristo as chaves de sua Igreja a São Pedro, lhe dá a plenitude do poder sem limites nem exceção, lhe constitui Príncipe supremo de toda a Igreja, lhe transfere todo o poder que Ele tinha sobre a terra, lhe faz seu Vigário, dando-lhe potestade de atar e desatar sem restrição alguma, substituindo-lhe, por assim dizer, em todos os seus direitos – Aquele que dizia de Si mesmo: «Foi-me dado todo o poder no céu e na terra» (S. Mateus XXVIII, 18).

Só Pedro foi constituído fundamento e Chefe da Igreja; por isso Jesus Cristo não se dirige a todos, mas a ele exclusivamente, quando diz: et ego dico tibi, quia tu es Petrus, et dabo tibi. E poderá dizer-se que São Pedro falou em representação de todos [naquela reunião citada em S. Mateus XVI, 13-16]? De nenhuma maneira, pois mal poderia representar aquela reunião da qual ainda não era chefe; tampouco se pode supor que falou em nome de todos, expressando a fé de todos, porque então o prêmio de sua confissão (S. Mateus XVI, 16) teria sido injusto, e o Santo dos Santos disse terminantemente que nem a carne nem o sangue lhe revelaram sua divindade (S. Mateus XVI, 17). Consultou porventura São Pedro aos Apóstolos? Recolheu seus votos? Criam já todos na divindade de Jesus Cristo? Se atentarmos ao contexto do citado Evangelho, todo ele vai de encontro a esta interpretação; nele se vê que os Apóstolos falaram antes que Pedro e disseram uns uma coisa e outros outra, referindo opiniões dos homens acerca de Jesus; porém só Pedro, no silêncio de todos os Apóstolos, confessou claramente a divindade de seu Mestre.

O que fala por todo um congresso de pessoas como seu representante, não tem um mérito distinto do das pessoas a cujo nome fala; porém neste Evangelho de São Mateus é evidente que quis Jesus Cristo, na promessa de um prêmio distinto, remunerar em Pedro um mérito diverso e próprio dele só, mérito que consistiu na claridade, profundidade e publicidade com que confessou a divindade de Jesus Cristo. Assim, pois, carece de fundamento a representação do colégio apostólico com o infeliz objetivo de estender a todos os apóstolos a promessa deste poder supremo e singular.

Além disso, o Salvador, que se havia proposto a regeneração social, teve que deixar neste mundo os que concluíssem sua obra; por isso disse a seus Apóstolos: «Vós sois os que tendes permanecido comigo nas minhas tribulações. E por isso eu preparo o reino para vós, como meu Pai o preparou para mim, para que comais e bebais à minha mesa, no meu reino, e vos senteis sobre doze cátedras a julgar as doze tribos de Israel» (S. Lucas XXII, 28-30). Este é um privilégio geral, como disse Belarmino, para todos os Apóstolos, e por isso se dirige em seguida a Pedro: «Eis que Satanás vos reclamou com instância para vos joeirar como trigo; mas eu roguei por ti, para que a tua fé não falte; e tu, uma vez convertido, confirma os teus irmãos» (S. Lucas XXII, 31-32). Falava o Salvador a seus Apóstolos das cátedras ou sés que haviam de estabelecer em cumprimento do preceito de Jesus Cristo. Ide ao mundo todo, e pregai o Evangelho a toda criatura – falava-lhes de seu ministério de ensinar perpetuado por Ele, do exercício do Apostolado, e ao mesmo tempo que lhe apresenta sua missão, indica a Pedro que era o laço de unidade, o centro do poder pelo qual especialmente havia rogado a seu Eterno Pai para que sua fé não faltasse, autorizando-lhe pela firmeza dessa mesma fé, contra a qual colidiriam as portas do inferno, a confirmar os seus irmãos. E quando o Salvador manda a Pedro que confirme os seus irmãos? Na véspera de sua Paixão e durante a ceia pascal, em que as entranhas de sua caridade se desfizeram em palavras do mais inefável amor, quando da discussão entre os Apóstolos para averiguar qual devia ser o maior – e eis aqui o próprio Jesus Cristo decidindo a questão: «Aqui tens, lhes disse, o que os há de confirmar, porque sua fé nunca há de faltar».

Dois poderes tinha São Pedro: o comum a todos e o especial de Primado, de cabeça de todo o Apostolado; por isso começa Jesus Cristo chamando-lhe Simão, seu nome antigo, e ao assegurar-lhe que seria o fundamento e o apoio dos demais, já não lhe chama Simão, mas Pedro: a palavra Pedro supõe a obrigação de confirmá-los, lhe dá superioridade, preeminência sobre os demais.

Mas a autoridade de Pedro sobre os demais Apóstolos está terminante não quando fala Jesus Cristo de atribuições comuns, mas quando lhe aprouve cumprir a promessa do Primado. E quanto isto sucedeu? Ao concluir Jesus Cristo sua pregação, depois de derramar no Gólgota seu Sangue e dar um testemunho de sua divindade, da missão que ao mundo lhe trouxe; quando a sinagoga se aproximava de seu fim para ser substituída pela Igreja, porque Jesus Cristo havia ressuscitado e se haviam cumprido todas as profecias, então o Verbo Divino, antes de partir ao seio de seu Eterno Pai, deseja cumprir as promessas que fez durante sua pregação, e deixando-se ver pela terceira vez por seus discípulos à beira do mar de Tiberíades, pergunta a Pedro três vezes se lhe amava, e por consequência da segurança de seu amor, que outras tantas lhe deu, mereceu ouvir estas palavras do Senhor: – Pasce agnos meos, pasce oves meas: «Apascenta meus cordeiros, apascenta minhas ovelhas» (S. João XXI, 17). Não são somente seus cordeiros os que lhe recomenda, mas também suas ovelhas, as mães dos cordeiros; não só os simples fiéis os que lhe entrega a seu cuidado, mas também os pastores sobre os quais deve estender sua pastoral vigilância. Assim cumpre o Senhor a promessa que lhe havia feito de dar-lhe as chaves de sua Igreja e de fazer-lhe a pedra fundamental dela.

O Salvador, que havia designado a sua Igreja sob a figura de um redil, que havia rogado a seu Pai para que conservasse a seus discípulos em uma só fé e unidos sob o cajado de um só Pastor, não podia em momentos tão solenes esquecer este sublime pensamento; por isso, antes de voltar ao seio donde saíra, adorna a Pedro com a autoridade que Ele se havia reservado, encarregando-lhe todo o rebanho, primeiro os cordeiros e então as ovelhas, porque não como qualquer outro o fez Pastor, mas Pastor dos Pastores: Pedro, pois, apascenta os cordeiros, apascenta também as ovelhas, apascenta a todos, porque além de cordeiros e ovelhas, nada mais há na Igreja.

Eu me deteria a examinar a força da palavra original que na vulgata se pôs por pasce (apascenta), e confrontando-a com outras passagens da Sagrada Escritura em que a mesma palavra é usada, veríamos que não só significa apascentar, ou preparar alimento, mas regere (reger) ou pascere cum imperio (apascentar com autoridade); investigação que omito, porque até os próprios protestantes, tão suspicazes como versados em conhecimentos filológicos, assim o testificam.

Como, pois, não reconhecer a autoridade primacial de Pedro? Porventura excetuou Jesus Cristo a algum que não pertencesse a seu cajado? A quem representava São Pedro nesta ocasião quando ainda não era cabeça do colégio apostólico, visto que por estas palavras: Pasce oves meas, lhe conferiu o Primado que até então só lhe era prometido? O Sagrado texto explica claramente a distinção que Jesus Cristo quis estabelecer entre São Pedro e os demais Apóstolos. Jesus lhe pergunta: «Me amas mais que estes teus companheiros e meus discípulos?». Se, pois, aqui se exige de Pedro um amor superior ao dos outros, ao dizer-lhe «apascenta minhas ovelhas», lhe fala somente a ele com preferência a todos os demais; e se prosseguirmos no Evangelho, nos convenceremos ainda mais de que só com Pedro falava, não como cabeça e representante de alguém, mas como indivíduo, como pessoa singular: por isso lhe prevê em seguida o gênero de morte que há de ter, suplício que São Pedro padeceu, semelhante ao d'Aquele que lhe havia nomeado Vigário seu.

Não havia passado muito tempo destas promessas, quando se apresenta Pedro revestido de certa superioridade e poder sobre todos os seus irmãos: apenas se constitui a Igreja, quando Pedro fala nela como Chefe, e eis aqui outra prova decisiva de seu Primado.

Com efeito, nos primeiros momentos da sociedade cristã, entregada ao governo dos doze Apóstolos, parecia natural que a princípio estivessem confundidos, sem deslindar-se os poderes de uns e outros, porque assim sucede sempre com as sociedades nos primeiros anos de sua instituição; mas na Igreja de Cristo não sucede assim, porque Deus quis que o caráter e a autoridade primacial de Pedro fossem claramente assinalados no primeiro ato solene de jurisdição eclesiástica que se oferece nos anais do Cristianismo. Neles vemos que Pedro reúne a Igreja, e cheio daquela grande ideia que Jesus Cristo lhe havia dado, toma posse do principado que havia de transmitir a seus sucessores, e propõe a seus irmãos eleger um novo Apóstolo para o lugar de Judas, o traidor; ele interpreta com autoridade própria a passagem do Antigo Testamento que fala de sua traição, e é ele quem designa os candidatos. E tudo isto, por que o fazia ele e não outro Apóstolo? Porque Pedro, contesta São João Crisóstomo [1], é superior em jurisdição aos demais, debaixo de suas chaves estão os demais, e só a Pedro disse Cristo: confirma os teus irmãos.

Quereis mais provas do primado de Pedro? Pois ouvi a Bossuet [2]: «Pedro se apresenta de todos os modos como o primeiro: o primeiro em confessar a fé, o primeiro na obrigação de exercer o amor, o primeiro de todos os Apóstolos que viu ao Salvador ressuscitado, o primeiro que confirmou a fé com um milagre, o primeiro em converter os judeus, o primeiro em receber os gentios, e o primeiro em todas as partes: tudo contribuiu para estabelecer sua supremacia».

Pois bem. Por que sempre é o primeiro, de tal modo que até na enumeração deles [dos Apóstolos], dizem todos os Evangelistas: Primus Simon, qui dicitur Petrus? É por que tem alguma particularidade digna de respeito? Não, porque André era o mais ancião de todos e o que antes conheceu a Jesus Cristo; São João era o discípulo amado; São Tiago foi o protomártir do Apostolado. Por que, pois, lhe nomeiam o primeiro senão porque querem eles mesmos ser testemunhos do exercício do Primado conferido por Jesus Cristo a São Pedro?

E esta autoridade, deve transmitir-se a seus sucessores, os Romanos Pontífices? Transmitiu-se de fato? Isto é o que nos resta provar. Jesus Cristo não estabeleceu uma Igreja transitória, mas uma Igreja que havia de durar até a consumação dos séculos; por isso, quando disse a Pedro «Sobre ti edificarei a minha Igreja», é evidente que não falou só da pessoa de Pedro – que devendo morrer em pouco tempo, não podia ser o fundamento de uma Igreja imortal – mas também da dignidade do Pontificado de Pedro, que não havia de faltar jamais; e na pessoa de Pedro falou também Jesus Cristo, disse São João Crisóstomo [3], de todos os sucessores de Pedro, e a eles, não menos que a Pedro, encomendou o cuidado de todas as ovelhas.

Nem podia ser de outra maneira, pois o que deu um chefe supremo a cada povo, na expressão da Escritura (Eclesiástico), impossível era deixar-se de dar à sua Igreja uma cabeça suprema, porque assim como não há um corpo sem cabeça, não há família sem chefe, nem estado sem soberano, nem barco sem piloto, nem edifício sem cimentos; da mesma maneira, sem o Sumo Pontífice, base e fundamento da Igreja, não existiria esta sociedade; sem a comunhão com o Sumo Pontífice e a dependência dele, os Bispos seriam chefes absolutos e independentes: toda sociedade que tem um chefe absoluto e independente é uma sociedade realmente distinta das demais; por conseguinte, a Igreja não seria uma, mas muitas, e tantas quantos são os Bispados. Porém Jesus Cristo não instituiu as igrejas, mas a Igreja que chama de sua. Ecclesiam meam. Ele pediu a seu Pai que seus discípulos formassem não muitas sociedades absolutamente distintas umas das outras, mas um só corpo, uma só família, um só reino de Deus na terra, um só edifício, uma só arca, uma só e misteriosa unidade, assim como Ele e seu Pai eram uma mesma coisa; se, pois, é essencial na Igreja a unidade enquanto esta dure – e que há de durar até a consumação dos séculos – por direito divino tem de haver nela um Pontífice Sumo, uma cabeça suprema que seja visível, porque a Igreja militante assim o é.

E quem será esta suprema cabeça? Em que lugar reside? É acaso São Petersburgo, Berlin, Londres ou Genebra? Os próprios hereges preferem dizer que não foi conferido o Sumo Pontificado a Pedro por Jesus Cristo, ou que acabou em Pedro e com Pedro, antes que admiti-lo e reconhecê-lo fora de Roma: opinião tanto mais absurda e ridícula, quanto que negam à Igreja cristã o Pontificado perpétuo que reconhecem na sinagoga judaica, e recusam conceder à realidade aquilo que concedem à figura, porque segundo São Paulo, o sacerdócio antigo foi o símbolo e a figura do novo.

Transferiu-se o poder de Pedro à autoridade civil? Supor isto seria o absurdo dos absurdos: tudo exclui terminantemente o direito dos príncipes sobre as funções e ministérios eclesiásticos; esta pretendida supremacia está em contradição com a natureza do Primado Eclesiástico, com o estabelecido e com o que forma o caráter constitutivo das duas sociedades [política e religiosa].

Quem poderia transferir o poder de Pedro à autoridade civil? Como poderia dividir-se este poder em tantas partes quantas são as nações e governos que no temporal está dividido o mundo? A sociedade política e a religiosa são inteiramente distintas: o fim de uma é natural, o da outra sobrenatural, distinta deve ser a constituição das duas potestades; assim, a sociedade política é como indiferente a esta ou a outra forma de governo, e seja seu poder eletivo, hereditário ou adquirido por direito de conquista, seja exercido pela aristocracia ou pela democracia, a sociedade civil sempre subsistiria; mas a sociedade espiritual, a sociedade cristã separada completamente da civil por Jesus Cristo naquelas palavras: «Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus», tem seu poder supremo, próprio e independente; supremacia que só vem de Deus, que nada tem se d'Ele não recebeu, que ninguém pode exercê-la se não é enviado de Deus, se não lhe foi dito: Ecce ego mitto vos – Eu os envio; ninguém pode meter-se nos negócios eclesiásticos, nem cuidar e reger a Igreja senão aquele a quem foi dito: Pasce agnos et oves meas.

Se, pois, um Pontificado supremo foi estabelecido por Jesus Cristo e conferido verdadeiramente a Pedro, nada há de tão certo e evidente como que herdado pelo Bispo de Roma, sucessor de Pedro. Em confirmação disto podemos citar aquela passagem de São Lucas, onde nos é narrado que falando um dia o Senhor junto ao lago de Genesaré, as multidões se agrupavam e lhe estreitavam por todas as partes, desejosas de ouvir sua voz e sua celestial doutrina; para comprazê-las, vendo o Salvador dois barcos vazios, pois os pescadores estavam em terra lavando e compondo as redes, entra em um desses barcos, e rogando ao dono que lhe separasse um pouco da costa, se sentou na popa e começou desde ali a pregar ao povo que se havia reunido na praia. E quem era o dono deste barco? Quem era o dono? Um barco era de Tiago e João, filhos de Zebedeu, porém neste não entrou Jesus Cristo; o outro era de Simão, de Pedro, e eis aqui Jesus Cristo pregando desde o barco de Pedro. Mas espera, porque não é este o objetivo que tenho ao citar este fato. Depois de sua pregação, voltando-se a Pedro, disse-lhe: «Conduza agora teu barco a alto-mar, e todos os que aqui estais, lançai as redes para pescar». Porém vou eu porventura deduzir deste fato que o barco misterioso, que a verdadeira Igreja, na que unicamente se encontra Jesus Cristo, é o barco de Pedro? Não. Ou acaso ao interpretar estas palavras: duc in altum com o venerável Beda, Santo Agostinho, São Jerônimo e outros muitos Doutores, são acaso, repito, comentários ou pensamentos arbitrários? Não, Exmo. Sr., porque embora na Sagrada Escritura há sempre sentido literal e místico ou espiritual, neste fato particularmente o próprio Cristo nos indica o sentido espiritual verdadeiro, tão verdadeiro como o histórico e o literal, ao assegurar a Pedro que seria pescador de homens. O barco, pois, de Pedro, a cátedra de Pedro desde onde havia de pescar aos homens com as redes de sua pregação, lhe manda Cristo que seja conduzido a alto-mar; porém, ao sair Pedro de Jerusalém com seu barco, com esse barco que leva o Filho de Deus e com Ele todas as riquezas da graça e da salvação eterna, permanecerá para sempre em Antioquia? Conduza teu barco a alto-mar, lhe havia dito Jesus Cristo, e por isso se dirige a Roma, porque Roma pagã era uma cidade soberba, não menos pela altura de suas riquezas, de suas glórias, de seu poder e de seu império, que pela altura de seu orgulho, e ao mesmo tempo era uma cidade degradada e vil pela profundidade de sua corrupção e de seus vícios: era um verdadeiro mar, um oceano alto e profundo, agitado continuamente pelos ventos das doutrinas más licenciosas e pelas ondas das mais violentas paixões. Eis aqui o motivo de Pedro fixar seu barco em Roma, porque o próprio Salvador lhe mandou que dirigisse seu barco a alto-mar.

Temos, pois, que Roma, e não outro povo, nem cidade alguma do mundo, é a designada por Jesus Cristo para ser o centro do Catolicismo e residência de seus chefes, e a esta Sé e ao Bispo de Roma está vinculado o Primado de honra e de jurisdição sobre toda a Igreja, e nele se refundem todas as honras e preeminências, todos os direitos e prerrogativas concedidas por Jesus Cristo ao Príncipe dos Apóstolos; é incontrovertível também que o sucessor de uma potestade qualquer resume em si a autoridade de seu antecessor, e todos os privilégios estão anexos a seu cargo; e o sucessor de Pedro não é, nem pode ser outro, senão aquele que se senta na mesma Sé em que Pedro se sentou e morreu. E quem é o que ocupa esta Cátedra? O Romano Pontífice; logo, o Bispo de Roma é também o que está em posse de todas as honras e preeminências concedidas ao Pescador de Betsaida.

A Igreja também observou esta conduta com aqueles poderes que ela mesma instituiu para sua maior ordem e regime; assim, os Bispos de Alexandria e Antioquia exerceram não só funções episcopais em suas dioceses, mas estendiam sua jurisdição sobre os Bispos das Sés vizinhas. E por quê? Porque os enviados dos Apóstolos, os primeiros que nelas se sentaram, tinham tais atribuições; ao ocupar estas cátedras, seus sucessores receberam todas as prerrogativas que eles tinham. Por isso o Bispo de Roma, chamado por Deus para suceder a Pedro no cargo pastoral, lhe sucede também no Primado de honra e jurisdição sobre toda a Igreja.

Tão conhecida foi esta verdade em todos os tempos, que não há na história fato mais comprovado que a supremacia que sempre exerceram na Igreja os Bispos de Roma. Recorramos, porém, à série dos séculos desde São Lino até Pio IX. Selou Pedro com seu sangue a verdadeira doutrina, e os Bispos que lhe sucederam na Sé Romana continuaram exercendo a mesma potestade que havia exercido aquele Apóstolo em toda a Igreja, sem que São João nem algum outro dos que sobreviveram àquele acontecimento se oponham a ele, alegando o título de discípulos do Senhor. Nos fins do primeiro século, se suscita uma questão que introduziu vários abusos na Igreja de Corinto, e seus fiéis recorrem a São Clemente para que os corrija e corte o cisma que havia começado, e o sábio e venerável Pontífice escreve duas cartas intimando-lhes, em nome da Sé apostólica, que ouçam a seu Pastor e não se deixem levar pelas seduções daqueles que só aspiravam introduzir a divisão no rebanho de Jesus Cristo. E por que razão não se dirigiram a algumas das Igrejas da Ásia que, fundadas diretamente pelos Apóstolos, ainda conservavam a doutrina com a mesma pureza com que a haviam recebido do Espírito Santo? Porque Roma foi considerada e reconhecida desde o princípio como a fonte do Catolicismo, apesar de possuir seu berço no Oriente; por isso os de Corinto leem em suas Igrejas as cartas de São Clemente cem anos depois, com o mesmo respeito que os escritos dos Apóstolos. Santo Hegésipo, São Justino, São Policarpo, Santo Irineu, todos os apologistas daquele tempo, deram testemunho da supremacia da Sé Romana sobre todas as outras, seja vindo dos países mais distantes para beber as águas da doutrina no ponto mesmo donde nascem, seja formando o catálogo de seus Bispos como a Sé mais ilustre da cristandade, seja enfim publicando seus escritos na cidade eterna, para que, publicados ao lado da Sé Apostólica, soubessem todos os fiéis do mundo que dela haviam recebido a doutrina.

Continuando agora a série dos tempos, vemos estender-se por toda parte a jurisdição do Romano Pontífice. São Policarpo, Bispo de Esmirna, vai a Roma, e por qual motivo? Acaso tem que resolver algum negócio na corte do Imperador? Só vai, apesar da distância e dos então difíceis meios de comunicação, para resolver com o sucessor de Pedro, para conferenciar com o Papa São Aniceto, sobre um ponto, não de dogma, mas de disciplina. Inquietava-lhe o fato de que a Igreja que ele regia discrepasse na celebração da Páscoa da Igreja de Roma, e por isso recorre ao sucessor de Pedro, porque reconhece o que ainda não havia dito Santo Irineu, que era necessário que todas as Igrejas se unissem à Igreja Romana pela supremacia principal.

Suscita-se a disputa sobre esta mesma questão, e um Concílio nacional, convocado e presidido pelo Bispo de Éfeso, sanciona a disciplina contrária à de Roma; porém, o Papa Vítor responde ao Bispo de Éfeso e trata de separá-lo da comunhão. Por que Polícrates dá conta ao Papa deste Concílio? Com que direito o Papa Vítor responde ao Bispo de Éfeso? Porque um reconhecia o Primado e o outro, como Pastor dos Pastores, tinha que velar sobre a disciplina geral da Igreja. Disputam os africanos, e a Sé Romana impõe silêncio aos Bispos reunidos em Cartago, e lhes intima a que obedeçam a sua voz. O Patriarca de Alexandria é acusado pelos fiéis de haver proferido uma doutrina que não era conforme à da Igreja, e o Papa São Dionísio faz que aquele venerável Patriarca compareça diante de seu tribunal e responda por sua fé. A Igreja universal se reúne no século IV para fazer frente a uma heresia, cujo veneno havia infectado a grande número de seus Pastores; São Silvestre, sucessor de Pedro, não pôde assistir a esta assembleia, mas se faz representar nela por um santo Bispo, honra e glória de nossa pátria, cuja voz se deixou ouvir naquele sagrado recinto com a mesma entonação com que o Apóstolo se dirigiu a seus companheiros no Cenáculo; não se considerou suficiente que Roma fosse ali tão dignamente representada, e por isso enviaram todas as atas do Concílio ao Papa para que fossem por ele confirmadas. Macedônio, Nestório, Eutiques, Pelágio, os Iconoclastas e demais hereges que nos oito primeiros séculos da Igreja levantaram seu corrompido eco, todos publicaram sua heresia no Oriente, e todos são condenados em Concílios reunidos nesta parte do mundo; porém não são tidos por válidos nem ratificadas estas condenações, se aquelas assembleias não são convocadas, presididas ou confirmadas pelo Bispo de Roma. E mais: a quase todos esses Concílios enviou a Sé apostólica uma Epístola para que não se decidisse outra fé senão aquela que ali estava prescrita, e os Padres, ao ouvi-la, todos a uma só voz exclamavam: «Pedro falou pela boca de Leão, esta é a fé da Igreja. Todos a cremos assim. Pedro falou pela boca de Agatão, firmemos esta fé». Finalmente, se em um tempo a Sé imperial foi trasladada a Bizâncio e os Bispos de Constantinopla pretendem um lugar que não lhes pertence, a Sé de Pedro resiste, e quando chegam por sua ousadia a reclamar sua independência, a Igreja universal os considera cismáticos.

Que outra coisa é o Primado de Pedro, quando vemos o sem-número de apelações que os Bispos de todos os países dirigem sempre a Roma? Santo Atanásio, acusado falsamente pelos arianos, apela ao Romano Pontífice; São João Crisóstomo, odiado por uma corte corrompida, é acusado de alguns erros, e é condenado por uma facção comandada pela Imperatriz Eudoxia. Que faz em meio à sua aflição? Recusa a ordem que um conciliábulo havia dado contra ele, e recorre em defesa de sua reputação ao único tribunal isento de paixões. E houve algum Bispo, algum fiel na Igreja que tenha ido apelar a outro tribunal depois de haver sentenciado o Bispo de Roma? Nenhum. Assim assegurava Santo Agostinho ao inimigo da Graça: «Roma respondeu, a causa está encerrada. Oxalá se o erro também estivesse!». Só aos protestantes e jansenistas lhes ocorreu apelar ao Concílio futuro, como se a voz que dissesse esta Assembleia sem seu chefe legítimo como cabeça fosse a voz da Igreja constituída por Jesus Cristo.

Porém, para que ocupar-nos com uma coisa que o bom sentido reclama, e de cuja verdade nos dão um testemunho com sua conduta os próprios hereges que a combatem? Por que todos dirigem seus tiros a Roma? Porque reconhecem a superioridade, porque instintivo é do inimigo, que quer dar morte a seu adversário, dirigir-lhe o golpe à cabeça, que estando ferida, facilmente se consegue a vitória. E conseguiram? Não. O sucessor de Pedro vive em sua cátedra e viverá. Duas vezes falou Pio IX em meio deste século de ilustração e progresso, e a Igreja reconheceu nele a autoridade primacial: falou ex cathedra definindo a Concepção Imaculada de Maria, e os fiéis e a Igreja católica receberam com júbilo e alegria esta decisão; indicou o desejo de falar ao lado dos Bispos da cristandade, e sua voz é obedecida por anciãos veneráveis, e da Ásia e da Europa, da África e do Novo Mundo, acodem pressurosos, porque a voz de Pio IX é a voz de Pedro, é a voz de Cristo, de quem aquele é Vigário e legítimo representante.

Consignados estes fatos tão claros e terminantes, pouco importa que a incredulidade ímpia alce sua voz contra o Primado de Pedro e seus sucessores: em vão clamará o cego protestantismo contra a instituição divina do Pontificado; nada deve nos fazer vacilar diante do grito sedicioso de todos os inimigos declarados e encobertos deste supremo poder. Contra todos se levanta a tradição unânime de dezenove séculos, a história desmente seus ridículos assertos, e até a razão condena os delírios e desatinos de seus vãos sofismas. Porém, mesmo se carecêssemos de todas essas provas, nos basta e sobra a solene promessa feita por Jesus Cristo a São Pedro, e nele a todos os seus sucessores; promessa que não deixou de cumprir-se um só dia, e que acusa constantemente a debilidade e impotência dos inimigos do Papado, pedra angular e baluarte do edifício cristão. – Está dito.

Padre Mariano del Toro y Pacheco

Madrid, 26 de junho de 1863


* * *

[1] Lib. Do Sacerdócio.
[2] Sermão sobre a unidade.
[3] Lib. Do Sacerdócio.
O Romano Pontífice é o Vigário de Jesus Cristo Reviewed by Editor on segunda-feira, abril 01, 2013 Rating: 5
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