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A cúria de Francisco, paraíso das multinacionais


Pieter Bruegel – O país da Cocanha (1567).

Por Sandro Magister
Tradução: Carlos Wolkartt – Renitencia.com

A Igreja dos sonhos do papa Francisco deve ser “pobre e para os pobres”. Enquanto isso, no entanto, o Vaticano está se tornando o País da Cocanha das mais valiosas e prestigiadas fábricas de sistemas organizacionais e financeiros do mundo.

A última a entrar na lista é a lendária McKinsey & Company, com o encargo de apresentar “um plano integrado para tornar a organização dos meios de comunicação da Santa Sé mais funcional, eficiente e moderno”. O suficiente para semear o pânico entre os especialistas no Vaticano – que nos últimos tempos não diminuíram, mas aumentaram, numa crescente confusão.

Ao padre Federico Lombardi, diretor da sala de imprensa e porta-voz oficial, juntou-se um “senior communications adviser” [assessor-sênior de comunicação] na pessoa do jornalista norte-americano Greg Burke, membro da Opus Dei, com um escritório na secretaria de Estado.

Para não falar dos dois assessores de imprensa que o presidente do Instituto para as Obras de Religião (IOR), Ernst von Freyberg, trouxe a Roma na última primavera de sua Alemanha: Max Hohenberg e Markus Wieser, ambos da Communications & Network Consulting.

Em seguida temos a Rádio Vaticana, dirigida pelo mesmo Lombardi, com 30 milhões de dólares de passivo anual e com tantos jornalistas quanto eram necessários no passado – quando se transmitia em ondas curtas nas línguas e nas regiões mais remotas do globo – mas agora em demasia.

Há também o L'Osservatore Romano, outro abismo de custos com as poucas mil cópias diárias de sua edição principal.

Temos ainda o Centro Televisivo do Vaticano, que é bem recebido graças à exclusiva mundial de imagens do papa, mas que tem de enfrentar custos proibitivos com a Sony e outras grandes empresas para a modernização da tecnologia.

Sem falar do pontifício conselho para as comunicações sociais, um aparelho burocrático que deveria ter feito o trabalho agora confiado à McKinsey, mas que, evidentemente, não foi capaz de realizar.

Nesta desordem, ficou claro há algum tempo que o papa Francisco prefere atuar segundo a sua própria vontade. Das três entrevistas que causaram mais alvoroço, duas foram concedidas aos jesuítas de “La Civiltà Cattolica” e uma ao ultrassecularista fundador de “La Repubblica”, sem que padre Lombardi, Greg Burke, ou qualquer outro precisasse tomar alguma atitude.

Outro grande nome recrutado pelo Vaticano é o Promontory Financial Group, com sede em Washington. Desde o mês de maio, uma dúzia de seus analistas instalou-se nas dependências do IOR com o objetivo de peneirar, uma por uma, as contas do instituto em busca de operações ilegais. Atuam do mesmo modo com as contas da APSA, a Administração do Patrimônio da Sé Apostólica.

Não só isso. Dirigentes de renome do Promontory já fazem parte da cúpula permanente do IOR. Um ex-funcionário do Promontory, Rodolfo Marranci, é agora o novo diretor-geral do “banco” do Vaticano. E entre os novos consultores seniores do IOR temos Elizabeth McCaul e Raffaele Cosimo, que no Promontory foram, respectivamente, os chefes da sede de Nova York e das sucursais europeias. Do outro lado do Atlântico vem também Antonio Montaresi, chamado para ser diretor de riscos, uma função que antes não existia no IOR.

Uma similar multiplicação de funções e funcionários verifica-se na Autoridade de Informação Financeira, criada no fim de 2010 por Bento XVI, hoje dirigida pelo suíço René Brülhart, uma poderosa estrela internacional nesta matéria, que em breve estará duplicando sua equipe.

Os balanços do IOR estão sendo certificados pela Ernst & Young, a quem o Vaticano também confiou a verificação e a modernização das atividades econômicas e da gestão da governadoria do pequeno Estado.

E outra famosa multinacional, KPMG, foi convidada para alinhar aos padrões internacionais a contabilidade de todos os institutos e escritórios sediados na Cidade do Vaticano.

A despeito da decantada transparência, não foi dada nenhuma informação sobre os custos destes recursos à contratação externa, custo que se presume ingente, em particular aqueles a cargo do IOR.

Como se tudo isso não bastasse, o “banco” do Vaticano teve que cobrir com 3,6 milhões de euros uma parte da dívida de 28,3 milhões – calculada pela Ernst & Young – herdada por conta da jornada mundial da juventude no Rio de Janeiro.

E com uma dezena de milhões de euros teve que preencher metade do furo deixado na diocese de Terni pelo seu antigo bispo Vincenzo Paglia, atual presidente do pontifício conselho para a família.
A cúria de Francisco, paraíso das multinacionais Reviewed by Renitência on sábado, janeiro 18, 2014 Rating: 5
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