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Diário do Vaticano: os novos cardeais que Francisco tem em mente



Por Sandro Magister, 03 de janeiro de 2014
Tradução: Carlos Wolkartt – Renitencia.com

Cidade do Vaticano, 03 de janeiro de 2014 – A notícia oficial é que em 22 de fevereiro o papa Francisco criará os primeiros cardeais de seu pontificado. Isto significa que pelo menos um mês antes desta data ele tornará pública a lista com os nomes dos eclesiásticos que considera dignos de receber a púrpura.

Criar novos cardeais é um ato pessoalíssimo do papa, com o qual pode, entre outras coisas, condicionar a escolha de seu sucessor.

É também por isso que há muita curiosidade sobre quais serão as escolhas do papa Francisco.

No passado, era possível fazer certas previsões com uma pequena possibilidade de adivinhar pelo menos uma boa parte dos novos purpurados. Bastava identificar os titulares dos cargos eclesiásticos de consolidada “tradição cardinalícia” – tanto na cúria como no governo de determinadas dioceses – que ainda não haviam recebido a púrpura, e a aposta era certeira.

Mas com o papa Francisco, que fez da surpresa uma das características de seu governo, as previsões são muito mais incertas.

Comecemos com os números.

Até dia 22 de fevereiro os cardeais eleitores, isto é, com menos de 80 anos, serão 106. As púrpuras disponíveis serão então 14, considerando que Francisco respeite a norma introduzida por Paulo VI e confirmada por seus sucessores, que fixa em 120 o número máximo de cardeais votantes.

No entanto, outro cardeal, Dionigi Tettamanzi, completará 80 anos em 14 de março; portanto, é possível que os novos cardeais sejam 15, visto que neste caso o limite seria ultrapassado em uma só unidade e por somente vinte dias.

Além de Tettamanzi, outros 32 purpurados completarão 80 anos até o fim de abril de 2017. Isto significa que o papa Francisco, nos primeiros quatro anos de seu pontificado, poderá criar um total de pelo menos 47 novos cardeais, mais de um terço do colégio de eleitores do Bispo de Roma.

Vejamos agora os nomes.

Entre os 14 ou 15 novos cardeais, é difícil pensar que os curiais serão mais de 4 ou 5. Em primeira linha estão, obviamente, os arcebispos Pietro Parolin, Beniamino Stella e Lorenzo Baldisseri, os três diplomatas que o papa Francisco promoveu respectivamente aos cargos de secretário de Estado, prefeito da congregação para o clero e secretário-geral do sínodo dos bispos.

Baldisseri [ex-núncio apostólico no Brasil] não ocupa um cargo de per si cardinalício, mas já é considerado “cardeal pela metade” desde o momento em que o recém-eleito papa pôs sobre sua cabeça seu próprio barrete cardinalício na Capela Sistina, onde se encontrava na qualidade de secretário do conclave, entre os aplausos dos purpurados eleitores.

Ainda em relação à cúria, a púrpura poderia chegar também ao prefeito da congregação para a doutrina da fé, o alemão Gerhard L. Müller, ao passo que parece ser mais incerta a púrpura ao dominicano francês Jean-Louis Bruguès que, embora ocupe o cargo tradicionalmente cardinalício de arquivista e bibliotecário da Santa Igreja Romana, poderia ficar de fora em virtude das divergências que teve quando era secretário da congregação para a educação católica com o então cardeal Jorge Mario Bergoglio sobre a nomeação do reitor da Universidade Católica de Buenos Aires.

Estabelecidas assim as possíveis nomeações curiais, restariam ainda 10 ou 11 barretes a serem atribuídos a outros tantos pastores de Igrejas locais.

O capítulo italiano é o mais delicado. Tendo em conta que na cúria já existem três italianos na expectativa da púrpura, parece difícil que o papa acrescente muitos outros.

Segundo a prática mantida após o Tratado de Latrão, de 1929, são reservadas à Itália, além da do cardeal vigário de Roma, oito cátedras com “direito de púrpura”, isto é, em ordem de grandeza por número de fiéis: Milão, Turim, Nápoles, Palermo, Bolonha, Florença, Gênova e Veneza. Atualmente, só as cátedras de Turim e Veneza não são ocupadas por cardeais.

Mas com o papa Francisco poderia acontecer que a promoção cardinalícia permaneça só para a diocese mais populosa, ao passo que a outra ficaria de fora. O que significa que no próximo consistório a púrpura poderia chegar a Turim, onde está Cesare Nosiglia – pupilo do cardeal Camillo Ruini – mas não a Veneza, onde o patriarca é Francesco Moraglia, expoente dessa Igreja lígure dos cardeais Mauro Piacenza e Angelo Bagnasco que o papa Francisco parece querer castigar, tendo em vista a expulsão de ambos das congregações do clero e dos bispos, respectivamente.

É preciso examinar se ainda na Itália – fora dela será mais fácil que aconteça – a púrpura poderia chegar também a pastores de dioceses que não têm uma tradição neste sentido, mas que aos olhos do papa são merecedores dela. Neste caso o promovido poderia ser o arcebispo de Perugia, Gualtiero Bassetti, vice-presidente da conferência episcopal italiana e muito estimado pelo papa, que o fez membro da congregação para os bispos precisamente no lugar do presidente da CEI [conferência episcopal italiana], cardeal Bagnasco. Se assim for, a púrpura retornará a Perugia pela primeira vez desde 1853, quando foi condecorado com ela o arcebispo Gioacchino Pecci, futuro papa Leão XIII. (Dois ex-arcebispos de Perugia que depois receberam a púrpura foram também o falecido Pietro Parente e Ennio Antonelli, ainda vivo).

Determinada a frugalidade nas nomeações de purpurados curiais e italianos, papa Francisco poderia ser parcimonioso também com as nomeações na Europa. No Velho Continente provavelmente receberá o barrete o arcebispo de Westminster, Vincent Nichols (que no passado caiu sob a observação do Santo Ofício pelas “missas gays” celebradas em sua diocese, mas que foi recentemente promovido como membro da congregação para os bispos), enquanto será curioso ver o mesmo acontecer ao arcebispo de Malinas-Bruxelas, o “conservador” André-Joseph Léonard, sucessor na cátedra primacial belga do cardeal “progressista” Godfried Danneels, um dos grandes eleitores de Bergoglio no conclave.

Na Europa oriental, espera a púrpura o maior hierarca da populosa Igreja Greco-católica da Ucrânia, o arcebispo maior Sviatoslav Shevchuk, que é bem conhecido do papa em razão de ter sido eparca em Buenos Aires.

Com a América Latina é fácil imaginar que o papa Bergoglio será mais generoso. Ali estão à espera da púrpura, sés de primeira grandeza como a sua Buenos Aires com o arcebispo Mario Aurelio Poli, Santiago do Chile com o salesiano de origem vicentina Ricardo Ezzati Andrello e Rio de Janeiro com o cisterciense Orani João Tempesta. Mas o Brasil poderia receber uma segunda púrpura, uma vez que atualmente os cardeais eleitores do país católico mais populoso do mundo são quatro e se tornarão três em 2014, enquanto os estadunidenses são 11 e os italianos 26 (embora cinco destes atinjam os 80 anos nos próximos 12 meses).

Quem sabe se com o primeiro papa latino-americano também o Paraguai poderá ter o seu primeiro cardeal da história. Sem contar que o atual presidente do conselho episcopal da América Latina – o arcebispo mexicano Carlos Aguiar Retes, de Tlalnepantla – não é cardeal e com o papa Francisco poderia tonar-se um purpurado.

Na América do Norte, os Estados Unidos poderiam permanecer com suas atuais 11 púrpuras, enquanto que no Canadá é preciso ver se o sucessor de Marc Ouellet em Quebec será nomeado cardeal.

Seguramente, mais atenção será dada aos continentes africano e asiático. Na Ásia, a dinâmica Igreja da Coréia não possui atualmente nenhum cardeal eleitor. O mesmo acontece com o Japão, para onde Bergoglio queria ir em missão quando era um jovem jesuíta.

É preciso ver também se e como o papa vai premiar as martirizadas Igrejas do Oriente Médio. E se nomeará um novo cardeal na Oceania ou se deixará que o único purpurado desse continente seja o conservador arcebispo de Sidney, George Pell.

Mas sobre tudo isso é difícil fazer previsões, porque as surpresas com o papa Francisco são sempre aguardadas, com exceção da possibilidade de uma mulher cardeal, que ele categoricamente excluiu em uma recente entrevista ao “La Stampa”.

Portanto, só saberemos no último momento se Bergoglio concederá também uma ou duas púrpuras honoríficas a eclesiásticos com mais de 80 anos, como o fez Bento XVI e, antes dele, João Paulo II a partir do seu segundo consistório em 1983. Ou se, pelo contrário, Francisco retornará à prática observada por Paulo VI que, depois de haver fixado o limite de 80 anos com o motu proprio Ingravescentem Aetatem de 21 de novembro de 1970, se absteve de criar cardeais com idade superior nos seus sucessivos consistórios de 1973, 1976 e 1977.
Diário do Vaticano: os novos cardeais que Francisco tem em mente Reviewed by Renitência on terça-feira, janeiro 07, 2014 Rating: 5
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