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O remorso de Mikhail Kalashnikov



Vatican Insider | Roma, 13 de janeiro de 2014
Tradução: Carlos Wolkartt – Renitencia.com

Em toda sua vida nunca havia sido tocado pelo remorso, mas alguns meses antes de sua morte, Mikhail Kalashnikov, pai do lendário fuzil de assalto soviético AK-47 (mais conhecido pelo nome do seu artífice), foi aguilhoado por escrúpulos de consciência pelo uso que foi feito de sua invenção. Isso está comprovado por uma carta que escreveu ao patriarca da Igreja ortodoxa russa Kirill, em abril de 2013.

«Minha dor espiritual é insuportável. Faço-me sempre a mesma pergunta, para a qual não consigo encontrar resposta: se o meu fuzil tirou a vida de tantas pessoas, isso significa que eu, Mikhail Kalashnikov, 93 anos, filho de uma camponesa, cristão ortodoxo, sou culpado por essas mortes, ainda que fossem inimigos?», se pergunta na missiva escrita à mão e agora publicada pelo Izvestia, jornal próximo ao Kremlin. Imediata e absolutória foi, no entanto, a resposta da Igreja ortodoxa russa: «A Igreja tem uma posição muito clara: se uma arma é usada para defender a pátria, a Igreja apoia tanto os seus artífices como os militares que a utilizam. Ele inventou este fuzil para a defesa de seu país, não para que os terroristas pudessem utilizá-lo na Arábia Saudita», explicou o diácono Aleksandr Volkov, porta-voz do Patriarca, observando que Kirill havia respondido à carta neste sentido, definindo Kalashnikov como «exemplo de patriotismo».

Herói da Rússia e, antes, duas vezes herói do trabalho socialista na URSS, Kalashnikov tornou-se um ícone do país, juntamente com sua arma, a mais vendida e popular do mundo, utilizada pelos exércitos de 55 países, bem como por inúmeras formações de guerrilheiros e terroristas. «Não é minha culpa se hoje essas armas são usadas onde não se deveria usá-las. A culpa é dos políticos, não dos fabricantes. Eu criei armas para a defesa dos confins da pátria», justificava Kalashnikov, que havia criado o AK-47 no pós-guerra, depois da experiência da Segunda Guerra Mundial contra os invasores nazifascistas.

No fim de sua vida, ele, educado no ateísmo nos tempos soviéticos, abraçou aos 91 anos os «sagrados mistérios de Cristo», ajudado «por Deus e pelos amigos», como confessa na carta. Foi batizado e fez a comunhão. Renunciou à construção de um museu em sua honra em Izhevsk a favor de uma igreja dedicada a São Miguel, plantando um cedro siberiano trazido do vilarejo natal em Altai: igreja e cedro, dois símbolos «do bem e da vida».

Mas, como escreve na carta ao patriarca, «o bem e o mal coexistem, lutam um contra o outro e – o que é mais horrível – se reconciliam reciprocamente na alma das pessoas: esta é a conclusão que tirei no fim da minha vida sobre a terra». A eterna convivência da luz e das trevas não o impediu, no entanto, de ter uma crise de consciência antes de morrer, no último dia 23 de dezembro.
O remorso de Mikhail Kalashnikov Reviewed by Renitência on terça-feira, janeiro 14, 2014 Rating: 5
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