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Telepapa

Tradução: Carlos Wolkartt – Renitencia.com

A exposição mediática do Papa é um fenômeno que pode nos parecer normal, e que de fato o é, nesta fase da História; porém é um fenômeno tão aparatoso que, inevitavelmente, afeta a vida dos católicos, se não no substantivo de sua fé, ao menos na forma de vivê-la. Durante séculos, um católico podia morrer mui tranquilamente sem saber sequer quem era o Papa de Roma, ou sabendo só de forma mui brumosa, ignorando se era gordo ou magro, alto ou baixo, taciturno ou prolixo, finíssimo teólogo ou rústico pastor. Durante séculos, a um católico bastava saber que em Roma havia um homem que era o Vigário de Cristo na Terra, e que esse homem, cuja sucessão estava assegurada, custodiava o depósito da fé que ele professava, herdada de seus predecessores. Durante séculos, um católico vivia sua fé na oração e na frequência dos Sacramentos, e os únicos ensinamentos que recebia eram os que o Cura de sua aldeia ministrava nos púlpitos e os que lhe transmitiam seus pais, no aconchego de sua casa. Assim era desde a fundação da Igreja até a poucos séculos atrás; e aquela foi a idade de ouro da Cristandade.

Antes de alcançar esta fase mediática da História, houve outra fase intermediária, na que a difusão da impressão em papel permitiu a um católico curioso conhecer os pronunciamentos dos Papas em questões de fé e moral, através de suas encíclicas; e também, quiçá, as dificuldades que o papado atravessava, em meio ao concerto político internacional. Então, um católico conhecia a imagem [foto] do Papa graças às impressões; e se era leitor ávido de jornais e revistas, podia ter uma ideia superficial das linhas mestras de seu pontificado. Porém, uma imensa maioria de católicos seguia ignorante de tais particularidades, e seguia vivendo sua fé ao modo tradicional: em comunhão com seus conterrâneos e atendendo os ensinamentos do Cura de sua aldeia, que talvez fora um santo ou talvez um homem de moral relaxada e até dissoluta – questão que ao católico de fé era insignificante, pois lhe bastava saber que, santo ou libertino, esse Cura, enquanto rezava a missa, era outro Cristo.

Porém chegou esta fase mediática da História, e tudo mudou. O Papa, de repente, converteu-se em uma figura onipresente, e o católico passou a conhecer intimidades sobre o Papa: começou a saber se o Papa padecia de gota ou calvície; começou a saber se gostava de futebol ou xadrez; começou a saber se era austero ou magnificente no vestir; se calçava sapatos de marroquim ou cordovão; se gostava de experimentar o chapéu de Mariachi ou o Tricórnio que lhe presenteavam os fiéis que recebia em audiência. E disseram a esse católico que, conhecendo tais intimidades, poderia amar mais genuinamente o Papa, que deste modo se tornaria mais “humano”, mais “próximo” e “acessível”. Afirmação por completo grotesca, pois o Papa não tem outra missão na Terra que ser Vigário de Cristo; e, para aproximar-se do Papa, isto é, para aproximar-se de Cristo, para fazê-Lo mais “humano”, “próximo” e “acessível”, o mesmo Cristo já nos deixou a receita: “Porque tive fome, e destes-me de comer; tive sede, e destes-me de beber; era estrangeiro, e hospedastes-me”, etc. (Mateus XXV, 35). Não é conhecendo as intimidades do Papa que o católico se aproxima de Cristo, mas padecendo com os “pequeninos” nos quais Cristo se reproduz.

Cabe perguntar se, pelo contrário, essa onipresença mediática do Papa não contribui para que a fé do católico se distraia ou esfrie. Cabe perguntar se o seguimento mediático do Papa, não só em seus pronunciamentos sobre questões que afetam a fé e a moral, senão nas mais diversas questões quotidianas, não gera um tipo de “papolatria”, de todo alheia à tradição católica e que pode ser comparada à fama que provocam os cantores, futebolistas e atores. Cabe perguntar também se essa exposição mediática tão abusiva do Papa não gera uma distorção na transmissão da fé, pois se Cristo houvesse desejado que a fé fosse transmitida “pelo grande”, haveria inventado facilmente o megafone, a radiofonia, as antenas, a linha ADSL, a TDT e as redes sociais da Internet; e, havendo podido fazê-lo, preferiu que a fé fosse transmitida no calor do trato humano, através das pequenas comunidades que foram ampliando-se mediante o testemunho pessoal e intransferível, coração a coração de seus seguidores.
Telepapa Reviewed by Renitência on domingo, abril 28, 2013 Rating: 5
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