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Um ano de pontificado, um ano de confusão – Parte II



Por Alejandro Sosa Laprida
Tradução: Carlos Wolkartt – Renitência.com

Continuação da primeira parte.

4. A ideologia homossexual

Durante uma coletiva de imprensa dada em 29 de julho de 2013 no voo entre Rio de Janeiro e Roma, de regresso das JMJ, Francisco pronunciou a seguinte frase: “Se uma pessoa é gay, busca Deus e tem boa vontade, quem sou eu para julgá-la?”. Frase extremamente ambígua e perturbadora, já que o termo “gay” não designa genericamente aos homossexuais, mas especialmente àqueles que reivindicam publicamente a “cultura” e o estilo de vida da impureza contranatural. Por que utilizou uma palavra que gera confusão, totalmente estranha ao vocabulário católico e tomada justamente do jargão do lobby gay, endossando deste modo, indiretamente, sua linguagem subversiva e manipuladora? Por que não se apressou a acrescentar, para evitar mal-entendidos, que embora não se deve julgar moralmente a pessoa que padece nesta tendência, a passagem ao ato, no entanto, constitui um comportamento gravemente desordenado no plano moral? Surpreendentemente, não o fez, e naturalmente, no dia seguinte, a esmagadora maioria da imprensa mundial intitulou o artigo dedicado à atípica coletiva de imprensa pontifical retomando textualmente a pergunta formulada por Francisco (“Quem sou eu para julgar?”). Poderá falar-se de imperícia vinda de alguém que domina com perfeição a arte da comunicação mediática? É difícil de acreditar... E ainda se assim fosse, o contexto exigia eliminar todo risco de ambiguidade, indicando imediatamente os detalhes do caso. Mas os detalhes jamais chegaram. Nem durante a coletiva de imprensa, nem depois. Nem de sua boca, nem da do serviço de imprensa do Vaticano. Enquanto isso, a imprensa mundial se regozijava impudicamente com a infeliz saída bergogliana...

Na extensa entrevista concedida por Francisco às revistas culturais jesuítas nos dias 19, 23 e 29 de agosto e publicada no L'Osservatore Romano em 21 de setembro, poderia ter sido suposto que Francisco não deixaria passar a oportunidade para esclarecer esta espinhosa questão, dando fim às polêmicas que suas desafortunadas declarações haviam suscitado e dissipando drasticamente a confusão e a inquietude generalizada que haviam provocado. Vejamos se aproveitou a ocasião para fazê-lo: “Em Buenos Aires, recebi cartas de pessoas homossexuais que estavam ‘socialmente feridas’ porque me diziam que a Igreja sempre os tinha rejeitado. Mas essa não é a intenção da Igreja. No avião de regresso do Rio de Janeiro, disse: ‘Se um gay busca Deus, quem sou eu para julgá-lo’. Ao dizer isso, disse o que indica o Catecismo [da Igreja Católica]. A religião tem o direito de expressar suas próprias opiniões a serviço das pessoas, mas Deus na criação nos fez livres: não é possível uma ingerência espiritual na vida pessoal. Uma vez uma pessoa, para me provocar, me perguntou se eu aprovava a homossexualidade. Eu então lhe respondi com outra pergunta: ‘Diga-me, Deus, quando olha para uma pessoa homossexual, aprova a sua existência com afeto ou a rechaça e a condena?’. Sempre é preciso ter em conta a pessoa. E aqui entramos no mistério do ser humano. Nesta vida, Deus acompanha as pessoas e é nosso dever acompanhá-las a partir de sua condição. É preciso acompanhar com misericórdia. Quando isto acontece, o Espírito Santo inspira ao sacerdote a palavra oportuna”. Há muito que dizer sobre estas declarações. Muito, para utilizar um eufemismo, exceto que se destaquem por sua claridade. Por uma questão de concisão, só farei algumas observações:

1. Contrariamente ao que afirma, seus ditos brilham por sua ausência no Catecismo. Neste se encontra claramente exposta a doutrina da Igreja (§ 2357 a 2359), precisamente o que Francisco não fez na entrevista, durante a qual cultivou a ambiguidade, usou uma linguagem demagógica e acrescentou ainda mais confusão.

2. É inconcebível escutá-lo dizer que “a religião tem o direito de expressar suas próprias opiniões a serviço das pessoas”. Perdão: A religião? Qual? Ou acaso trata-se das religiões em geral, isto é, das “grandes tradições religiosas, que desempenham um papel fecundo de fermento da vida social e de animação da democracia”? Linguagem surpreendente na boca de quem se encontra sentado no trono de São Pedro... Por que não dizer simplesmente “a Igreja”? E, sobretudo, corresponde proclamar de forma inequívoca que a Igreja não expressa de nenhuma maneira “sua opinião”; Ela instrui as nações, em conformidade com a ordem que recebera de seu Divino Mestre: “Ide e ensinai a todas as nações, batizando-as em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, ensinando-as a observar tudo o que vos prescrevi” (Mt. 28, 19-20).

3. E logo a seguir acrescenta: “mas Deus na criação nos fez livres: não é possível uma ingerência espiritual na vida pessoal”. Ambiguidade sibilina, característica detestável vinda de quem recebeu a missão de “ensinar às nações”, mas que já é clássica nos lábios de Francisco... Porque se o homem pode, em virtude de seu livre arbítrio, negar-se a obedecer à Igreja, não é, no entanto, moralmente livre para fazê-lo: a Igreja recebeu de Jesus Cristo o poder de obrigar as consciências de seus fiéis (cf. Mt. 18, 15-19). Pretender que “não é possível uma ingerência espiritual na vida pessoal” equivale a divinizar a consciência individual e a fazer dela um absoluto: estamos diante do princípio fundamental da religião humanista e maçônica de 1789: “Ninguém deve ser inquietado por suas opiniões, inclusive religiosas” (Declaração dos direitos do homem e do cidadão, artigo X). Esta liberdade de consciência falaz e revolucionária foi condenada pelo magistério da Igreja: Gregório XVI afirmou que pretender “garantir a cada um a liberdade de consciência” não só é absurdo como também “um delírio” (Mirari Vos, 1832).

4. Finalmente, o fato de responder a uma pergunta (aprovava a homossexualidade?) com outra pergunta – o que é, aliás, de um hermetismo pouco comum – é indigno daquele a quem foi confiada a tarefa de ensinar à universalidade dos fiéis. Resposta na qual se encontra novamente esta ambiguidade exasperante que o caracteriza, aqui ao não distinguir entre a condenação do pecado e a do pecador, e dando a entender que o fato de “aprovar a existência” (sic!) do pecador tornaria inútil a reprovação que seu ato pecaminoso exige. No entanto, Nosso Senhor nos ensinou a falar de outro modo: “Que vossa linguagem seja sim, sim; não, não; todo o resto provém do Maligno” (Mt. 5, 37).

Mas retornemos à nossa coletiva de imprensa aérea, depois da celebração das JMJ no Rio de Janeiro. Francisco acrescentou que essas pessoas “não devem ser discriminadas, mas integradas na sociedade”. Perdão, mas a que pessoas alude? Àquelas que sem pudor algum se proclamam “gay” ou às que, padecendo sem culpa de sua parte a mortificante inclinação contranatural, se esforçam meritoriamente por viver decentemente? Uma ambiguidade suplementar que naturalmente permanecerá sem esclarecimento do Vaticano, mas cuja interpretação “progressista” abandonada aos “meios de informação massiva” será a que se imporá massivamente no imaginário coletivo. Na realidade, há algo pior que a recorrente ambiguidade bergogliana presente nesta afirmação e que se manifesta nesse dilema não resolvido. Refiro-me a que suas palavras não só cultivam a ambiguidade, elemento suficiente para questioná-las, mas que são pura e simplesmente falsas. Elas se inscrevem no marco da ideologia igualitarista da luta “contra as discriminações” promovida pelos partidários do feminismo e do homossexualismo, genuína maquinaria de combate a serviço da legitimação de quanta aberração o partido do “progresso” se esmera em confeccionar, principalmente o infame “matrimônio” homossexual. E onde reside a falsidade? No fato de que, inclusive no segundo caso do dilema, é perfeitamente legítimo e razoável efetuar certas discriminações que, atendendo ao bem comum social, marginalizam essas pessoas em determinados contextos. E isso é, por exemplo, o que a Igreja sempre fez no tocante ao sacerdócio, à vida religiosa e à educação das crianças. Nem é preciso dizer que ditas discriminações são mais legítimas ainda quando se trata de pessoas que, além de padecer nesta tendência desordenada, levam uma vida homossexual ativa, ainda que de maneira discreta, e, a fortiori, se tiver que lidar com quem exibe pública e desavergonhadamente seus maus costumes, reivindicando orgulhosamente seus fantásticos direitos: refiro-me aos “gays”, para empregar o atípico vocabulário bergogliano, certamente inusitado na linguagem de um sucessor de São Pedro. Os indivíduos pertencentes a esta última categoria, a dos ideólogos da causa homossexual – por exemplo, os organizadores das Gay Pride Parades (Paradas do Orgulho Gay) e os militantes de associações subversivas do estilo da Act-Up – têm tanto menos direito a ser “integrados na sociedade” quanto que justamente deveriam ser excluídos dela sem contemplações; os acólitos da seita LGBT possuem tanto menos o direito a ver-se isentos de “toda forma de discriminação” quanto que deveriam precisamente ver-se privados de liberdade e apartados sem constrangimento da vida social por atentado contra o pudor e corrupção da juventude.

Retomando o fio da coletiva pontifical em pleno voo, assistimos atordoados à prossecução do estranho discurso de Francisco diante de um auditório cativado por sua desarmante espontaneidade e pelo tenor altamente mediático de suas palavras: “O problema não é ter essa tendência (...). O problema é o lobby dessas tendências (...). Esse é o principal problema”. Desafortunadamente, esta asseveração é perfeitamente gratuita e não resiste à menor análise: que o fato de possuir essa tendência constitua um grave problema de ordem psicológica e moral para a pessoa afetada, assim como um sério motivo de inquietude para seu ambiente, é algo indiscutível. E pretender que a homossexualidade não seja algo problemático, mas somente o fazer “lobbying”, é uma falácia notória que contribui para trivializar a homossexualidade e torná-la aceitável. Por último, é mister afirmar que, contrariamente ao que sustenta Francisco, nenhum lobby é intrinsecamente perverso. Efetivamente, dado que um lobby é “um grupo organizado para atingir determinados objetivos ou para defender determinados interesses” (Priberam), ele será bom na medida em que combata por causas justas e será mau quando o faça por causas injustas. Para dar um exemplo, as ações conduzidas pelos grupos feministas em favor do aborto são reprováveis, enquanto que as realizadas pelos grupos pró-vida em sua luta contra a legalização de dito crime são louváveis. Todas estas declarações de Francisco são particularmente agravadas pelo contexto internacional no qual se produzem, a saber, em meio a uma violenta batalha cultural entre partidários e opositores do “matrimônio” homossexual, que se estende como rastilho de pólvora em escala planetária. É difícil atribuí-las somente a eventuais imprecisões de linguagem, assim como tampouco parece possível negar a cumplicidade objetiva de suas palavras com os propósitos manifestos do lobby gay: a normalização da homossexualidade e a legitimação de suas insustentáveis reivindicações sociais. Essas declarações têm semeado confusão entre os católicos e favorecido objetivamente os inimigos de Deus, que lutam encarniçadamente para que se aceitem os supostos “direitos” dos homossexuais no interior da Igreja e na sociedade civil. Prova irrefutável disso é que a mais influente publicação da comunidade LGBT dos Estados Unidos, The Advocate, elegeu Francisco como a “Pessoa do ano de 2013”, desfazendo-se em louvores a ele por sua atitude de abertura e de tolerância para com os homossexuais [1].

Eis aqui, à guisa de ilustração, três casos que permitem tomar consciência da gravidade do contexto no qual se situam essas desafortunadas declarações. Elas foram produzidas apenas dois meses depois de o cardeal Angelo Bagnasco, presidente da Conferência Episcopal Italiana, celebrar em Gênova as exéquias de Don Gallo, famoso sacerdote comunista e anarquista, adepto ao aborto e defensor incondicional da causa homossexual, durante as quais fez um panegírico seu e autorizou que dois transexuais fizessem apologia à ideologia LGBT na leitura da “oração universal”, durante a qual agradeceram ao clérigo apóstata por tê-los ajudado a “sentir-se criaturas transgênicas (sic) desejadas e amadas por Deus”; momentos depois, o cardeal distribuiu a comunhão a esses dois transexuais, profanando assim as santas espécies eucarísticas, escandalizando gravemente os fiéis e semeando a confusão nas almas. Mais inquietante ainda: não houve nenhuma reação oficial do Vaticano reprovando os fatos. É importante ressaltar que Don Gallo exercia seu “ministério pastoral” com total impunidade, sem jamais haver sido importunado nem sancionado pela hierarquia eclesiástica. E cabe acrescentar que os funerais foram oficiais, celebrados com grande pompa, nada menos que pela figura mais destacada do episcopado italiano, com homilia ditirâmbica incluída.

Outro fato sintomático, selecionado entre muitos outros: a Pontifícia Universidade São Francisco Xavier de Bogotá, na Colômbia, fundada e dirigida por jesuítas, há doze anos organiza anualmente um “Ciclo Rosa Acadêmico”, que fomenta descaradamente o estilo de vida gay. Em 2013, pela primeira vez, ia ter lugar nas instalações da universidade, de 28 a 30 de agosto. Isso provocou uma importante reação de leigos escandalizados que, graças a uma ação digna de um autêntico “lobby” católico, forçara a universidade a buscar outro lugar para organizar seu imundo colóquio de degenerados. Não é preciso dizer que não foi registrada nenhuma sanção contra os organizadores do infame evento da parte das autoridades universitárias. Algo que não é necessário dizer, na era do culto ao “diálogo” com o erro e em tempos de exaltação do “pluralismo” ideológico... E esta impunidade dura já doze longos anos. Nenhuma sanção sequer da parte da Conferência Episcopal Colombiana. É desnecessário ressaltar o silêncio absoluto do Vaticano. É interessante destacar a reação do reitor da universidade, padre Joaquín Emilio Sánchez: ela foi imediata e sumamente edificante. Com efeito, em um áspero comunicado de imprensa dirigido à “comunidade educativa”, registrou sua indignação diante da “violação da legítima autonomia universitária”, declarando que “nenhuma discriminação seria tolerada”, e advertiu ameaçadoramente os seus adversários: “atualmente, tomamos as providências necessárias ante as autoridades competentes para que uma situação tão irregular e dolorosa como a que vivemos por ocasião do ‘Ciclo Rosa’ não se repita nunca mais”. Por outro lado, o padre Carlos Novoa, antigo reitor da universidade, professor titular de teologia moral e titular com doutorado em “ética sexual”, promotor descarado do aborto, sustentou que a medida “testemunha um retorno da Inquisição em um setor da Igreja católica e é a resultante de grupos obscurantistas e fanáticos”. Sua posição pública contrária ao ensinamento do magistério eclesial não lhe arrecadou nenhuma sanção da parte da hierarquia de seu país e menos ainda das autoridades da citada universidade “pontifícia”. Este sacerdote continua exercendo afanosamente seu “ministério pastoral” e dispensando com afinco seu “ensinamento universitário” a estudantes que, imaginando receber uma educação católica, são objeto de uma perversão sistemática de suas inteligências.

Terceiro e último exemplo: o da Universidade Católica de Córdoba, na Argentina, que também é dirigida por jesuítas. Em uma entrevista publicada em 12 de agosto de 2013, o padre Rafael Velasco, reitor desde 2005, grande especialista em “Direitos Humanos”, em meio a uma litania de sentenças heterodoxas, nos deu a honra de nos fazer participar de sua profunda visão teológica: “Se a Igreja quer ser um sinal do fato de que Deus está próximo de todos, o que deve fazer, antes de tudo, é não excluir ninguém. Deve encarar reformas muito importantes: os divorciados têm de ser admitidos à comunhão; os homossexuais, quando vivem de maneira estável com seus companheiros, também deveriam poder comungar. Dizemos que a mulher é importante, mas a excluímos do ministério sacerdotal. Esses são sinais que seriam mais compreensíveis”.

Esses três casos, tomados de uma interminável lista de situações similares, ilustram cabalmente o progresso contínuo, consentido e alentado da ideologia homossexual e da “ideologia de gênero” no interior da Igreja. E é justamente nesse contexto alarmante de avanço permanente e irrefreável das ideias LGBT, tanto na sociedade civil como no seio do clero, que se inscrevem essas palavras inauditas de Francisco em uma coletiva de imprensa internacional em pleno voo, à guisa de broche de ouro, de toque final das arquimediáticas JMJ do Rio de Janeiro: “Quem sou eu para julgar uma pessoa gay?”. Francamente, devo admitir que isto se assemelha a um pesadelo indescritível do qual desejaria despertar-me o quanto antes...

5. Francisco e a maçonaria

Em 1999, o cardeal Bergoglio foi eleito membro honorário do Rotary Club da cidade de Buenos Aires. Em 2005, recebeu o prêmio anual que o Rotay atribui ao “homem do ano”, o Laurel de Prata. Esta entidade, fundada em 1905 na cidade de Chicago, EUA, pelo maçom Paul Harris, é uma associação cujos vínculos com a franco-maçonaria são de conhecimento público: é um viveiro de maçons e o marco no qual se desenvolvem suas iniciativas de “caridade”. Uma porcentagem importante de rotarianos pertence às lojas, a tal ponto que o Rotary, junto com o Lions Club, é considerado o átrio do templo maçônico. Eis aqui o que dizia o bispo de Palência, Espanha, em uma declaração oficial: “O Rotary professa um laicismo absoluto, uma indiferença religiosa universal, e busca moralizar as pessoas e a sociedade por meio de uma doutrina radicalmente naturalista, racionalista e, inclusive, ateia” (Boletim eclesiástico do bispado de Palência, nº 77, 1/9/1928, p. 391). Esta condenação foi confirmada por uma declaração solene do arcebispo de Toledo, cardeal Segura y Sáenz, primaz da Espanha, em 23 de janeiro de 1929. Duas semanas mais tarde, a Sacra Congregação Consistorial proibiu a participação dos sacerdotes em reuniões rotarianas, em qualidade tanto de membros como de convidados: é o célebre “non expedire” de 4 de fevereiro de 1929. Esta proibição seria reiterada por um decreto do Santo Ofício de 20 de dezembro de 1950.

No dia da eleição pontifical do cardeal Bergoglio, em 13 de março de 2013, o grão-mestre da franco-maçonaria argentina, Ángel Jorge Clavero, rendeu tributo ao novo pontífice saudando-o calorosamente. A loja maçônica judaica B'nai B'rith fez o mesmo: “Estamos convencidos de que o novo papa Francisco continuará trabalhando com determinação para reforçar os laços e o diálogo entre a igreja católica e o judaísmo e continuará na luta contra todas as formas de antissemitismo”, declarou a loja francesa, enquanto que a argentina asseverou reconhecer em Francisco “um amigo dos judeus, um homem dedicado ao diálogo e comprometido com o encontro fraterno”, e garantem estar convencidos de que durante o seu pontificado “conservará o mesmo compromisso e poderá pôr em prática suas convicções no caminho do diálogo inter-religioso”. O diretor de assuntos inter-religiosos da B'nai B'rith, David Michaels, assistiu à cerimônia de investidura do novo papa, em 19 de março, e no dia seguinte participou da audiência concedida por Francisco aos líderes das diferentes religiões na Sala Clementina. Haviam se reunido dezesseis personalidades judaicas em representação de oito organizações judaicas internacionais, entre as quais se encontrava o rabino David Rosen, diretor do Comitê Judaico Americano (American Jewish Committee), que declarou, em uma entrevista concedida à agência Zenit, que desde o Concílio Vaticano II “houve uma transformação revolucionária no ensino da Igreja e no seu enfoque em relação aos judeus, ao judaísmo e a Israel”.

No dia seguinte à sua eleição, o Grande Oriente da Itália emitiu um comunicado no qual o grão-mestre Gustavo Raffi dizia que “com o Papa Francisco, nunca mais nada será como antes. Esta eleição foi uma aposta indiscutível da fraternidade por uma Igreja de diálogo, não contaminada pela lógica nem pelas tentações do poder temporal (...). Nossa esperança é a de que o pontificado de Francisco marque o regresso da Igreja-Palavra no lugar da Igreja-Instituição, e que ele promova o diálogo com o mundo contemporâneo (...) seguindo os princípios do Vaticano II (...). Tem a grande oportunidade de mostrar ao mundo o rosto de uma Igreja que deve recuperar o anúncio de uma nova humanidade, não o peso de uma instituição que defende seus privilégios”. Em 16 de março, em um novo artigo do Grande Oriente da Itália, desta vez anônimo, o leitor fica sabendo de que existem três visões diferentes nos membros desta obediência maçônica: a dos que são céticos quanto ao progressismo de Francisco, a dos que preferem guardar um cauto silêncio e julgá-lo mais tarde por seus atos e, finalmente, a dos que exibem a convicção de que será um papa “inovador e progressista, baseando-se no fato de que alguns Irmãos garantem haver contribuído indiretamente, no interior do Conclave, por intermédio de amigos fraternos, para a eleição de um homem capaz de regenerar a Igreja Católica e a sociedade humana em seu conjunto”. Esse ponto de vista é reforçado pelo fato de que o cardeal Bergoglio, durante o conclave de 2005, foi promovido pelo cardeal Carlo Maria Martini, cujo falecimento, em 31 de agosto de 2012, foi lembrado pelo Grande Oriente da Itália em um comunicado interno de 12 de setembro nos seguintes termos: “Agora que as celebrações retóricas e as condolências pomposas deram lugar ao silêncio e ao luto, o Grande Oriente da Itália saúda com afeto o Irmão Carlo Maria Martini, que partiu para o Oriente Eterno”. E em 28 de julho de 2013, por ocasião do decesso do cardeal Ersilio Tonini, maçom reconhecido, o grão-mestre Gustavo Raffi rendeu-lhe tributo dizendo que chora “pelo amigo, pelo homem do diálogo com os maçons, pelo mestre do Evangelho social. Hoje a humanidade é mais pobre, como o é igualmente a Igreja Católica”. Mas imediatamente depois se apressa a acrescentar que, a despeito dessa grande perda, “a Igreja do Papa Francisco é uma Igreja que promete ser respeitosa da alteridade, compartilhando a ideia de que o Estado laico favorece a paz e a coexistência das diferentes religiões”. A límpida homenagem tributada a Francisco pelo grão-mestre do Grande Oriente da Itália é um testemunho por demais inquietante em relação a seu pontificado. Como prova disso, e limitando-nos a tão somente um dos abundantes textos pontificais sobre a maçonaria, eis aqui o que dizia Leão XIII em sua encíclica Humanum Genus, de 20 de abril de 1884: “Nesta época, os partisans (guerrilheiros) do mal parecem estar se reunindo e combatendo com veemência unida, liderados ou auxiliados por aquela sociedade fortemente organizada e difundida, a sociedade dos franco-maçons. Não mais fazendo qualquer segredo de seus propósitos, eles estão agora abruptamente levantando-se contra o próprio Deus. Eles estão planejando a destruição da santa Igreja pública e abertamente, e isso com o propósito estabelecido de despojar completamente as nações da Cristandade, se isso fosse possível, das bênçãos obtidas para nós através de Jesus Cristo nosso Salvador”.

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[1] Nota da tradução

A revista trouxe, na capa de sua edição de dezembro de 2013, uma imagem de Francisco com o “NOH8” inscrito em seu rosto, resultado de uma montagem fotográfica. “NOH8” quer dizer, em virtude da pronúncia em língua inglesa, “no hate” (nenhum ódio), e é o lema de uma campanha (NOH8 Campaign) oficialmente lançada nos EUA em fevereiro de 2011. Em seu site, lemos:

“Em 04 de novembro de 2008, foi aprovada na Califórnia a Proposição 8, que altera a Constituição do Estado para proibir o casamento homossexual. A derrota provocou uma onda de iniciativa dentro da comunidade LGBT em nível popular, com muitas novas organizações políticas e protestos sendo formados em resposta. A campanha NOH8 é um protesto fotográfico silencioso criado pelo fotógrafo de celebridades Adam Bouska e pelo seu parceiro Jeff Parshley em resposta direta à aprovação da Proposição 8. As fotos apresentam indivíduos com fita adesiva sobre a boca, simbolizando vozes sendo silenciadas pela Proposição 8 e pelas legislações similares em todo o mundo, com “NOH8” pintado na face em sinal de protesto. Cinco anos desde a sua criação, a Campanha NOH8 fotografou cerca de 33 mil rostos e continua a crescer a um ritmo exponencial”.

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Continuação do texto:

Um ano de pontificado, um ano de confusão – Parte II Reviewed by Renitência on sexta-feira, março 28, 2014 Rating: 5
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