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A revolução do Papa Francisco



Tradução: Carlos Wolkartt – Renitencia.com

“Este é o Papa Francisco. Se a Igreja se tornar como ele a pensa e ficar do jeito que ele a quer, será uma mudança de época”. Eugenio Scalfari terminava assim a famosa entrevista concedida pelo Pontífice [1] e parece que acertou em cheio, porque este Papa está efetivamente realizando uma verdadeira revolução.

Essencialmente, não se trata de uma metamorfose nas ideias, que já foi realizada pelo Concílio e pelos papas que o transmitiram, pois neste campo Francisco não está dizendo nada de novo. A sua é uma revolução que se desenvolve sobretudo na práxis. Os princípios relativistas, a pedra angular da nova eclesiologia conciliar, são levados cada vez com mais força da teoria às suas consequências práticas e acabam por abrir uma cisão cada vez maior entre a doutrina e a vida dos católicos.

Nesta passagem cada vez mais rápida das ideias aos fatos, Francisco parece agir com arte consumada: um telefonema, uma palavra lançada em um determinado contexto e um silêncio observado em outro, uma entrevista, um questionário bem elaborado para interrogar “o povo de Deus” no atual contexto de descristianização para depois utilizar as respostas e delas tirar as previsíveis consequências: visto que a Igreja não está mais em sintonia com o povo cristão, mudanças são necessárias! Tudo isto, obviamente, com grande cobertura mediática. E eis que os últimos baluartes da própria lei natural são abalados em seus fundamentos.

Os inimigos da Igreja não perdem, é claro, a oportunidade de tirar proveito dessas aberturas. O Papa Francisco torna-se, assim, a pessoa do ano da revista gay americana The Advocate [2], e as suas frases são afixadas nas portas das clínicas abortivas para desencorajar as manifestações em favor da vida [3].

O novo medidor da moral passa a ser unicamente a consciência subjetiva [4]. Por um lado, continua-se a declarar a missão de conservar intacta a doutrina, mas, por outro, anula-se, na prática, os princípios, ao considerar as situações concretas que permitiriam encontrar soluções morais sob medida, de geometria variável, porque, definitivamente, de acordo com o novo ensinamento, basta que cada um aja segundo a sua consciência!

Um coquetel explosivo, que não é composto por atos ou documentos magistrais, e que está, por isso mesmo, fora das discussões teológicas sobre a assistência divina de que deveria gozar o Papa – o que o torna ainda mais letal.

Esta revolução profunda opera no pensamento comum e, sobretudo, na mentalidade dos católicos, e tem um alcance muito maior do que uma simples declaração doutrinal, também possuindo, de fato, a vantagem de paralisar a resistência no interior da Igreja, pois sempre se pode buscar a “boa interpretação” a fim de tudo justificar. Assim agem aqueles conservadores, imbuídos do espírito liberal, de que sempre se servem todas as revoluções para canalizar a legítima resistência no interior de um sistema.  

Um dos próximos passos neste percurso serão as canonizações de João XXIII, o Papa da histórica guinada do Concílio, e de João Paulo II, aquele que excomungou a Tradição em nome de uma nova concepção evolutiva da mesma.

Com esta cerimônia, é sem dúvida o próprio Concílio que se pretende canonizar, erigindo a pedra miliar de uma nova era de “progresso” para a Igreja, que, como disse o próprio papa, desafiando toda a realidade objetiva, “nunca esteve tão bem como hoje”! [5].

Outra meta neste percurso será o sínodo de outubro, sobre a família. O teólogo de referência do pontífice para este evento parece ser ninguém menos que o Cardeal Kasper, qualificado, desde os primeiros dias do pontificado, como “um ótimo teólogo” [6]. No seu recente relatório para o último consistório [7], considerado pelo pontífice “belíssimo e profundo” [8], Kasper faz, como verdadeiro acrobata, uma devastadora distinção entre a doutrina – ainda, em palavras, definida como imutável – e a práxis suscetível de adaptação às circunstâncias, abrindo, assim, o caminho para permitir a comunhão aos divorciados concubinos e arruinando os fundamentos da indissolubilidade do matrimônio [9].

O processo parece irreversível e, humanamente, com certeza o é. Mas a Igreja é divina e será magnífico ver (nesta vida ou na futura) como o Senhor, que parece adormecido, se erguerá da barca de Pedro para acalmar com uma só palavra a tempestade.

Nesta expectativa, o que temos a fazer é conservar a fé e transmiti-la. Para isso, devemos descartar da mente todo sentimento de desânimo diante dos males atuais. De nada serve lamentar-nos sobre as ruínas que nos cercam. Precisamos ser lúcidos, mas sobretudo conservar a fé na Igreja e fazer de tudo para sermos aqueles “homens de armas” de que falava Santa Joana d'Arc, por meio dos quais Deus dará a vitória [10].

Com certeza, o Senhor quer servir-se de cada um de nós para fazer a restauração da sua realeza na sociedade e na Igreja. Para isto, é preciso construir com paciência, antes de tudo em nós, o castelo interior, de que fala Santa Teresa de Ávila, através de uma vida de união com Deus sempre mais profunda, baseada na boa doutrina, na oração, nos exercícios espirituais inacianos, mas, sobretudo, com uma vida sacramental fundada sobre a verdadeira Missa católica e não sobre a neo-liturgia de espírito protestante.

É preciso, em seguida, reconstruir, em meio ao desastre geral, células de uma sociedade cristã fundada na família indissolúvel. Devemos também contribuir modestamente, mas com toda a nossa energia, para a instauração do Reinado social de Nosso Senhor por meio da fidelidade ao nosso dever de estado, que deve ser praticado catolicamente, sem nenhuma esquizofrenia espiritual ditada pelo liberalismo, que gostaria de cindir no homem a vida privada da vida pública.

É necessário reconstruir estruturas sociais inspiradas pela fé e fundadas sobre a doutrina imutável da Igreja: capelas, priorados, escolas verdadeiramente católicas, seminários... É necessário fazer reinar Nosso Senhor no ambiente em que vivemos, de maneira cada vez mais profunda e visível, pois, não o esqueçamos, somos compostos de alma e corpo, e é, portanto, importante que esta vontade de tudo sujeitar ao doce império de Cristo e da Imaculada se concretize externamente com um sinal visível, como um crucifixo, uma estátua do Sagrado Coração, uma medalha de Nossa Senhora, da mesma forma como fizeram os nossos antepassados, que plantaram cruzes sobre as mais altas montanas para assim manifestarem a sua vontade de submeter toda a criação a Nosso Senhor Jesus Cristo.

Nesta batalha, a Fraternidade São Pio X estará sempre na vanguarda, sem nenhum compromisso com os erros e o espírito do mundo, e cada qual poderá sempre contar com o auxílio de seus sacerdotes neste trabalho de reconstrução, fundamentado na fé naquele que disse: “Tenhais coragem, eu venci o mundo” [11].


* * *




[4] Ver a entrevista a Scalfari supracitada.

[5] Papa Francisco ao clero romano, 16 de setembro de 2013. http://goo.gl/CnVVoq.

[6] News.va, 17 de março de 2013. http://goo.gl/ZleinY.

[7] Relatório intitulado “O Evangelho da família”, com o qual o cardeal Walter Kasper iniciou, em 20 de fevereiro, os trabalhos do Consistório extraordinário sobre este tema.


[9] Ler a este respeito o artigo de Roberto de Mattei, O que Deus uniu, Il Foglio (tradução do IHU), 1 de março de 2014. http://goo.gl/v0yiMw.

[10] “Os homens de armas combaterão e Deus dará a vitória” – Santa Joana d'Arc.

[11] Jo. 16, 33.
A revolução do Papa Francisco Reviewed by Renitência on segunda-feira, maio 26, 2014 Rating: 5
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