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Cuba é minha prisão



Por Winston Smith | Renitencia.com

A religião em Cuba

Nós respeitamos todas as ideias, nós respeitamos todas as crenças, porque não tememos nenhuma ideia (Fidel Castro, jornal Revolución, 1959).

Ao falar da religião em Cuba, não vou referir-me às diversas igrejas e grupos que praticam a religião neste país, mas ao que custou ser crente em Cuba. O governo se apresenta nestes últimos tempos como um Estado tolerante de todos os credos; recebeu a visita dos papas, o que parecia que este governo foi sempre respeitoso com a Igreja católica, mas os que conhecem a história de Cuba sabem que não é assim, que este foi um governo perseguidor dos cristãos e especialmente dos católicos.

Com o triunfo da Revolução, foram fechadas as igrejas, os colégios religiosos, expulsaram-se do país sacerdotes e religiosas, e era um delito crer em Deus. Procurou-se apagar a imagem do “Pai” para impor a imagem de um deus militar, repressor e inquisidor. Nas escolas a palavra “Deus” estava proibida. Recordo como nossos mais velhos diziam quando saíamos de casa: “Que Deus o acompanhe”; quando chegávamos ou saíamos, pedíamos a bênção aos nossos adultos, mas essa tradição a revolução socialista se encarregou de apagá-la e mudá-la por antivalores que ao longo do tempo não foram mais que uma deformação social que nos levou a bestializar-nos.

Quando uma pessoa ia procurar um emprego ou tinha de fornecer dados pessoais, perguntavam-lhe se praticava alguma religião; se dissesse que sim, corria o risco de ficar sem o emprego, ou que a gestão que estava fazendo lhe fosse anulada por pertencer a uma religião.

Quando era eu criança falavam-nos mal da Igreja; um dos objetivos da propaganda do governo era satanizar a Igreja católica. Em minha casa existe uma imagem da Virgem da Caridade, que esteve em minha família por mais de sessenta anos, e sobreviveu graças a um irmão meu e eu, que lhe fizemos uma capelinha hermética e a pusemos no banheiro da casa, e só nos sábados a abríamos para limpá-la e acender uma vela. Não se podia ter essas imagens em lugares visíveis da casa, porque isso podia ser um motivo para que um jovem da casa não pudesse estudar a carreira que desejava; a carreira de medicina foi a que mais sofreu estes embates: os estudantes que tinham boas notas e que queriam ser médicos, mas eram cristãos, ficavam sem a carreira; alguns tiveram de negar sua fé para poder estudar medicina.

Quanto dano se fez à nação com essa atitude intransigente, porque muitos bons médicos perdeu o país pelo simples fato de crerem em Deus. Se todos os crentes que quiseram graduar-se o tivessem conseguido, asseguro que outra coisa seriam nossos hospitais, porque estariam cheios de homens e mulheres com valores morais e de elevada sensibilidade humana, e não estaria aí essa manada de médicos sem ética que mancham nossos hospitais; a muitos deles não lhes interessa sua profissão e permanecem nela para buscar um status no bairro e entre os amigos.

A Igreja teve de suportar todo tipo de humilhação durante estes últimos cinquenta anos. Resulta-me tão humilhante ver um bispo pedindo permissão ao Partido Comunista para fazer uma procissão em um par de quadras. Estas procissões começaram a ser autorizadas em 1998 com a visita do papa João Paulo II. Existe no seio do Partido Comunista um escritório, chamado de assuntos religiosos, que é como o intermediário entre a Igreja e o Estado. O chefe deste escritório é aquele que diz à Igreja por onde deve fazer a procissão e até onde, é aquele que diz quando sai ou entra um sacerdote em Cuba, se se constrói um templo ou não, que carro deve comprar a Igreja. Esse escritório parece que foi feito para poder dirigir os católicos. Resulta curioso escutar o governo manifestar seu regozijo por manter relações ininterruptas com o Vaticano por várias décadas. Depois do que o governo comunista fez com os cristãos no princípio da Revolução, brotam em mim dúvidas, porque não sei em presença de quem estou, não sei se estou na presença de um governo cínico ou de uma Igreja atemorizada. Qualquer que seja a razão é perigoso para o país, porque a transparência do governo e a coerência da Igreja faz que uma nação tenha um equilíbrio razoável para o desenvolvimento e o bom funcionamento da sociedade.

A família cubana

A família é o elemento natural e fundamental da sociedade e tem direito à proteção da sociedade e do Estado (Artigo 16 da Declaração Universal dos Direitos Humanos – Assembleia Geral das Nações Unidas, 1948).

O tema da família em Cuba é um dos mais difíceis e delicados de tratar, porque certamente é, dentro do país, a parte mais afetada. Neste país, da família só lhe resta o nome. Devido a um projeto como o socialista, que se prolongou por mais de cinco décadas, a família teve de sofrer separações forçadas, guerra entre seus membros. Foram se fomentando o ódio, a inveja; foram se voltando os pais contra os filhos, os filhos contra os pais; o desamor se apoderou de quase todas as famílias dos cubanos. Sempre foram assim as famílias cubanas? Caracterizávamo-nos nós, cubanos, por atraiçoar os valores fundamentais da vida social? Penso que não, porque nunca esta nação se caracterizou por odiar ninguém e sempre se preocupou com que as famílias fossem a forja onde se forjassem homens e mulheres úteis à sociedade e capazes de criar e produzir para o bem comum. É preciso recordar que Cuba foi por muitos anos colônia da Espanha e sustentou três guerras contra ela onde morreram os melhores filhos da nação naqueles momentos. Sofreu-se muito com o colonialismo e seu despotismo: cubanos presos por se oporem aos colonialistas, desterros, discriminação racial, fuzilamentos arbitrários, humilhação etc.

Todavia, ao libertar-se Cuba do domínio espanhol, verdugos e vítimas se puseram a trabalhar juntos para reconstruir a nação. Desterrou-se o ódio à Espanha e aos espanhóis, tudo foi apagado e passou-se a uma conta nova, e sob essa lição de reconciliação educou-se o povo cubano, e isto permitiu que os homens e mulheres deste país fossem se formando com altos valores éticos e morais, com uma educação cívica invejável.

Até os anos 1960 e princípios da década de 1970, os pais eram os que dirigiam sua família e eram a voz respeitável nesse pequeno núcleo da sociedade; mas o que aconteceu? Por que essa virada de 180 graus dentro das famílias cubanas? Para responder a essas perguntas é preciso levar em consideração que, com o triunfo da Revolução cubana, o governo começou a colocar todo o seu empenho em destruir duas coisas que conseguindo enfraquecê-las, se podia implantar um regime totalitário: estou me referindo à Igreja e à família. Pudemos ver, quando se tocou no tema da religião, tudo o que fez para que a Igreja se enfraquecesse, não como hierarquia, mas como povo de Deus; não se queria abertamente um confronto com os bispos, mas sim com os sacerdotes, religiosas e fiéis, porque enfraquecendo o clero e afugentando os fiéis para que não participassem das celebrações e fossem se afastando da fé podia-se dar forma a uma nação de homens e mulheres incrédulos, muito fáceis de enganar e dominar. Por que a Igreja e a família?

Qualquer pessoa que pense um pouquinho pode perceber que se a uma família falta Deus, ela está condenada à destruição. Os homens, por muito bons que sejam, não podem resolver os problemas por sua conta, e quando Deus está dirigindo a vida das famílias existe harmonia e entendimento entre seus membros; quando os membros da família começam a depositar sua confiança no puramente material, existem problemas graves, começa a destruir-se tudo.

Num matrimônio em que a esposa é crente e seu esposo é militante do Partido Comunista, abre-se para eles uma incompatibilidade muito grande, porque aos militantes comunistas se lhes ensina que “a religião é o ópio dos povos” e, portanto, a um esposo custa que sua esposa milite em uma religião diferente da dele.

Quando as crianças têm idade de ir à catequese, o pai não quer que a mãe os leve à igreja para receber a catequese, nem que participem da missa dominical, porque isso o prejudica como chefe de empresa ou porque dirige uma brigada de construtores. Estas são as primeiras diferenças que se introduziram na família que sempre se deu bem com seus membros; a ideologia marxista entrou nos lares cubanos como um vírus letal que envenenou a consciência e a convivência de muitos dos seus membros. A Igreja prega valores que servem como estímulo de vida para a família; são as mesmas pregações de Jesus Cristo, que chamam todas as pessoas a permanecer no amor.

O governo se apoderou da educação das crianças e relegou os pais a um segundo plano. A doutrinação sempre foi a arma eficaz para a manipulação dos jovens e para colocá-los contra os pais. Os rapazes cresceram em um materialismo diabólico onde os antivalores são vistos como virtudes e a virtude algo defasado que é preciso desterrar da mente do homem “novo”. A bolsa de estudos foi o foco dos antivalores, foi onde os jovens, longe de seus pais, aprenderam a fazer de tudo, “menos tornar-se pessoas”.

É tão difícil ver que em uma família cubana se coma à mesa; é difícil ver seus membros olhando-se nos olhos e falando coisas que possam ajudar a vida familiar. O simples fato de que um irmão seja espião do outro, um filho delate seus pais, isto diz por si só quão destruída está a família em Cuba, e isto é favorável para o governo, porque pode ter em cada casa um espião. É tão comum ver nas casas seus membros discutindo, porque há um que fala a verdade sobre o sistema e os outros o atacam e o ofendem chamando-o de verme, antissocial, escória e todos os substantivos e adjetivos a eles ensinados nas escolas. Conheci irmãos que estão brigados porque um pensa como o governo e o outro se opõe a ele.

As famílias cubanas dividiram-se de todas as formas possíveis: são muito poucas as famílias cubanas que não têm um membro no estrangeiro ou no cárcere. Há muitas famílias que têm filhos que, vivendo em Cuba, passam até dez anos sem ver seus pais. O mais triste é que o cubano aprendeu coisas no seio da família que o despersonalizaram, e isto se pratica em quase todos os lares cubanos: os pais estão ensinando a dupla moral a seus filhos sem perceber que isto está causando danos aos filhos e à sociedade em que vivem. Quase todos os pais deste país dizem a seus filhos que se calem, que não falem as coisas que sentem, porque caso contrário vão arranjar problemas. Eles preferem que seus filhos aparentem uma coisa embora estejam sentindo outra. Isto trouxe, como resultado que temos, uma sociedade desvalorizada, em que seus filhos são violentos e não respeitam nada.

O paternalismo é outro dos vírus que destroem a passos rápidos a sociedade cubana. Os pais não ensinam seus filhos a dar valor às coisas; é tão comum ver como os filhos de pais pobres enchem seus filhos de presentes caros, para que se sintam bem e não passem o que seus pais passaram; não ensinam os filhos que devem lutar para ter o que desejam. Os filhos não têm sentimento de pertença à sua família; não se pergunta a um filho que quer se casar onde é que vai viver, mas se lhe prepara uma cama na sala para quando venha da lua de mel, e nessa cama nascem os filhos e morre o amor dos recém-casados, que demoram mais para casar-se do que para divorciar-se. As estatísticas das crianças em uma escola cujos pais são divorciados são assustadoras.

Hoje em Cuba as mulheres dão à luz para qualquer um que tenha desejo de se reproduzir, e os homens fazem um filho em qualquer mulher que tenha ventre fértil. As meninas começam a ter relações sexuais em muito tenra idade. Como na casa não vive o pai e a mãe, está procurando esquecer o pai com outro; a menina está em outra habitação fazendo suas primeiras experiências sexuais com qualquer um.

Em Cuba, em sua maioria, as pessoas são máquinas sexuais. Isto se faz por prazer hoje, e amanhã não a conheço. Isto é resultado de um processo no qual o homem e a mulher foram educados como coisas e não como seres humanos que têm uma dignidade que deve ser respeitada. Muitos pais dizem, para que suas filhas não o estejam fazendo nas ruas, que o façam em casa. Converteu-se o sagrado lar em vulgar prostíbulo.

Em Cuba está ocorrendo um fenômeno bastante delicado: às crianças se tratam como adultos e depois, quando adultas, se as tratam como crianças; às crianças neste país se lhes dá participação nos temas dos adultos, se lhes permite sair para as ruas em tenra idade acompanhados por seus amigos, sem o controle de uma pessoa mais velha, o que permite que as crianças façam na rua tudo o que lhes dê na telha. É tão comum ver uma mãe arrumando a cama e a casa de um filho que tem mais de 30 anos ou um pai limpando-lhe os sapatos com os quais vai visitar a namorada.

Governo e família terão de responder pela má educação que se deu a estas gerações de cubanos que não passam de inúteis autômatos e degradados seres humanos que nunca aprenderão que tinham uma missão nesta terra e que deixaram passar a oportunidade de ser os protagonistas da nova história do seu país.

(Winston Smith, Cuba é minha prisão. São Paulo, 2012, pp. 322-327).
Cuba é minha prisão Reviewed by Renitência on quarta-feira, maio 21, 2014 Rating: 5
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