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Estão abertas as apostas para o próximo sínodo

Pela primeira vez depois de décadas, bispos e cardeais voltarão a enfrentar-se sobre teses radicalmente opostas, em particular sobre o sim ou o não à comunhão para os divorciados que voltaram a casar. Foi o papa Francisco quem quis reabrir a discussão, com um resultado imprevisível.


Tradução: Carlos Wolkartt – Renitencia.com

Roma, 19 de setembro de 2014 – O sínodo sobre a família, previsto para outubro, no Vaticano, se assemelha ao papa Francisco numa coisa: não é possível prever como se desenvolverá e muito menos como terminará.

Este é o caminho que o papa quis: aberto à livre discussão, inclusive nos pontos que mais dividem, como, por exemplo, na questão da comunhão aos católicos divorciados que voltaram a se casar numa cerimônia civil.

É necessário retroceder mais de quarenta anos, a 1971, ao alvorecer da história desta instituição, para encontrar outro sínodo também palpitante, dessa vez sobre a superação ou não da obrigação do celibato para o clero da Igreja latina.

Depois de uma longa e acalorada discussão, Paulo VI pôs à votação duas soluções contrastantes, entre as quais os padres sinodais tiveram que escolher.

A primeira solução sustentava firmemente o celibato para todos, sem exceções. A segunda reconhecia ao Papa a faculdade de ordenar, “em casos particulares, por necessidades pastorais e para o bem da Igreja universal”, homens casados de idade madura e de vida exemplar.

Venceu a primeira solução, que contou com 107 votos, enquanto que a segunda obteve 87. Paulo VI quis que o resultado dos votos fosse publicado, incluindo o dos votos sobre o documento final do sínodo, que foi aprovado com 168 “sins”, 21 “sins” com reserva e 3 abstenções.

Desde então, a obrigação do celibato não voltou a ser discutida oficialmente. Nenhum outro sínodo se viu obrigado a escolher entre opções tão acentuadamente contrastantes. O interesse dos meios de comunicação por estas questões se reduziu a zero. Até este ano.

Na realidade, um estremecimento que voltou a ser notícia teve lugar em 1999.

No sínodo deste ano, o cardeal Carlo Maria Martini pediu que fosse convocado uma espécie de concílio permanente, com sessões a curta distância [freqüentes] sobre questões candentes como a anticoncepção, o divórcio, o lugar da mulher na Igreja.

“Não sou um antipapa – disse ele – mas um ‘ante’ papa que se adianta para abrir caminho”. Acertou, porque hoje há um papa de quem não se sabe o que pensa pessoalmente sobre as questões suscitadas por Martini. Mas esse mesmo papa tem ressuscitado essas questões, trazendo-as de volta à discussão.

Francisco começou com a distribuição, há um ano, de um questionário de livre circulação sobre todas as questões referentes à família, desde a anticoncepção até a comunhão aos divorciados, desde os casais de fato até os matrimônios entre homossexuais. E alguns episcopados nacionais, com os de língua alemã na liderança, divulgaram os resultados, suscitando expectativas de liberalização na disciplina da Igreja,

Mas depois, acima de tudo, Francisco reuniu em Roma, no mês de fevereiro passado, um consistório de cardeais que funcionou como um ensaio geral para o próximo sínodo. A quem confiou a exposição introdutória? Ao cardeal alemão Walter Kasper, que já nos primeiros anos da década de 1990 lutou pela superação da proibição da comunhão aos que voltaram a casar, tendo sido derrotado e silenciado, nessa época, por João Paulo II e por Joseph Ratzinger.

Desse consistório só se conheceu a exposição de Kasper; todas as outras permaneceram em segredo. Mas, a julgar pelas posteriores afirmações públicas de alguns cardeais, pode-se supor que as resistências às mudanças propostas por Kasper foram e continuam sendo amplas, beligerantes e autoritárias.

Entre os que resistem e que saíram do armário estão os cardeais Gerhard L. Müller, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, Raymond L. Burke, Timothy M. Dolan, Marc Ouellet, George Pell, Fernando Sebastián Aguilar, Carlo Caffarra e Angelo Scola, todos etiquetados geralmente entre os conservadores. Mas há também alguns cardeais com fama de progressistas, como o austríaco Christoph Schönborn, que estão se unindo à coligação contra Kasper.

No sínodo, todos eles terão de travar uma briga, sem poupar golpes, com Kasper e seus não tão sólidos partidários.

O fato de que também os “reacionários” Caffarra, Scola e Aguilar foram chamados pessoalmente por Francisco para participar do sínodo arrefeceu bastante os entusiasmados pelo atual Papa.

O jesuíta norte-americano Thomas Reese, ex-diretor da revista “America” e formador de opinião muito escutado, fã fanático de Jorge Mario Bergoglio no início de seu pontificado, depois deste último golpe passou definitivamente ao campo adversário, contra o que para ele é uma traição à esperada revolução.

Mas a batalha está apenas começando. O iminente sínodo não trará nenhuma conclusão. Ele terá um segundo turno em outubro de 2015, depois do qual não será o sínodo, mas o papa Francisco quem decidirá o que fazer.
Estão abertas as apostas para o próximo sínodo Reviewed by Editor on sexta-feira, setembro 19, 2014 Rating: 5
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