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Não é Francisco. Ainda é Bento XVI.

Um grande livro, fiel ou cismático, dependendo do seu ponto de vista.


Il Foglio, 23 de setembro de 2014
Tradução: Carlos Wolkartt – Renitencia.com

Roma. Continua a assinar “Benedictus XVI”, com muito “P. P.” para indicar o poder papal, coisa que Francisco nunca fez desde o dia de seu assentamento sobre a cátedra petrina. De branco se vestia e de branco continua a vestir-se, embora tenha deixado de usar a mozeta (ou a peregrineta) e a faixa da batina. Não houve tempo para recuperar uma batina preta em torno do Vaticano, é a justificativa um tanto preguiçosa que ressoa para além do Tibre. Papa foi e Papa continua sendo, embora emérito. Preservou também o brasão papal com as chaves cruzadas, que alguns cardeais zelosos especialistas em heráldica tentaram atualizar, removendo qualquer referência ao ministério petrino. Mas, então, que valor tem a renúncia anunciada por Joseph Ratzinger, sentado sobre um trono vermelho na Sala Clementina, em 11 de fevereiro do ano passado, para a surpresa dos purpurados presentes, alguns dos quais — não acostumados com o latim — não perceberam a gravidade do que estava acontecendo, “caso único nos dois mil anos de história da Igreja”? Quem pergunta é o escritor católico Antonio Socci em “Non è Francesco” [Não é Francisco], seu próximo livro a ser lançado pela editora Mondadori no início de outubro, um poderoso manifesto antibergogliano escrito, segundo o autor, em obediência “ao clamor da minha consciência”. Bento XVI, escreve Socci, renunciou somente ao exercício ativo do ministério, enquanto o petrino “é para sempre”. E se uma coisa é para sempre, não pode ser revogada. É a transposição da antiga regra beneditina do “semel abbas semper abbas” [uma vez abade, sempre abade]. Ele ainda permaneceu dentro do recinto de Pedro, não recolhendo-se em algum mosteiro da Provence, como muitos sugeriram. O Papa emérito não fala, mas “falam, porém, seus gestos, seus sinais e suas decisões”, como observa o autor, incluindo o silêncio: “Ele sabe que cada palavra pública sua poderia atrair atenção, e qualquer coisa que dissesse seria lido a favor ou contra o seu sucessor”, disse o prefeito e secretário da Casa pontifícia, Dom Georg Gänswein, em entrevista ao jornal “Il Messaggero”.

As dúvidas, um ano e meio depois da mudança na cátedra de Pedro, ainda não foram esclarecidas. Perguntas permanecem sem respostas. Como aquela relativa à anulação do escrutínio que viu depositada na urna uma quantidade de cartões maior que a de eleitores. Os cardeais, sem pensar muito, decidiram queimar tudo e realizar imediatamente um novo escrutínio. Uma falha que — recorda Socci — as regras não permitem que ocorra, e que faz com que a eleição seja nula. Isso nunca aconteceu. A constituição apostólica, afinal, prescreve que ninguém, senão o Papa, pode modificar as regras do Conclave. Prescreve também o máximo de quatro votações diárias, e não cinco, como aconteceu. Nada pessoal, garante Socci. Até porque admite que foi um dos muitos que “receberam Bergoglio de braços abertos. Eu disse a ele (convictamente) que podia contar com minhas orações e as da minha família”. Tudo nele fazia pensar num “sopro de ar fresco para o Vaticano e para toda a Igreja”. Mas — e aqui o escritor critica os círculos tradicionalistas que acusam Francisco de ser o fiel executor do Concílio —, “sustentar agora que as declarações de Bergoglio e Scalfari estão em continuidade com Bento XVI, com João Paulo II e com Paulo VI, ou que Bergoglio encarna a essência do Vaticano II, é um absurdo”. O que está acontecendo, acrescenta o autor do livro, que chega ao ponto de pôr em dúvida uma eleição papal, não é a realização do Vaticano II, mas “um abusivo Vaticano III”.
Não é Francisco. Ainda é Bento XVI. Reviewed by Editor on terça-feira, setembro 23, 2014 Rating: 5
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