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Papa Francisco, pentecostais e ação inter-religiosa

Tradução: Carlos Wolkartt – Renitência.com

Nota de Renitência.com: Este artigo de John Vennari sobre o pensamento e os atos ecumênicos de Francisco data de 10 de maio de 2013, mas só agora conseguimos publicá-lo em língua portuguesa. No entanto, ele permanece atual em cada palavra.

“Fui responsável pela Renovação Carismática na Argentina, e por isso eu os amo muito.” — Mensagem do Papa Francisco à Assembléia Carismática, 27 de abril de 2013.

O Cardeal Bergoglio, agora Papa Francisco, afirma em seu recém-lançado livro Sobre o Céu e a Terra que alegremente permitiu que pastores protestantes orassem sobre ele durante uma grande Conferência Carismática. Ele diz ainda que está sem entender por que alguns dizem que isso deveria ser censurado.

Sobre o Céu e a Terra é uma produção conjunta entre o Cardeal Jorge Bergoglio e o Rabino Abraham Skorka. É um livro de conversas entre esses dois homens, originalmente lançado em espanhol, em 2010, e agora publicado em inglês [e também em português].

Neste livro, encontramo-nos com o Cardeal Bergoglio em suas próprias palavras. Ele parece ter um coração quente, uma série de bons instintos católicos, mas também mostra-se imerso na nova orientação ecumênica do Vaticano II. O programa pan-religioso do Concílio é fundamental para o seu pensamento. Seu compromisso com o pentecostalismo é um desses casos.

A “bênção” conjunta

Em 19 de junho de 2009, o Terceiro Encontro Fraterno de Evangélicos e Católicos foi realizado no estádio Luna Park, em Buenos Aires. O Cardeal Bergoglio compareceu.

Em certo ponto, como é característico nesses encontros pentecostais, o Cardeal caiu de joelhos sobre o palco para receber a “bênção” do bem conhecido carismático Padre Raniero Cantalamessa O.F.M. e de diversos pastores protestantes.

Alguns católicos bem-intencionados tentaram argumentar que Bergoglio teve a intenção de receber a bênção apenas do sacerdote católico, e os protestantes também deram a bênção para surpresa do Cardeal. Como eu disse em abril no CFN (Catholic Family News), não acredito que esse foi o caso. Meus leitores de longa data sabem que eu já freqüentei muitos desses encontros carismáticos como observador. Essas bênçãos conjuntas pancristãs são um procedimento padrão nas assembléias carismáticas. Além disso, o pentecostalismo tem crescido excessivamente na América do Sul desde o fim da década de 1960, e por isso é muito improvável que o Cardeal de Buenos Aires não tenha tido conhecimento dessas “bênçãos conjuntas” antes de participar do evento em 2009.

Mas todas as especulações sobre este ponto são deixadas de lado quando lemos a página 220 do recém-lançado Sobre o Céu e a Terra. Nela, o Cardeal Bergoglio afirma com orgulho que permitiu conscientemente que a bênção conjunta fosse dada.

Segundo o Cardeal: “A primeira vez que os evangélicos me convidaram para uma de suas reuniões no Luna Park, o estádio estava cheio. Nesse dia falaram um sacerdote católico e um pastor evangélico. Fizeram duas palestras cada um, intercaladas, com um intervalo para comer uns sanduichinhos ao meio-dia. Em dado momento, o pastor evangélico pediu que todos rezassem por mim e por meu ministério. Ele havia me perguntado se eu aceitaria que rezassem por mim e eu respondera que sim, claro. Quando todos rezavam, a primeira coisa que me ocorreu foi me ajoelhar, um gesto muito católico, para receber a oração e a bênção das 7 mil pessoas que estavam ali. Na semana seguinte, uma revista publicou: ‘Buenos Aires, Sé vacante. O arcebispo cometeu o delito de apostasia’. Para eles, orar junto aos outros era apostasia. Mesmo com um agnóstico, em sua dúvida, podemos olhar juntos para cima e buscar a transcendência. Cada um reza segundo sua tradição, qual é o problema?” [1]

Talvez o aspecto mais preocupante dessa história não é que o Cardeal tenha aceitado a “bênção” dos protestantes — embora isso seja perturbador o suficiente —, mas que ele tenha ficado verdadeiramente confuso quanto aos motivos pelos quais alguém iria querer censurar os seus atos.

Isso nos faz pensar no tipo de formação que o jovem Jorge Bergoglio recebeu nesses inebriantes dias do pós-Concílio, pouco antes de sua ordenação sacerdotal em 1969.

Lidaremos com as velhas objeções católicas a essas ações, mas primeiro vamos documentar o apoio do pentecostalismo ao Cardeal Bergoglio. Muitos testemunhos de carismáticos rapidamente emergiram depois que Bergoglio foi eleito Papa.

“Ele apoiou o Movimento Carismático”

Dr. Vinson Synan, um conhecido protestante pentecostal, recorda um encontro encorajador que teve com o Cardeal Bergoglio em 2005, em Buenos Aires.

Foi durante um encontro do ICC (International Charismatic Consultation) com pessoas de todas as denominações. O objetivo era promover o “diálogo” entre pentecostais e católicos na América Latina.

Vinson Synan e seu grupo encontraram-se com o Cardeal Bergoglio em seu palácio. “Ele foi muito simpático, de verdade”, conta Synan. “Ele apoiou o movimento carismático. O que mais nos impressionou foi quando ele nos suplicou para orar por ele. Reunimo-nos em volta dele e oramos fervorosamente. Mal sabíamos que um dia ele seria o Papa.” [2]

Cardeal Bergoglio recebe bênção conjunta de padre católico e ministros protestantes.

O “católico” carismático Ralph Martin jubilou-se com a eleição do Cardeal Bergoglio. Ele escreveu em 20 de março 2013: “Muitos têm me perguntado se ele [Papa Francisco] é amigo da renovação carismática e da evangelização. Sim, ele é. Várias pessoas têm me enviado fotos do Papa Francisco, enquanto ele ainda era arcebispo de Buenos Aires, pedindo orações e bênçãos a um grupo de pastores evangélicos. De fato, um ministro pentecostal postou uma foto na web (veja acima) observando que o Cardeal Bergoglio esteve muito envolvido ao longo dos últimos anos com o diálogo anual entre católicos e pentecostais e com os retiros para padres e pastores organizados antes de cada encontro.” [3]

Em 14 de março de 2013, a revista Christianity Today disse que os evangélicos da Argentina ficaram muito felizes com a eleição de Bergoglio: “Bergoglio tem desempenhado um papel central no movimento CRECES (Comunidade Renovada de Evangélicos e Católicos no Espírito Santo) ao longo dos últimos 10 anos, além de apoiar fortemente a Sociedade Bíblica [Protestante] da Argentina.”

Juan Pablo Bongarrá, presidente da Sociedade Bíblica da Argentina, disse de Bergoglio: “Ele tem relações muito boas e amistosas com os líderes de outras religiões”, e observou que o Cardeal respeita e promove o diálogo inter-religioso. “Ele foi até o palco e pediu aos pastores protestantes que orassem por ele. Ele se ajoelhou na frente de cerca de 6.000 pessoas [líderes protestantes], que impuseram as mãos sobre ele e oraram. Nós, líderes evangélicos que o conhecemos, estamos muito felizes com a sua eleição.” [4]

Em 27 de abril de 2013, Francisco (ex-Cardeal Bergoglio) reiterou seu compromisso com o pentecostalismo. De acordo com o site de notícias Zenit, o Arcebispo Rino Fisichella, presidente do Pontifício Conselho para a Promoção da Nova Evangelização, celebrou uma missa no [espaço] Rimini Fiera por ocasião da 36ª Assembléia Nacional da Renovação Carismática Católica. Durante o evento, o Arcebispo deu uma inesperada mensagem aos 15.000 carismáticos, que a receberam com entusiasmo:

“Antes de iniciar esta celebração — disse o Arcebispo à multidão —, trago-vos uma saudação. Antes de eu sair hoje de manhã, estive com o Papa Francisco e lhe disse: ‘Santo Padre, terei que sair em breve. Vou ao Rimini, onde estão reunidos milhares e milhares de fiéis da Renovação Carismática: homens, mulheres e jovens.’ Com um grande sorriso, o Papa respondeu-me: ‘Diga-lhes que eu os amo muito!’ Ao deixá-lo, ele acrescentou: ‘Olha, diga a eles que eu os amo muito, porque eu era responsável pela Renovação Carismática na Argentina, e é por isso que eu os amo muito’.” [5]

Outro exemplo do pensamento ecumênico do Cardeal Bergoglio é dado por Gregory Venables, um bispo anglicano da Argentina (e ex-arcebispo da Igreja Anglicana do Cone Sul). Venables conta que, ainda na Argentina, o Cardeal Bergoglio “me chamou para tomar café da manhã com ele e me disse muito claramente que o Ordinariato [criado pela Igreja Católica para acomodar ex-anglicanos convertidos ao catolicismo] era completamente desnecessário e que a Igreja precisava de nós como anglicanos.” [6]

A atitude do Cardeal Bergoglio faz eco à teologia ecumênica do Cardeal Walter Kasper, que disse em 2003: “Vários aspectos de ser Igreja estão mais bem realizados em outras Igrejas. Por conseqüência, o ecumenismo não é uma via de sentido único, mas um processo recíproco de aprendizagem, ou, como indica a Ut Unum Sint, uma troca de dons. O caminho para a unidade não é, portanto, o regresso dos outros ao seio da Igreja Católica.” [7]

Como observado em abril no CFN, o Papa Francisco louvou sem reservas o Cardeal Walter Kasper em seu primeiro Angelus, quatro dias depois de sua elevação papal. O novo Papa estava dando dicas sobre o seu pensamento ecumênico e de como seria o seu pontificado.

Qual é o problema?

O Cardeal Bergoglio, como citado anteriormente, ficou confuso quanto aos motivos pelos quais alguém iria querer censurar seu ato de ajoelhar-se para receber a bênção conjunta de ministros católicos e protestantes, tudo isso em público. “Qual é o problema?”, pergunta ele.

Será que ele realmente quis dizer isso? Será que ele realmente ficou sem entender por que as orações públicas conjuntas com católicos e protestantes são consideradas escandalosas? Ele não tem conhecimento dos inúmeros pronunciamentos papais, ao longo dos últimos 160 anos, que condenam o indiferentismo religioso e as atividades ecumênicas?

Faria mais sentido se Bergoglio houvesse dito: “Sim, antes do Vaticano II isso não seria permitido, mas devido ao aggiornamento do Concílio, nós agora consideramos isso legítimo.” Não, nenhum aceno para a doutrina secular da Igreja. Apenas a delicada pergunta: “Qual é o problema?”

Note-se que, se a revista que Bergoglio citou chamou o seu ato de um ato de apostasia, isso pode ser considerado como uma acusação imprecisa. As ações do Cardeal podem ser chamadas de escandalosas, talvez até heterodoxas, mas não de atos de apostasia, uma vez que a apostasia implica rejeitar a Fé e Jesus Cristo por completo — como um católico que se converte ao Islamismo ou ao Judaísmo.

Aqui está a dificuldade. A oração pública do Cardeal Bergoglio com os protestantes e a “bênção” que ele recebeu de pastores protestantes dão a impressão de legitimação do protestantismo. Apesar de todas as boas intenções que os protestantes possam ter, seu sistema de crenças, que rejeita verdades basilares da Fé Católica, foi condenado pelo infalível Concílio de Trento.

O Concílio de Trento anatematizou solenemente aqueles que rejeitam a doutrina católica da Eucaristia, a doutrina católica sobre o Sacramento da Confissão, a doutrina católica sobre o Sacramento da Ordem, e a lista só aumenta cada vez mais. As ações de Bergoglio efetivamente dizem aos protestantes que o Concílio de Trento não importa.

Os Papas até 1958 condenaram vigorosamente a atividade ecumênica e inter-religiosa. Pio XI, em sua Encíclica Mortalium Animos, de 1928, proibiu o tipo de ecumenismo nutrido desde o Concílio Vaticano II. Ele disse que a Santa Sé “nunca permitiu aos seus estarem presentes” às assembléias ecumênicas, e que “de nenhum modo é lícito aprovar ou contribuir para essas iniciativas: se o fizerem concederão autoridade a uma falsa religião cristã, sobremaneira alheia à única Igreja de Cristo.”

“A unidade só pode surgir — continua o Papa — por meio de um só magistério, de uma só lei de crer, de uma só fé entre os cristãos”, e reitera que a única verdadeira unidade só pode se dar através do retorno dos não católicos à única e verdadeira Igreja de Cristo.

Pio XI advertiu precisamente que essas empresas ecumênicas estão cheias de “palavras atrativas e sedutoras que ocultam um gravíssimo erro pelo qual são totalmente destruídos os fundamentos da Fé Católica.” [8]

Da mesma forma, o Papa Pio XII advertiu em sua Instrução sobre o Movimento Ecumênico, de 1949, que “a verdadeira unidade só pode concretizar-se pelo regresso dos dissidentes à única e verdadeira Igreja de Cristo (a Igreja Católica).” [9]

Essas condenações papais não são simplesmente uma questão de disciplina, mas baseiam-se na natureza da própria verdade. O ecumenismo é uma falsa união entre católicos e falsos credos. Ele dá o selo de aprovação para um dos erros mais prevalentes dos dias atuais: o de que qualquer religião é boa o suficiente para a salvação.

Assim, os líderes católicos — sejam eles padres, bispos, cardeais ou mesmo papas — não devem dar a expressão visual de indiferentismo que as atividades ecumênicas necessariamente transmitem. Não importa o que dizem as qualificações pseudoteológicas de eclesiásticos modernos (por exemplo, “não rezamos juntos, apenas nos reunimos para rezar”): todos nós sabemos que é a imagem que conta.

Os publicitários estão bem cientes deste fato. A agência de publicidade não apresenta uma descrição abstrata do último Ford Mustang, mas televisiona a imagem. O espectador assiste ao mais recente Mustang em alta velocidade numa rodovia. É a imagem que vende; é a imagem que envia a mensagem. E a imagem transmitida pelo Cardeal Bergoglio, pelo “pentecostalismo católico” e pelo “ecumenismo católico” é a de que todas as religiões estão em pé de igualdade e qualquer religião é boa o suficiente para a salvação. A imagem de líderes católicos orando em público com membros de falsas crenças envia seu próprio sinal, e não é um sinal católico. Não importa quais são as intenções subjetivas: a imagem desses encontros ecumênicos promove o indiferentismo. Essa é uma das muitas razões pelas quais os Papas pré-Vaticano II não participaram dessas atividades inter-religiosas e proibiram os católicos de participarem também.

A participação católica no ecumenismo moderno também envia uma falsa mensagem aos não católicos, dizendo efetivamente que eles estão ligados a um credo legítimo e que não precisam se converter à Igreja Católica para salvarem-se. Já em 1959, o eminente teólogo tomista Padre Edward Hanahoe advertiu que o ecumenismo moderno “tem o efeito de perpetuar o estado de separação, servindo antes de tudo para manter as pessoas fora da Igreja do que para trazê-las a ela.” [10]

“Este mais deplorável erro”

Os Papas ao longo dos séculos, e especialmente desde a Revolução Francesa, condenaram qualquer atividade que coloca a Igreja Católica em pé de igualdade com as falsas religiões. Essa é uma das muitas razões para as condenações papais à Maçonaria. Leão XIII ensinou:

“Uma certa seita [Maçonaria], injustamente arrogando para si o nome de filosofia, despertou das cinzas as ababeladas coleções de quase todos os erros. (...) ela ensina que uma ampla liberdade foi concedida por Deus a cada homem para se juntar a qualquer seita ou adotar qualquer opinião que lhe aprouver de acordo com seu próprio julgamento pessoal, sem qualquer perigo para a sua salvação. (...)”

Leão XIII observa aqui que tal conceito é contrário à própria noção de verdade:

“(...) é impossível ao autêntico Deus, o qual é a própria Verdade, o melhor e mais sábio Provedor, e o Recompensador dos homens bons, aprovar todas as seitas que professam falsos ensinamentos que são freqüentemente inconsistentes uns com os outros e contraditórios, e conferir recompensa eterna aos seus membros.” [11]

No entanto, o “erro deplorável” condenado pelos Papas — de que um homem pode encontrar a salvação em qualquer religião — recebe o selo de aprovação por meio da prática do ecumenismo e do diálogo inter-religioso.

Com efeito, o indiferentismo religioso é um elemento constitutivo do “pentecostalismo católico”, uma vez que o próprio movimento começou em 1966 com católicos recebendo o “Batismo no Espírito” de ministros protestantes.

O Papa Gregório XVI também condenou o indiferentismo religioso em sua Encíclica Mirari Vos:

“Outra causa que tem acarretado muitos dos males que afligem a Igreja é o indiferentismo, ou seja, aquela perversa teoria espalhada por toda parte, graças aos enganos dos ímpios, e que ensina poder-se conseguir a vida eterna em qualquer religião, contanto que se amolde à norma do reto e honesto. Podeis, com facilidade, patentear à vossa grei esse erro tão execrável, dizendo com o Apóstolo que há um só Deus, uma só fé e um só batismo: entendam, portanto, os que pensam poder-se ir de todas as partes ao porto da Salvação que, segundo a sentença do Salvador, eles estão contra Cristo, já que não estão com Cristo, e os que não colhem com Cristo dispersam miseramente, pelo que perecerão infalivelmente os que não tiverem a fé católica e não a guardarem íntegra e sem mancha.” [12]

O Papa aqui apenas reafirma a verdade essencial contida no Credo de Atanásio, demonstrando assim a continuidade da verdade católica através dos tempos. O Credo começa da seguinte forma:

“Quem quiser salvar-se deve antes de tudo professar a fé católica. Porque aquele que não a professar, integral e inviolavelmente, perecerá sem dúvida por toda a eternidade.”

E termina de modo preciso:

“Esta é a fé católica, e quem não a professar fiel e firmemente não se poderá salvar.”

Não podemos evitar o fato de que o ecumenismo promove o indiferentismo religioso. Ele desafia o Beato Pio IX, que ensinou em seu Syllabus de 1864 que é um erro acreditar que “o homem pode, na observância de qualquer religião, encontrar o caminho da salvação eterna, e chegar à salvação eterna.” [13]

O Cardeal Mercier, fiel ao ensinamento perene da Igreja e citando uma série de Papas, denunciou este latitudinarismo como blasfêmia. Ele alertou que “colocar a religião de origem divina no mesmo nível que as religiões inventadas pelos homens” é uma “blasfêmia que clama a Deus por castigos à sociedade, muito mais do que os pecados dos indivíduos e das famílias.” [14]

O ecumenismo de hoje também coloca a salvação de milhões de almas em risco, uma vez que membros influentes da única e verdadeira Igreja, da única arca de salvação, agora dão a entender, por suas palavras e ações, que os não católicos podem encontrar a salvação na falsidade de seus credos fabricados pelo homem.

E o mais preocupante: Papas modernos e prelados comprometidos com a atividade ecumênica não estão interessados em ensinar aos fiéis católicos as verdades mencionadas acima. Quando você ouviu um Papa pós-conciliar citar as condenações ao indiferentismo religioso de Leão XIII, Gregório XVI e Pio XI? Quando você ouviu um Papa pós-conciliar reiterar a sólida condenação ao ecumenismo encontrada na Mortalium Animos de Pio XI ou na Instrução sobre o Ecumenismo de Pio XII? Com efeito, esses dois documentos — de Pio XI e Pio XII — não foram mencionados nem na nota de rodapé do Decreto do Vaticano II sobre o ecumenismo. É como se esses textos magisteriais não existissem. Esta é uma omissão imperdoável.

Devido a essa negligência, os católicos modernos continuam a ignorar um componente crucial de seu patrimônio católico, e permanecerão considerando a oposição ao ecumenismo moderno como uma atitude não-cristã e desumana.

A omissão de líderes da Igreja em relação à reiteração da tradicional condenação papal ao indiferentismo religioso resulta em gerações de católicos malformados. Resulta também em líderes da Igreja que são “sacos mistos” quando se trata de fé: uma combinação de ambos os elementos, bons e maus. Isso ficou evidente na leitura do livro de Bergoglio e Skorka, Sobre o Céu e a Terra.

Alguns pontos bons

Eu havia dito que o livro Sobre o Céu e a Terra não é de todo ruim. Ele também contém citações do Cardeal Bergoglio que indicam alguns bons instintos católicos.

Por exemplo, as palavras do Cardeal sobre o aborto são encorajadoras, quando ele explica que o aborto não é, necessariamente, uma questão religiosa, mas um problema da própria ciência, um tipo de confronto com a lei natural: “O problema moral do aborto é de natureza pré-religiosa, porque, no momento da contracepção, está ali o código genético da pessoa. Ali já há um ser humano. Separo o tema do aborto de qualquer concepção religiosa. É um problema científico. Não deixar avançar o desenvolvimento de um ente que já tem todo o código genético de um ser humano não é ético. O direito à vida é o primeiro dos direitos humanos. Abortar é matar quem não pode se defender.” [15]

Fazendo eco a essas linhas, o Papa Francisco recentemente lembrou aos bispos da Argentina o dever de serem fiéis ao Documento de Aparecida, de 2007, que proíbe a Sagrada Comunhão aos católicos pró-aborto.

Resta esperar que Francisco não desista dessa declaração, dizendo ao episcopado que qualquer bispo que não cumprir este dever será substituído por um novo Ordinário diocesano. Os bispos têm ignorado as diretivas do Vaticano há décadas. Sem uma ameaça real de penalidade aos bispos que não estiverem de acordo com este pronunciamento de Francisco — que nos deu algumas esperanças —, tudo pode acabar como mais uma palavra do Vaticano que não dá em nada.

Em Sobre o Céu e a Terra, o Cardeal Bergoglio também faz algumas boas observações sobre os escândalos clericais, dizendo que um padre considerado culpado de pedofilia deve ser privado de suas faculdades e proibido de exercer seu ministério sacerdotal novamente. Ele ainda critica a Igreja nos Estados Unidos, cujos bispos “mudam os padres de paróquia. Isso é uma estupidez, porque, dessa maneira, o padre leva o problema na mala” [16]. Bergoglio declarou seu apoio à política de “tolerância zero” de Bento XVI. O tempo dirá o quão eficaz Francisco será em lidar com esses problemas clericais.

O Papa disse que pretende consagrar seu pontificado a Nossa Senhora de Fátima em 13 de maio [o que de fato aconteceu em 2013]. Isso é encorajador. Só podemos rezar para que a consagração produza o efeito de tirar a atual hierarquia católica desse esgoto pós-conciliar de indiferentismo religioso e outras novidades do Vaticano II. No entanto, é melhor deixar para comemorarmos depois que acontecer, e não antes, para que não comemoremos o que nunca vai acontecer.

Por exemplo, o Cardeal Suenens, um dos prelados mais liberais do Concílio, nutriu uma fiel devoção a Nossa Senhora. Ele rompeu com seus amigos liberais do Vaticano II quando quiseram minimizar a importância de Nossa Senhora em favor dos avanços ecumênicos, dizendo-lhes que não se podia reduzir Nossa Senhora por motivos ecumênicos. No entanto, ele continuou até sua morte como um dos prelados mais modernistas do século.

Em 1997, participei do 30º aniversário da conferência carismática “católica” em Pittsburgh, onde ouvi uma palestra da carismática Patti Gallagher Mansfield sobre o Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, de São Luís de Montfort. No entanto, ela continua a ser uma carismática inter-religiosa.

O Papa João Paulo II foi um devoto de Nossa Senhora de Fátima; visitou Fátima em várias ocasiões e por duas vezes consagrou o mundo ao Imaculado Coração de Maria. Porém, ele insistiu no desastroso caminho inter-religioso do Concílio até a sua morte.

O Papa Francisco é o primeiro pontífice a consagrar seu pontificado a Nossa Senhora de Fátima. Isso pode ser uma fonte de esperança cautelosa. Nossa Senhora é capaz de operar maravilhas, e pode até corrigir os passos vacilantes de um Papa. No entanto, devemos estar preparados para resistir às atividades de qualquer prelado — incluindo o Papa Francisco — que insistir em dar continuidade ao programa ecumênico do Concílio. [17]

Missas “Te Deum” interconfessionais de Bergoglio

Apesar das declarações encorajadoras citadas acima, a tendência inter-religiosa do Cardeal Bergoglio persiste. Ele não está comprometido apenas com o pentecostalismo, mas também com o espírito pan-religioso de Assis.

Nas páginas 219-220 de Sobre o Céu e a Terra, Bergoglio afirma com grande satisfação: “Quando comecei como arcebispo, nos Te Deum eu descia com o núncio para acompanhar o presidente e o levávamos até a porta. Todos os senhores, religiosos dos outros credos, ficavam sozinhos em um canto; eram como bonecos de exposição. Eu mudei essa tradição: agora, o presidente sobe e saúda a todos os representantes de outros credos... Desde o Te Deum de Salta, em 2009, a cerimônia se divide em duas: não só se realiza o canto tradicional, clássico, de ação de graças, junto com a homilia e a oração católica, como também os representantes de cada credo formulam suas orações. A participação agora é maior.

Mais uma vez, essas atividades inter-religiosas dão uma expressão visual para o maior erro de nossa época: “o mais deplorável erro” do indiferentismo religioso; a crença de que qualquer religião é boa o suficiente para a salvação, e que não é preciso converter-se à única e verdadeira Igreja de Cristo, a Igreja Católica, para chegar à beatitude eterna. Essa é uma das principais razões pelas quais os Papas do passado tiveram o bom-senso de declarar tais atividades fora dos limites permitidos para os católicos.

Se o Cardeal Bergoglio — hoje Papa Francisco — continuar em sua trajetória ecumênica, podemos esperar que atividades pentecostais, atos inter-religiosos e o “espírito de Assis” sejam ainda mais encorajados sob o seu pontificado. E quando nos opomos a tudo isso, só podemos esperar uma resposta do Papa Francisco: “As pessoas de religiões diferentes não podem rezar juntas? Qual é o problema?”

Nossa Senhora esmagadora de todas as heresias, rogai por nós.


* * *

Notas

[1] Sobre o Céu e a Terra (versão em português), Jorge Mario Bergoglio & Abraham Skorka (São Paulo: Companhia das Letras, 2013).
[3] “Habemus Papam!”, Ralph Martin, página web Renewal Ministries, 20 de março de 2013.
[6] “Argentine Evangelicals Say Bergoglio as Pope Francis Is ‘Answer to Our Prayers’”, Christianity Today, 14 de março de 2013. Quão distante está a atitude do Cardeal Bergoglio das palavras católicas do Beato Pio IX, que disse aos anglicanos: “... verdadeiramente suplico ao Deus de misericórdia e Pai das luzes, que todos vós, escapando de sua condição de desertados da herança de Cristo, a verdadeira Igreja Católica, à qual seus antepassados pertenciam antes da deplorável separação do século XVI, possam alegremente atingir a raiz da caridade para a manutenção do vínculo de paz na unidade.”
[7] “Current Problems in Ecumenical Theology”, Walter Cardeal Kasper, 2003 [aparentemente datado de 27 de fevereiro de 2013], página web do Vaticano.
[8] Mortalium Animos — Sobre a promoção da verdadeira unidade de religião, Papa Pio XI, 6 de janeiro de 1928.
[9] Instructio (Instrução do Santo Ofício sobre o Movimento Ecumênico, 20 de dezembro de 1949). Tradução completa para o inglês publicada em The Tablet (Londres), 4 de março de 1950.
[10] One Fold: Essays and Documents to commemorate the Golden Jubilee of the Chair of Unity Octave, 1908-1958. (Graymoor: Chair of Unity Apostolate, 1959), p. 121.
[11] Papa Leão XII, Ubi Primum, 3 de maio de 1824. Citado em “The Components of Liberal Catholicism”, Mons. Joseph Clifford Fenton, The American Ecclesiastical Review, julho de 1958.
[12] Papa Gregório XVI, Mirari Vos, 15 de Agosto de 1832. Citado em ibid.
[13] Syllabus de Erros, Papa Pio IX, #16.
[14] Carta Pastoral do Cardeal Mercier, The Lesson of Events, 1918. Citado em The Kingship of Christ and Organized Naturalism, Padre Fahey (Dublin: Regina Publication, 1943) p. 36.
[15] Sobre o Céu e a Terra, p. 107.
[16] Ibid., p. 51.
[17] Juan de Torquemada (1388-1468) foi um ilustre teólogo medieval, responsável pela formulação das doutrinas que foram definidas no Concílio de Florença. Segundo ele: “Se um Papa ensinar algo contra as Sagradas Escrituras, ou contra os artigos de Fé, ou contra a verdade dos Sacramentos, ou contra os comandos da lei natural ou divina, este Papa não deve ser obedecido, mas, em tais ensinamentos, deve ser desconsiderado.” Citando a doutrina do Papa Inocêncio III, o Cardeal Torquemada ainda ensina: “Assim é que o Papa Inocêncio III (De Consuetudine) afirma que é necessário obedecer ao Papa em todas as coisas enquanto não vá de encontro aos costumes universais da Igreja, mas se ele for contra os costumes da Igreja, ele não precisa ser seguido.” Fontes: Summa de ecclesia (Venice: M. Tranmezium, 1561). Lib. II, c. 49, p. 163B. A tradução para o inglês dessa declaração de Juan de Torquemada é encontrada em The Papacy in Transition, Patrick Granfield (New York: Doubleday, 1980, p. 171), e em A Theological Vindication of Roman Catholic Traditionalism, 2ª ed., Padre Paul Kramer (Kerala, India, p. 29).
Papa Francisco, pentecostais e ação inter-religiosa Reviewed by Editor on sexta-feira, janeiro 23, 2015 Rating: 5
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