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As irmãs contemplativas devem mudar seus estilos de vida

Tradução: Carlos Wolkartt – Renitencia.com

A última Constituição Apostólica de Francisco sobre as monjas de vida contemplativa é muito mais revolucionária do que pode parecer à primeira vista. Talvez por isso não tenha recebido a atenção que merece por parte dos meios de comunicação católicos, que por geral evitam informar sobre os frutos mais destrutivos do Vaticano II.

Sob o título de Vultum Dei Quaerere, o documento exige que as religiosas das ordens contemplativas de todo o mundo revejam os regulamentos de seus estilos de vida e reescrevam suas constituições para ajustarem-se melhor às diretrizes do Vaticano II e às mudanças dos tempos modernos. O comunicado da imprensa do Vaticano admite claramente que Vultum Dei Quaerere é uma "convocação para fazer mudanças" em doze áreas da tradição monástica, desde a vida claustral ao ascetismo. A longo prazo, será uma reestruturação completa das ordens religiosas contemplativas.

O documento é breve, com apenas 21 páginas, se levarmos em conta a prolixidade de outros documentos de Francisco. Apesar de muitas afagos e elogios à vida contemplativa, a voz de Vultum Dei Quaerere quer ser clara: todas as religiosas católicas das comunidades contemplativas — e isso significa absolutamente todas: as de clausura, as de semi-clausura, as que se dedicam sobretudo à oração, etc. — devem "adaptar-se" oficialmente ao programa do Vaticano II e participar ativamente na adaptação ao mundo moderno.

Não há exceções ou escusas como "estamos seguindo o carisma especial da ordem". O movimento à centralização e modernização tem o mandato do próprio Sumo Pontífice e se aplica a todas as ordens que estão sob sua jurisdição, incluindo as instituições contemplativas femininas dos tradicionalistas — as vinculadas à Fraternidade São Pedro, ao Instituto de Cristo Rei, ao Instituto do Bom Pastor e, em breve, às que dependem da Fraternidade São Pio X, quando oficializar-se com Roma.

Francisco começa ditando acentuadamente que a Vultum Dei Quaerere derroga e se sobrepõe a todos os documentos anteriores que fixam as normas que regem a vida das mulheres religiosas contemplativas, incluindo o Código de Direito Canônico de 1983. Para que tudo fique mais claro que o cristal, o pontífice enumera especificamente os documentos mais relevantes, começando com a Constituição Apostólica Sponsa Christi (1950), de Pio XII, até a Instrução Verbi Sponsa (1999), sobre a vida contemplativa e a clausura das monjas.

Assim sendo, com uma só canetada, Francisco ordena que:

1. Todas as mulheres contemplativas de ordens religiosas devem revisar seus objetivos e reescrever suas constituições para estarem mais de acordo com o Vaticano II;

2. Todas as últimas normas e regulamentos que regem a vida contemplativa, incluindo as do Direito Canônico, devem ser anuladas;

3. As mulheres contemplativas das ordens religiosas devem submeter-se incondicionalmente à Vultum Dei Quaerere e aguardar qualquer outro conjunto de diretrizes no futuro.

Essas novas constituições das ordens religiosas, uma vez adaptadas às novas diretrizes — que ainda serão emitidas pela Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica —, devem ser aprovadas pela Santa Sé.

É preciso destacar aqui que o único nome autorizado a emitir essas diretrizes é o do cardeal brasileiro João Braz de Aviz, chefe da Congregação vaticana para a vida religiosa. Braz de Aviz não hesita em deixar claro seu desejo de que todas as ordens religiosas vivam suas vidas mais "inseridas" no mundo. Dirigindo-se aos reitores de formação religiosa em um congresso em Roma, em 2015, o cardeal proferiu palavras duras contra os religiosos que evitam as mudanças na Igreja — as mudanças do Vaticano II:

"Na realidade, os que se distanciam do Concílio indo por outro caminho estão matando-se a si mesmos; cedo ou tarde, irão morrer", disse. "Eles não têm nenhum sentido. Estarão fora da Igreja. Precisamos construir, mediante o Evangelho e o Concílio como ponto de partida" (National Catholic Reporter, Cardinal to religious: Those who abandon Vatican II are 'killing themselves', 09 de abril de 2015).

Este é o cardeal escolhido por Francisco para emitir e regular as próximas diretrizes que dirigirão as religiosas contemplativas em sua tarefa de adaptação ao mundo moderno. Creio que isso já diz o bastante, de que não é um bom augúrio para as ordens religiosas mais tradicionais e conservadoras que surgiram nas últimas décadas.

A participação na liturgia e a nova agenda social

Embora Francisco exalte "a vida de especial consagração", insiste também que essas mulheres sejam "mulheres do nosso tempo". Uma "especial atenção" deve ser dada aos dois grandes documentos do Concílio Vaticano II: Lumen Gentium e Perfectae Caritatis.

O primeiro, de fato, estabelece uma nova definição da Igreja como "o povo de Deus", promovendo a ideia protestante do sacerdócio dos fiéis, e até faz uma chamada teórica à santidade, mas na prática exalta a vida de serviço acima de todas as outras.

Como isso se traduz na transformação da vida das religiosas contemplativas? Mais participação na liturgia como "o povo de Deus", é claro, e uma oração voltada a melhorar a humanidade em detrimento do louvor a Deus.

Vultum Dei Quaerere pede efetivamente que todas as mulheres contemplativas abracem a agenda social dos Papas pós-conciliares, o que evita a oração pela conversão à fé católica e o objetivo primordial da vida contemplativa no passado: converter-se em vítimas para aplacar a justa ira de Nosso Senhor pelos pecados dos indivíduos e das nações.

Um novo cartaz é erguido: oferecer "oração de intercessão" pelos "presos, migrantes, refugiados e perseguidos". Essas orações de intercessão também devem ser estendidas aos desempregados, aos drogados, aos doentes de AIDS, aos pobres e a outras pessoas em situações "urgentes". Ou seja, as irmãs contemplativas devem abandonar seu foco de oração, que suplica a conversão e salvação das almas, e substituí-lo pela oração que pede o bem-estar social e a saúde dos corpos.

Elas devem "sujar suas mãos" — como esse Papa, à semelhança da lama, gosta de dizer —, indo em oração aos lugares mais sórdidos e miseráveis. As religiosas contemplativas estão, desta forma, convidadas a unirem-se às ordens seculares, que desde o Vaticano II assumiram a missão de prestar ajuda à humanidade para que tenha uma vida melhor, sem levar em conta a fé ou a falta de fé, e para destruir as "estruturas de pecado" do capitalismo.

Como a lectio divina foi "recomendada a todo o povo de Deus", as irmãs contemplativas devem fazer mais para compartilhar sua "experiência transformadora da Palavra de Deus" com outros religiosos e leigos. "Que sintam esta partilha como uma verdadeira missão eclesial", de acordo com a instrução do Papa.

Este compartilhamento deve estar presente sobretudo na liturgia, onde Francisco insta enfaticamente às irmãs a "evitar o risco de uma abordagem individualista" e, ao contrário, construir a "comunhão". Visto que a Eucaristia é o coração da vida consagrada, para "se cumprir e manifestar vitalmente este rico mistério", cada "celebração da Eucaristia" deve ser cuidadosamente preparada e todas devem "tomar parte nela plenamente, com fé e consciência".

Trata-se de um chamado a uma plena "participação" do "povo de Deus" — incluindo as contemplativas consagradas — na missa, que agora recebe o nome de "a Eucaristia". As irmãs também devem prosseguir na "renovação bíblica" estimulada pelo Vaticano II, com a utilização dos novos métodos e da "interpretação existencial da Sagrada Escritura" em suas leituras bíblicas e orações (Ofício Divino).

Mas não se trata apenas de um convite à participação. Vultum Dei Quaerere ordena que "as celebrações comunitárias" devem ser avaliadas para verificar "se são verdadeiramente um encontro vivo com o Senhor". As novas federações estabelecidas no documento terão a última palavra sobre o assunto, forçando de modo efetivo as ordens tradicionalistas ao cumprimento da participação. Só os ingênuos ou as pessoas simples poderiam entender isso de outra maneira.

No próximo artigo, falarei das provisões de Vultum Dei Quaerere sobre a formação das irmãs e a centralização das comunidades contemplativas, integrando-as em federações que garantirão a conformidade com o espírito do Vaticano II.

Continuará.
As irmãs contemplativas devem mudar seus estilos de vida Reviewed by Editor on terça-feira, setembro 06, 2016 Rating: 5
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