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Francisco: a interpretação de Amoris Laetitia permitindo a comunhão aos divorciados recasados é a única possível

Tradução: Carlos Wolkartt – Renitencia.com

Os bispos da região de Buenos Aires, na Argentina, enviaram aos sacerdotes de suas dioceses um comunicado que expõe alguns "Critérios básicos para a aplicação do capítulo VIII de Amoris Laetitia", o mais controverso, no qual se encontra a questão do acesso aos sacramentos da Confissão e da Eucaristia por parte dos divorciados recasados. Ao mesmo tempo, o documento foi submetido ao Papa Francisco, que respondeu no dia 05 de setembro com uma carta na qual assegura que o texto dos prelados argentinos "explica perfeitamente o capítulo 8 de Amoris Laetitia", de acordo com relatos de Infocatólica. "Não há outra interpretação", escreveu Francisco, embora os bispos argentinos tenham afirmado abertamente que o acesso aos sacramentos pode ser autorizado a certos casais recasados, já que um ou outro, ou os dois, ainda se encontra vinculado a um matrimônio religioso precedente que não fora declarado nulo.

A postura do Papa Francisco desmente absolutamente suas afirmações de que não estava ciente nem se recordava com exatidão da nota de rodapé da página da exortação apostólica que abre discretamente esta possibilidade. Não é mais uma questão de conjecturas ou de avanços discretos. O Papa — mas não diremos o Papa revestido de sua autoridade papal — resolveu a questão. A menos que tenham usado sua assinatura, caso em que o Vaticano deve interferir no menor tempo possível, Francisco confirmou todos os temores dos católicos aderentes às normas tradicionais da Igreja e ao ensinamento explícito de Cristo. Concomitantemente, o Papa contradiz as interpretações benevolentes de Amoris Laetitia feitas por teólogos, cardeais, bispos e demais sacerdotes que se recusam em ver nela uma revolução: sim, a revolução existe. Revolução do Magistério? Qual é a autoridade de uma simples carta, embora esteja assinada à mão pelo Papa?

Eis aqui vários pontos do comunicado enviado pelos bispos da região de Buenos Aires a seus sacerdotes.

"Ponto nº 5. Quando as circunstâncias concretas de um casal o tornem possível, especialmente quando ambos são cristãos com um caminho de fé, pode-se propor o empenho de viver em continência. Amoris Laetitia não ignora as dificuldades desta opção (cf. nota 329) e deixa em aberto a possibilidade de acesso ao sacramento da Reconciliação em caso de rompimento desse propósito (cf. nota 364, segundo o ensinamento de São João Paulo II ao Cardeal W. Baum de 22/03/1996)."

Meu comentário. Deve-se recordar aqui que a citação de Gaudium et Spes feita na famosa nota 329 é fraudulenta, já que o documento do Vaticano II se referia à continência entre esposos legítimos para fins de controle natural dos nascimentos, sublinhando que esta continência podia pôr em risco sua fidelidade. Em Amoris Laetitia, essa advertência é aplicada a uma relação adulterina na qual se agiria assim para preservar a "fidelidade". O ensinamento de João Paulo II mencionado aqui (por uma simples citação de uma nota de Amoris Laetitia) não parece estar disponível on-line. Trata-se simplesmente de enfatizar que um compromisso pode ser autêntico inclusive quando há um "provável" risco de queda, podendo ser então essa queda absolvida na confissão.

"Ponto nº 6. Em outras circunstâncias mais complexas, e quando não se pode obter uma declaração de nulidade, a opção mencionada pode ser de fato não factível. Não obstante, um caminho de discernimento é igualmente possível. Se se reconhece que, em um caso concreto, há limitações que atenuem a responsabilidade e a culpabilidade (cf. 301-302), particularmente quando uma pessoa considera que cairia numa outra falta prejudicando os filhos da nova união, Amoris Laetitia abre a possibilidade do acesso aos sacramentos da Reconciliação e da Eucaristia (cf. notas 336 e 351). Estes sacramentos, por sua vez, dispõem a pessoa a continuar amadurecendo e crescendo com a força da graça."

Meu comentário. Talvez não seja inútil recordar que São Thomas More se deparou com um caso análogo quando o rei Henrique VIII da Inglaterra disse que estava convencido em seu foro interno da nulidade de seu matrimônio com Catarina de Aragão, a viúva de seu irmão, e temeroso por sua salvação eterna se continuasse a viver com ela. Thomas More se negou a aprovar os caprichos do rei, considerando de modo especial que Catarina de Aragão tinha direito a um processo canônico para estabelecer a verdade. Por causa disso, Thomas More perdeu sua cabeça. Será preciso dizer hoje, em 2016, que seu sacrifício foi absurdo? Que morreu por nada?

"Ponto nº 9. Pode ser oportuno que um eventual acesso aos sacramentos se realize de maneira discreta, sobretudo quando se prevê situações conflitantes. Mas ao mesmo tempo não se deve deixar de acompanhar a comunidade para que cresça no espírito de compreensão e acolhida, sem que isso implique criar confusões quanto ao ensinamento da Igreja sobre o matrimônio indissolúvel. A comunidade é um instrumento da misericórdia que é 'imerecida, incondicional e gratuita'."

Meu comentário. Aqui vemos que os bispos argentinos desconfiam da reação de certos fiéis. Eles advertem. É a comunidade, e não mais o sacerdote no confessionário, que deve dispensar a misericórdia, e sem fazer perguntas sobre uma eventual inobservância das regras da Igreja.

O Papa Francisco aplaudiu vivamente o texto em sua carta a Dom Sergio Alfredo Fenoy, delegado da região pastoral, agradecendo-lhe por este trabalho e felicitando aqueles que o têm realizado.

Eis aqui a tradução da carta:

Querido irmão,

Recebi o escrito da Região Pastoral Buenos Aires, 'Critérios básicos para a aplicação do capítulo VIII de Amoris Laetitia'. Muito obrigado por ter me enviado, e quero felicitá-los pelo trabalho que têm realizado: um verdadeiro exemplo de acompanhamento aos sacerdotes… e todos nós sabemos o quanto é necessária essa proximidade do bispo com seu clero e do clero com o bispo. O próximo 'mais próximo' do bispo é o sacerdote, e o mandamento de amar ao próximo como a si mesmo começa, para nós, bispos, precisamente com os nossos sacerdotes.

O escrito é muito bom e explica perfeitamente o sentido do capítulo VIII de Amoris Laetitia. Não há outra interpretação. E estou seguro de que fará muito bem. Que o Senhor vos retribua este esforço de caridade pastoral.

E é precisamente a caridade pastoral que nos impele a ir ao encontro daqueles que estão longe e, uma vez reencontrados, iniciar um caminho de acolhida, acompanhamento, discernimento e integração na comunidade eclesial. Sabemos que isso é fatigoso, é uma pastoral 'corpo a corpo' não satisfeita com mediações programáticas, organizacionais ou legais, embora possam ser necessárias. Simplesmente acolher, acompanhar, discernir, integrar. Dessas quatro atitudes pastorais, a menos cultivada, a menos praticada é o discernimento; e eu considero urgente a formação no discernimento, pessoal e comunitário, em nossos seminários e em nossos presbitérios.

Por fim, eu gostaria de recordar que Amoris Laetitia é o fruto do trabalho e da oração de toda a Igreja, com a mediação de dois Sínodos e do Papa. É por isso que vos recomendo uma catequese completa da Exortação, que certamente contribuirá para o crescimento, consolidação e santidade da família.

Agradeço-vos mais uma vez o trabalho feito e vos animo a seguir em frente, nas diversas comunidades das dioceses, com o estudo e a catequese de Amoris Laetitia.

Por favor, não se esqueçam de rezar e de fazerem rezar por mim.

Que Jesus vos abençoe e a Virgem Santa vos guarde.

Fraternalmente,

Francisco.

Não me aventurarei em comentar.
Francisco: a interpretação de Amoris Laetitia permitindo a comunhão aos divorciados recasados é a única possível Reviewed by Editor on domingo, setembro 11, 2016 Rating: 5
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