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O minimalismo, uma doença do catolicismo contemporâneo


Tradução: Carlos Wolkartt – Renitencia.com

Nos últimos dias têm circulado na Itália dois vídeos on-line que nos conduzem à reflexão. O primeiro reproduz as palavras pronunciadas durante a Missa do Galo pelo padre Fredo Olivero [na foto acima], reitor da igreja de São Roque, em Turim: "Vocês sabem por que eu não recito o Credo? Porque eu não creio". Entre o riso dos fiéis, o padre continua: "Se alguém o entende... Mas depois de muitos anos percebi que era algo que eu não entendia e não podia aceitar. Vamos cantar outra coisa que expresse o essencial da fé". O padre, então, substituiu o Credo pela música Dolce Sentire, do filme Irmão Sol, Irmã Lua.

O Credo resume os artigos da fé católica. Negar um desses artigos constitui uma heresia. Negar o Credo inteiro constitui um ato de apostasia pública. E negá-lo no momento sagrado da Missa constitui um escândalo intolerável.

A remoção, a suspensão a divinis, a excomunhão do sacerdote deveria ter sido imediata. Nada disso aconteceu. Embora a mídia tenha divulgado essa notícia inacreditável, a única voz de reação eclesiástica veio do outro lado da Itália, na Sicília, onde o padre Salvatore Priola, pároco e reitor do Santuário Mariano de Altavilla Milicia, expressou em uma homilia sua indignação contra as palavras do padre piemontês, exortando seus fiéis e todos os batizados a reagirem publicamente diante de escândalos desse tipo.

Um vídeo reúne suas belas palavras: "Irmãos e irmãs — diz ele —, quando ouvirem um padre dizer coisas que são contrárias à fé católica, vocês devem ter a coragem de se levantar e dizer a ele, durante a missa: isso não é permitido! Vocês devem ficar de pé quando ouvirem coisas que são contrárias ao nosso Credo. Mesmo que quem esteja falando seja um bispo ou um padre. Levantem-se e digam: Padre, Excelência, isso não é permitido. Pois há um Evangelho: estamos todos submetidos ao Evangelho, do Papa para baixo. Todos estamos submetidos ao Evangelho".


As duas homilias antitéticas impõem algumas considerações. Se um sacerdote nega o Credo católico em pleno altar, sem incorrer nas sanções da autoridade eclesiástica, estamos realmente diante de uma situação de crise na Igreja, de gravidade sem precedentes. Sobretudo porque o caso do padre Frido Olivero não é o único. Milhares de sacerdotes ao redor do mundo pensam da mesma forma e se comportam da mesma maneira. Por outro lado, o que surge como um caso excepcional e, portanto, merecedor de toda a apreciação dos verdadeiros católicos, é o convite do pároco da Sicília pedindo que seus fiéis se ponham de pé na igreja para admoestar publicamente a um padre, e até mesmo a um bispo, que esteja causando algum escândalo. Essa correção pública não só é lícita, mas às vezes pode ser um dever a cumprir.

É um ponto que deve ser enfatizado. A verdadeira causa da crise atual não está tanto na arrogância daqueles que perderam a fé, mas na fraqueza daqueles que, conservando-a, preferem o silêncio ao invés de defendê-la publicamente. Esse minimalismo constitui a doença espiritual e moral dos dias de hoje. Para muitos católicos a oposição aos erros não deve ser feita, pois "comportar-se bem" já é o suficiente, ou a resistência deve ser reduzida à defesa de absolutos morais negativos, isto é, das normas que proíbem, sempre e em qualquer caso, determinados comportamentos contrários à lei natural e divina.

Isso é sacrossanto, mas não devemos esquecer que não há apenas preceitos negativos que nos dizem o que nunca podemos fazer, mas também preceitos positivos que nos dizem o que devemos fazer, quais são as obras e as atitudes que agradam a Deus e com as quais podemos amar o nosso próximo. Enquanto os preceitos negativos (não matar, não roubar, não cometer atos impuros) são formulados em termos concretos — visto que proíbem uma ação específica, sempre e em todos os lugares, sem exceção —, os preceitos positivos (a oração, o sacrifício, o amor à Cruz) são indeterminados, pois não podem estabelecer o que deve ser feito em todas as circunstâncias — embora também obrigam, dependendo da situação.

Os modernistas estendem indevidamente a "moral de situação" dos preceitos positivos aos preceitos negativos, em nome do amor de Deus, esquecendo que amar significa observar a lei moral, pois Jesus disse: "Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda, esse é que me ama" (Jo 14, 21). Os conservadores, por sua vez, frequentemente adotam posições de minimalismo moral, esquecendo que um católico deve amar a Deus com todo o coração, a mente, a alma e com todas as forças (Mt 22, 35-38; Mc 12, 28-30).

É por isso que Santo Tomás de Aquino explica que todos somos obrigados não só ao bem, mas ao bem maior, não no plano da ação, mas no do amor (In Evang. Matth., 19, 12).

A primeira verdade moral é o amor. O homem deve amar a Deus acima de todas as criaturas e amar as criaturas de acordo com a ordem estabelecida por Deus. Há atos negativos que nunca podem ser feitos, sob nenhuma circunstância. Mas há atos positivos que, em certos casos, é obrigatório cumpri-los. Este dever moral não tem seu fundamento em um preceito negativo, mas no amor de Deus.

Os preceitos têm, portanto, um limite inferior: o que não pode ser feito. Mas eles não têm um limite superior, pois o amor a Deus e ao próximo não tem fronteiras, e nós somos perfeitos em função do nosso amor. João Paulo II explica isso no nº 52 da Veritatis Splendor:

O fato de que apenas os mandamentos negativos obrigam sempre e em qualquer circunstância, não significa que na vida moral as proibições sejam mais importantes que o compromisso de praticar o bem indicado pelos mandamentos positivos. O motivo é sobretudo o seguinte: o mandamento do amor de Deus e do próximo não tem, na sua dinâmica positiva, qualquer limite superior, mas possui limite inferior, abaixo do qual se viola o mandamento. Além disso, o que deve ser feito numa determinada situação depende das circunstâncias, que não se podem prever todas de antemão.

À teoria do "mal menor" devemos contrapor a do "bem maior". No nível da ação, o bem não pode ser determinado a priori, pois são tantas, incertas e indeterminadas as boas ações que podemos fazer. Mas se o bem maior surge claramente em nossa consciência, bem definido e de modo que possa ser feito hic et nunc, a negligência é culpada: temos a obrigação moral de fazê-lo.

O preceito da correção fraterna está entre os preceitos morais positivos. Não somos obrigados a fazê-lo sempre, e não podemos exigir isso dos outros como um dever, mas cada um de nós deve se sentir empenhado em reagir diante de negações públicas da verdade católica. Aqueles que realmente amam a Deus devem seguir o exemplo de Eusébio, o leigo posteriormente tornado bispo, que, em 423, levantou-se publicamente contra Nestório, que negava a Maternidade Divina.

A exortação do padre Salvatore Priola, para que nos levantemos diante da voz que proclama coisas contrárias à fé católica, é um convite para manifestarmos o máximo do nosso amor a Deus, sem pôr a chama da nossa fé sob o alqueire, mas em um castiçal, iluminando com nosso exemplo a escuridão de nossos tempos.
O minimalismo, uma doença do catolicismo contemporâneo Reviewed by Editor on sexta-feira, janeiro 19, 2018 Rating: 5
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